Sustentabilidade
Desastre ecológico: usina é multada em R$ 18 milhões por mortandade de peixes no interior de SP
Usina informa que está avaliando o teor da decisão e eventuais desdobramentos; laudo aponta morte de mais de 235 mil peixes
Rafael Bruno | São Paulo | rafael.bruno@estadao.com - atualizada às 16h40
19/07/2024 - 11:56

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) concluiu nesta sexta-feira, 19, o laudo técnico sobre o desastre que resultou na morte de toneladas de peixes no Rio Piracicaba e na área de proteção ambiental Tanquã, conhecida como “mini Pantanal” de São Paulo.
A multa determinada pelo órgão ambiental à Usina São José é de R$ 18 milhões. Conforme o laudo técnico, a pena aplicada à empresa tem agravantes como omissão sobre o extravasamento de substância poluidora, o alto volume de peixes mortos e atingimento de área de proteção ambiental.
A diretora-presidente em exercício da Cetesb, Mayla Fukushima, afirma que a companhia identificou a relação direta entre o extravasamento de substância poluente pela usina e os dois episódios de mortandade de peixes.
“O resultado das análises laboratoriais coletadas, das investigações e inspeções realizadas não deixam dúvida sobre a relação entre o extravasamento de material poluente da Usina São José e os episódios de mortandade de peixes que aconteceram nos dias 07 e 15 de julho”, comenta a diretora, em coletiva de imprensa.
Além da multa, a Cetesb informa que estabelecerá exigências técnicas e medidas corretivas por parte da usina.
O que diz o laudo da Cetesb
Em ordem cronológica, o documento divulgado pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) relata que a partir do extravasamento das águas residuárias da usina, foi encontrado no Ribeirão Tijuco Preto, que deságua no Rio Piracicaba, mel de cana-de-açúcar, substância densa, de difícil diluição na água.
“O PH do ribeirão, entre 07 e 08 de Julho, ficou ácido (passando de 7,4pH para 5,4pH), comportamento característico de quando há presença de resíduos de açúcar em água. Essa alta carga orgânica foi levada para o Rio Piracicaba, reduzindo o nível de oxigenação da água, chegando a zero, e inviabilizando a vida aquática. Essa carga orgânica, de alta densidade, foi arrastada pelo curso do rio até o Tanquã, onde por características do local, se acumulou, causando assim novo evento de mortandade no dia 15”, contextualiza a Companhia.
Entre as constatações, o laudo revela que em uma vistoria, no dia 8, verificou-se que parte das águas residuárias industriais ainda escorria em direção ao curso de água e um trator, tipo pá carregadeira, realizava a construção de taludes com terra visando conter totalmente o vazamento.
Também foi observado que um dos tanques de armazenamento de mel possuía sinal de solda de uma abertura por onde foi feita a raspagem do mel solidificado.
“No mesmo dia foi constatado que o solo e a vegetação da Área de Preservação Permanente no local onde escorreram as águas residuárias ficaram escurecidas com aspecto queimado. O Ribeirão Tijuco Preto espumava neste ponto da mesma forma como ocorreu no Rio Piracicaba”, detalha parte do documento apresentado nesta sexta-feira.
Veja fotos abaixo:

