Sustentabilidade
Boi orgânico: tudo o que você precisa saber
De olho na crescente demanda sustentável, produção de boi orgânico avança no Brasil, visando o bem-estar animal em harmonia com o meio ambiente

A produção do boi orgânico tem ganhado espaço no cenário da pecuária sustentável. A carne produzida nesse sistema tem como base a sustentabilidade ambiental, social e econômica. Atualmente, apenas pecuaristas de Mato Grosso do Sul, na região do Pantanal, produzem carne orgânica certificada no país.
Mas afinal, o que é um boi orgânico?
A diferença do boi orgânico para o gado convencional está no modo de produção, que segue os princípios da agricultura orgânica.
O gado orgânico deve ser criado, exclusivamente, em sistemas de pastagem, sendo permitido:
- uso de adubação verde;
- suplementação, exclusivamente, com alimentos de origem vegetal, dos quais 80% devem ser orgânicos;
- tratamento veterinário restrito a produtos fitoterápicos e homeopáticos;
- aplicação de todas as vacinas obrigatórias.
Além disso, ele é rastreado desde seu nascimento até o abate, com registro de peso, alimentação, vacinas, entre outras informações, em fichas individuais.
Nesse sistema de produção, é proibido: o uso de uréia, a utilização de fogo para manejar as pastagens e a transferência de embriões.

Quais as vantagens para a criação do boi orgânico?
A criação do boi orgânico proporciona vantagens aos animais, ao meio ambiente e também à saúde e à economia.
A atenção ao bem-estar animal é uma das prioridades na criação de gado orgânico. Métodos de manejo mais naturais e menos estressantes são adotados, visando tanto a saúde física quanto emocional dos animais. Isso inclui práticas como sombreamento nas pastagens e currais em formato circular para evitar lesões nos animais. Além disso, o acesso a pastagens e a alimentação livre de aditivos artificiais resultam em uma carne de qualidade superior.
Na perspectiva do meio ambiente, o boi orgânico é criado em fazendas certificadas que seguem normas ambientais rigorosas. Estas normas garantem o cumprimento da legislação, protegendo áreas naturais como matas ciliares e nascentes, e proíbem o uso de agroquímicos e fogo no manejo das pastagens. Métodos, como o pastoreio rotativo — prática de mover os animais através do pasto —, ajudam a conservar o solo, evitando erosão e promovendo a retenção de água.
A proteína do boi orgânico tende a ser uma opção mais saudável para os consumidores. Ao comprar a carne orgânica certificada, o consumidor tem a garantia de que está levando para casa um alimento completamente livre de resíduos químicos, pois a carne é produzida da maneira mais natural possível, já que os animais são tratados, principalmente, com medicamentos fitoterápicos e homeopáticos. O processo de produção desta carne diferenciada garante o consumo de um alimento seguro e saudável.
Além do mais, a produção orgânica pode reduzir a dependência de insumos externos, tornando os sistemas de produção mais resilientes a flutuações de mercado.

Quais os desafios da criação de gado orgânico?
A criação de gado orgânico no Brasil enfrenta alguns desafios, desde a necessidade de manejo diferenciado até a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada. No manejo, a alimentação com pastagens e rações orgânicas, livres de agroquímicos e fertilizantes sintéticos, exige muita atenção do criador. Além disso, a suplementação deve ser feita com ingredientes orgânicos, o que pode ser um desafio logístico. A ração orgânica e outros insumos necessários para a produção orgânica tendem a ser mais caros do que os convencionais elevando o custo ao pecuarista
Como também é necessário garantir que os animais tenham acesso a áreas de pastagem suficientes e condições de vida que respeitem o bem-estar animal, isso pode implicar em maiores áreas de terra e infraestrutura específica. Além do mais, a mão de obra qualificada para a produção orgânica de gado é escassa, devido à necessidade de conhecimentos especializados em práticas orgânicas e manejo sustentável. Há uma necessidade contínua de treinamento para que a equipe esteja atualizada sobre as melhores práticas orgânicas. E o processo de certificação orgânica pode ser oneroso, incluindo custos com auditorias, adequação de práticas e manutenção da certificação.
Como ter a certificação de carne bovina orgânica?
Obter a certificação de carne orgânica no Brasil é um processo que envolve várias etapas rigorosas e exigências específicas.
Primeiro passo
O primeiro passo é compreender as normas e regulamentos definidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que supervisiona a certificação orgânica no país. A legislação da produção orgânica está estabelecida na Lei nº 10.831/03, conhecida como a “Lei dos Orgânicos”, regulamentada pelo Decreto no 6.323, de 27 de dezembro de 2007, bem como na Instrução Normativa (IN) nº64/2008 substituída pela IN 46/2011. Esses regulamentos detalham os critérios que devem ser cumpridos em todas as etapas da produção e as práticas de manejo da produção animal e vegetal brasileira.
Segundo passo
Após a adaptação das práticas de manejo (citadas na reportagem), o próximo passo é escolher uma certificadora credenciada pelo MAPA. Essas certificadoras são responsáveis por realizar auditorias no local para verificar se todas as normas estão sendo seguidas. O processo de certificação inclui a análise de documentos e registros de produção, inspeções periódicas nas instalações e a verificação do cumprimento dos padrões orgânicos em todas as etapas da produção. Por isso, o produtor deve manter registros detalhados de todas as práticas agrícolas e tratamentos administrados aos animais.
Com o processo de auditoria concluído e todos os requisitos atendidos, a certificadora emite o selo de certificação orgânica. Esse selo é essencial para que a carne possa ser comercializada, garantindo aos consumidores que o produto atende aos padrões de produção orgânica. Além disso, a certificação orgânica deve ser renovada periodicamente, com novas auditorias para garantir a continuidade do cumprimento das normas.


Mercado para carne bovina orgânica
Atualmente, o Brasil produz cerca de duas mil cabeças ao ano de boi orgânico, segundo informações da Associação Pantaneira de Pecuária Orgânica e Sustentável (ABPO). Sobre o avanço mercadológico da proteína, no entanto, não há dados concretos ainda, mas Eduardo Cruzetta, presidente da entidade, comenta que o crescimento do mercado de carne orgânica está vinculado ao crescimento da demanda por produtos naturais, livres de resíduos. Segundo ele, este avanço vem sendo limitado pela renda dos consumidores, já que se trata de produto com alto valor agregado e consequentemente com custo maior aos consumidores.
“O custo de produção é maior do que o convencional e existem muitas restrições quanto ao uso de insumos para ele ser considerado orgânico, como a utilização de ureia, antibióticos e grãos transgênicos”, explica Cruzetta. Além disso, o presidente da ABPO argumenta que no boi orgânico se agregam os custos de certificação da cadeia produtiva, (fazendas, indústria frigorífica e indústria de desossa), tornando a cadeia de valor mais onerosa.
Entre os principais mercados consumidores, destacam-se os grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília no cenário nacional. Internacionalmente a ABPO destaca as importações da Europa, como os países nórdicos Holanda e Alemanha, onde o produto é conhecido como “BIO”, além dos Estados Unidos e Japão.
Quanto à demanda pela proteína, Eduardo Cruzetta diz acreditar que existe uma procura reprimida, que oscila porque, segundo ele, falta conhecimento da população sobre os benefícios e a qualidade da carne orgânica.
Cruzetta cita como exemplo: “um produto livre de resíduos por ser produzido da forma mais natural, é mais magro, com maior índice de ômega-3, o que está alinhado com o público que busca alimentos com menos gordura e que ajudam a manter um estilo de vida mais saudável”.
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