Sustentabilidade
Safra da castanha-do-pará quebra, preço dispara e setor prevê nova crise em 2026
Efeito do El Niño derruba produção em mais de 70% e acende alerta sobre instabilidade na cadeia e no mercado
Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com
25/04/2025 - 08:00

Foi por meio de barcos navegando o Rio Trombetas que cerca de 2,5 toneladas de castanha-do-pará chegaram à Cooperativa Mista dos Povos e Comunidades Tradicionais da Calha Norte (Coopaflora), em Oriximiná (PA), a cerca de 470 quilômetros — em linha reta — de Manaus (AM), capital mais próxima. Em anos normais, esse volume seria coletado em dois ou três dias, mas agora representa todo o esforço dos cooperados desde o início do ano até meados de abril. “Quando a safra é boa, num mês desse a gente já teria comprado 30 toneladas. É uma diferença muito grande”, diz Daiana Silva, presidente da Coopaflora. A safra 2024/2025 despencou. Embora os números absolutos não sejam mensurados, pesquisadores da Embrapa estimam quebra superior a 70% em toda a Amazônia, incluindo países vizinhos como o Peru.
Lúcia Wadt, pesquisadora da Embrapa Rondônia, atribui a queda ao El Niño de 2022 e 2023, que causou secas severas na região. Como o ciclo da castanheira leva de 12 a 15 meses, os impactos só aparecem agora. Ela compara ao El Niño de 2015 e 2016, que afetou a safra de 2017/2018. “Naquele ano a quebra foi de cerca de 70%. Agora, esperamos uma queda ainda maior, porque os efeitos climáticos foram mais intensos”, afirma. E explica que a estimativa refere-se à produção biológica da planta — diferente dos dados do IBGE, que se baseiam no volume comercializado.

Entre os principais produtos extrativistas da Coopaflora, a castanha é o de maior relevância para os 172 cooperados. Além disso, quilombolas e indígenas têm o produto como parte da cultura. O reflexo da safra ruim representa a perda de renda dos extrativistas, mas também a falta de um alimento importante para essas comunidades.
“A gente atua no Estado do Pará e tem regiões em áreas quilombolas onde a castanha não deu. Nós, quilombolas, usamos muito a castanha na nossa alimentação. Então, como costumamos dizer, nem para fazer mingau ela deu. Com a falta da castanha, os produtores estão na retirada do óleo de copaíba, que é outro produto da floresta que dá para comercializar. Essa atividade complementa a renda da família, junto com os benefícios sociais, mas não é aquela renda que teríamos com a castanha”, resume Daiana Silva.
Impacto no mercado
Um dos diferenciais das castanheiras é a possibilidade de prever a produtividade da safra seguinte, devido ao ciclo longo de desenvolvimento da castanha-do-pará. Relatos de castanheiros já indicam que a próxima safra será boa, com algumas áreas sinalizando para uma super safra. Situação semelhante foi observada após a safra 2017/2018, quando o fenômeno ficou conhecido como “ressaca”. Mas a alternância entre uma safra muito ruim e outra muito farta quase desestruturou a cadeia produtiva no fim da década passada, e a preocupação é que o cenário se repita.
Eder Frank é dono da Casa do Castanheiro, uma beneficiadora de castanhas que fica em Sena Madureira (AC). No ramo desde 2013, ele conta que no seu ano de estreia as vendas caíram 90% devido aos valores elevados.
“A minha preocupação é que agora seja pior, porque em 2017 uma lata de castanha sem beneficiar chegou ao máximo de R$ 150, e o quilo [na indústria] chegou ao máximo de R$ 70, R$ 75. Hoje, a lata já está R$ 235 e o quilo R$ 110”, diz o empresário. A beneficiadora faz a ponte entre os produtores e as distribuidoras ou os supermercados.
Para Lúcia Wadt, o problema está na oscilação do mercado, agravada pela possibilidade de aumento da oferta. Além disso, a castanha-do-pará é facilmente substituída pelas indústrias. “Com a falta da castanha, o preço fica muito alto e as empresas retiram da linha de produção, mudam o rótulo. Mesmo com a boa safra no ano seguinte, o produto só volta aos alimentos industrializados dois ou três anos depois. A produção se recuperou após 2017, mas a demanda da indústria caiu bastante”, explica.
Frank também chama atenção para o impacto entre os próprios castanheiros. “Imagine que você é produtor e vendeu uma lata por R$ 235. Muitas vezes, o produtor não entende que isso pode nunca mais acontecer. No ano seguinte, ele vai querer o mesmo preço. Se eu disser que vou pagar menos, ele não quer coletar para vender, porque acha que está sendo enganado. Foi o que aconteceu em 2018”, observa.
A preocupação é compartilhada por Daiana Silva, presidente da cooperativa paraense. Segundo ela, há apreensão quanto ao cenário do próximo ano. “A gente fica muito preocupado com a questão do preço. Como vai ser em 2026? Porque tudo indica que a safra vai dar castanha, então o preço cai”, afirma.

Cobranças e soluções
Na visão de Eder Frank, o problema está relacionado também com a falta de fiscalização preventiva contra o desmatamento ilegal e as queimadas que ocorrem na região. “O poder público só chega atrasado. Depois que queimou, que derrubou, não tem mais o que fazer. Demora anos para uma castanheira crescer, isso quando ela é plantada”, destaca.
Já para Lúcia Wadt, da Embrapa, algumas questões poderiam ser estimuladas para diminuir as oscilações de mercado. Iniciativas como previsão de safra, políticas públicas de incentivo à formação de estoques em cooperativas, valorização da castanha e a criação de um seguro extrativista ajudariam a cadeia a se organizar melhor e ter previsibilidade.
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