Foto: Cetesb

Foto: Cetesb

Foto: Cetesb

Foto: Cetesb

Foto: Cetesb

Foto: Cetesb

Foto: Cetesb
“A Cetesb agiu com prontidão desde os primeiros relatos de mortandade de peixe no Rio Piracicaba. A equipe da Agência Ambiental local realizou inspeções e coletas, localizou a fonte poluidora e garantiu que mais nenhum resíduo fosse extravasado”, comenta Mayla Fukushima.
O incidente resultou na morte de mais de 235 mil espécimes de peixes, em estimativas conservadoras, de acordo com o órgão ambiental.
Confira no arquivo abaixo o laudo completo:
O que diz a Usina São José
Procurada pelo Agro Estadão, a Usina São José informa que recebeu o relatório da Cetesb e está avaliando o teor da decisão, bem como seus eventuais desdobramentos.
“Cabe lembrar que as operações da usina estavam interrompidas desde 2020, tendo sido retomadas somente em maio deste ano, e que nos últimos 10 anos houve mais de 15 ocorrências dessa natureza na região. A empresa esclarece ainda que adota as melhores práticas do ponto de vista ambiental e não poupa esforços para colaborar plenamente com a Cetesb, a Polícia Ambiental e o Ministério Público”, informa em nota a empresa.
Atualização*
Posteriormente à publicação desta matéria a Usina São José divulgou um comunicado à imprensa, onde ratifica a informação acima e faz as demais considerações:
Usina São José, 19 de julho de 2024
- Até o momento a empresa não recebeu evidências que demonstrem nexo causal entre suas operações e a mortandade de peixes registrada ao longo do Rio Piracicaba e no Tanquã.
- O termo de vistoria ambiental da Polícia Militar Ambiental de 8 de julho conclui não ter havido “apontamento de danos ambientais no ato da vistoria”.
- O mesmo documento aponta a existência de uma galeria pluvial sob a Ponte do Funil, que estaria “despejando um líquido perene com volume alto, amarelado e odor forte, através de uma manilha de plástico de 10 polegadas”; o local fica a 12 quilômetros da usina, entre Santa Bárbara d’Oeste e Limeira, e não foi considerada no relatório final apresentado no último dia 19 de julho.
- O relatório em questão aponta “lançamento de efluentes de cor escura e odor característico de esgoto sanitário” e “carreamento de material flutuante” em saídas de estações de tratamento de efluentes no Ribeirão dos Toledos, em Santa Bárbara d’Oeste, mas não aprofunda investigações a respeito.
- As operações da usina estavam interrompidas desde 2020, tendo sido retomadas somente em maio de 2024; nos últimos 10 anos houve pelo menos 17 ocorrências dessa natureza na região.
- A usina não tem produção de etanol e, portanto, não gera a vinhaça, subproduto presente em vários dos casos registrados anteriormente.
- O relatório não menciona inspeção e monitoramento em empresas que tenham sido autuadas anteriormente, nem em outros trechos do rio onde possa ter havido eventuais despejos irregulares.
- Na coletiva de imprensa realizada no dia 19 de julho, o prefeito de Piracicaba, Luciano Almeida, lembrou que a baixa vazão de água pelo Sistema Cantareira e o despejo irregular de esgoto pelos municípios podem ser agravantes do problema ocorrido.
Siga o Agro Estadão no Google News e fique bem informado sobre as notícias do campo.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Sustentabilidade
1
Governo aprova Plano Clima com previsão de aumento das emissões da agropecuária
2
Código Florestal avança no CAR, mas emperra no PRA, aponta estudo
3
CMN adia exigência ambiental, mas endurece outra regra do crédito rural
4
Moratória da Soja: AGU pede mais prazo ao STF para manter suspensão de lei de MT
5
Agro em 2026: crédito verde e regras ambientais mais rígidas
6
Moratória da Soja: produtores comemoram a saída de grandes empresas do acordo
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Sustentabilidade
Mercosul fornecerá dados de desmatamento no acordo com a União Europeia
Produtos da bioeconomia também terão vantagens adicionais no mercado europeu, afirma Ministério do Meio Ambiente
Sustentabilidade
Exportações brasileiras de etanol têm o menor desempenho desde 2017
Por outro lado, as importações do combustível foram as maiores registradas desde 2021
Sustentabilidade
ANP autoriza início de operação da primeira usina de etanol de trigo do Brasil
CB Bioenergia terá capacidade de processar 100 toneladas do cereal por dia e gerar até 12 milhões de litros de etanol hidratado por ano
Sustentabilidade
Corteva e BP criam empresa para produção de óleo para biocombustíveis
Expectativa é de que a operação comece em 2027, com uso em coprocessamento em refinarias e plantas dedicadas à produção de biocombustíveis
Sustentabilidade
Bunge e Mantiqueira firmam acordo por soja de baixo carbono
Parceria envolve fornecimento de 12 mil toneladas de farelo rastreável e incentiva práticas de agricultura regenerativa
Sustentabilidade
Saída de tradings da moratória da soja preocupa Imaflora
Instituto diz que enfraquecimento do pacto pode comprometer metas ambientais e climáticas e prejudicar imagem do agronegócio brasileiro
Sustentabilidade
Após deixar Moratória da Soja, Abiove confia em novo marco regulatório
A associação reforça que as empresas associadas continuarão, de forma individual, atendendo às demandas de mercado e socioambientais
Sustentabilidade
BNDES lança edital para destravar certificação de carbono no Brasil
Com orçamento de R$ 10 milhões, banco pretende mapear gargalos, custos e regras do setor em meio à criação do mercado regulado