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Sustentabilidade

Avanço científico pode multiplicar por 8 a oferta de biocombustíveis no Brasil

Descobertas com bactéria aliada ao uso de resíduos da cana ampliam potencial do País na produção de combustíveis renováveis

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Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP)

26/06/2025 - 08:00

Pesquisadora atua em projeto que busca transformar CO₂ em combustíveis renováveis, no Instituto de Química da USP. Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Pesquisadora atua em projeto que busca transformar CO₂ em combustíveis renováveis, no Instituto de Química da USP. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Descobertas feitas por universidades e institutos de pesquisa brasileiros abrem caminho para que o País lidere a transição energética global com novo impulso à produção de biocombustíveis. Entre os avanços, estão uma bactéria capaz de atuar sobre a celulose de forma inédita, uma tecnologia que transforma poluição em compostos renováveis e o uso de matérias-primas não convencionais, como coco, macaúba e trigo.

A trajetória brasileira nos biocombustíveis começou nos anos 1970, com o Proálcool, programa federal que incentivou o etanol como alternativa aos derivados de petróleo, que eram pressionados por um choque internacional de preços.

CONTEÚDO PATROCINADO

Em 2005, foi a vez do biodiesel, misturado ao diesel comum inicialmente em 2%, de forma voluntária. A partir de 2009, resolução do Conselho Nacional de Política Energética tornou obrigatória a adição, que chegou a 14% no ano passado. Desde então, o Brasil produziu 77 bilhões de litros de biodiesel, evitando a emissão de 240 milhões de toneladas de gás carbônico (CO₂) e economizando US$ 38 bilhões em importações. Só em 2024, foram 9 bilhões de litros, um recorde. Nesta semana, mais um avanço: foi aprovado o aumento da mistura de etanol na gasolina para 30% e do biodiesel no diesel para 15%.

No Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), estudos com o material genético de uma bactéria podem potencializar esses números. O trabalho, coordenado por Mário Murakami, diretor do Laboratório de Biorrenováveis, conta com mais de 30 pesquisadores no Brasil e no exterior e identificou, na chamada “matéria escura” genômica, uma possível chave para esse avanço.

A expressão se refere à parcela ainda desconhecida da vida microbiana na Terra, estimada em 99%, segundo Murakami. “Apenas 1% dos microrganismos foi catalogado, o que mostra a importância de termos programas estruturados e tecnologias habilitadoras para explorar nossa biodiversidade”, afirma.

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Quebra de paradigma

Os pesquisadores envolvidos no projeto, que tiveram um artigo publicado na revista científica Nature, uma das mais importantes do mundo, percorreram seis grandes biomas nacionais para recolher amostras de solo. Em uma delas, coberta por bagaço de cana-de-açúcar, identificaram uma bactéria com marcadores de ação sobre a celulose. Extraíram o material genético e o inseriram em um fungo com alto poder de multiplicação. Testes em biorreatores de plantas pilotos mostraram um ganho de 20% na quebra da celulose. 

“Há 20 anos, uma outra classe de enzima havia promovido um aumento de 10%. Agora, conseguimos o dobro. Além desse ganho industrial relevante, pudemos fazer mais uma grande entrega: mudar o paradigma sobre o metabolismo da celulose, o polímero mais abundante do planeta”, declara Murakami.

Mário Murakami, diretor do Laboratório de Biorrenováveis do CNPEM. Foto: Erik Medina/CNPEM

Murakami lembra que, além de uma rica biodiversidade, o Brasil tem muitas fontes de resíduos – como as 400 milhões de toneladas de bagaço de cana por safra, que, se totalmente convertidas em biomateriais, poderiam garantir uma oferta equivalente a oito vezes o consumo atual de biocombustíveis no País. “Quando as pesquisas são orientadas por uma missão e há tecnologias disponíveis, temos todas as condições de deixar de ser apenas um produtor de commodities para gerar tecnologia de ponta”. 

Sem poluição

No Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RGCI), da Universidade de São Paulo (USP), mais de 600 pesquisadores atuam em parceria com instituições nacionais e internacionais em 60 projetos voltados à descarbonização da atmosfera. Entre eles, está Liane Rossi, docente do Instituto de Química e uma das autoras de um artigo publicado recentemente na Science, outra das revistas científicas mais respeitadas do mundo.

O estudo do qual participa tem conseguido transformar o gás carbônico da atmosfera em metanol verde, com perspectivas de também produzir etanol pelo mesmo processo. Um dos desafios é desenvolver novas formulações de catalisadores capazes de converter o CO₂ em combustível.

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Os catalisadores de metanol mais eficientes até hoje dependem de materiais escassos e têm vida útil limitada. Entre 2020 e 2024, os avanços nas pesquisas ampliaram as possibilidades e indicaram que 85% das formulações testadas converteram CO₂ em metanol com mais de 50% de eficiência.

Liane destaca que o objetivo vai além do metanol: é gerar diversos produtos derivados do gás carbônico que contribuam para um futuro sustentável. “A chave está no desenvolvimento de catalisadores inovadores”.

Outras matérias-primas

Algumas matérias-primas usadas nos biocombustíveis também são inovadoras. Neste ano, a Be8, maior produtora de biodiesel do País, iniciou as obras de uma planta em Passo Fundo (RS), que será a primeira do Brasil a gerar o combustível a partir de trigo e triticale.

Em São Paulo, pesquisas buscam incentivar o cultivo comercial da macaúba, palmeira rica em óleo. Já em Aracaju (SE), o Núcleo de Estudos em Sistemas Coloidais (Nuesc), da Universidade Tiradentes, desenvolve biocombustível a partir da biomassa do coco verde.

Segundo o pesquisador Cláudio Dariva, o projeto aproveita integralmente os resíduos do fruto e visa reduzir o passivo ambiental — só em Aracaju, o descarte chega a 190 toneladas por semana. “O processo tem balanço de carbono zero, pois o CO₂ gerado é reincorporado na biomassa durante o crescimento vegetal”, afirma.

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