Pecuária
Silagem de bagaço de maçã ajuda a reduzir custos na pecuária e o gado gosta
Pesquisadoras da Epagri testam uso do subproduto como suplemento; trabalho avalia segurança, nutrição e conservação
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
13/12/2025 - 05:00

A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) conduz um estudo para avaliar o uso do bagaço de maçã como suplemento para bovinos, especialmente em épocas de menor oferta de pasto. A pesquisa seguirá até o segundo semestre de 2026, mas os primeiros resultados já mostram boa aceitação pelos animais, reforçando o potencial do resíduo como alternativa alimentar de baixo custo.
As zootecnistas Vanessa Ruiz Fávaro e Ângela Fonseca Rech inseriram a maçã na lista de experimentos por causa da grande oferta da fruta na Serra Catarinense. A região de São Joaquim, por exemplo, deve colher cerca de 290 mil toneladas nesta safra. “Tudo o que sobra da agroindústria pode e deve ser usado na alimentação animal”, afirma Vanessa. O bagaço, produzido após o processamento da fruta, é rico em energia e carboidrato solúvel, mas pobre em proteína, o que exige balanceamento da dieta.
O foco da pesquisa é a criação a pasto. No outono, quando a pastagem cresce menos e perde qualidade, o bagaço entra como suplementação estratégica. A conservação é o ponto crítico: o resíduo possui cerca de 80% de água e estraga rápido ao ar livre. Fermentações indesejáveis e bolores podem gerar toxinas que prejudicam o rebanho. Para evitar isso, a equipe recomenda armazenar o material em forma de silagem por, pelo menos, 40 dias. “Se o material não for conservado, pode causar intoxicação e outros problemas, como qualquer alimento mal armazenado”, destaca Vanessa.
A silagem bem feita mantém a qualidade do bagaço por até um ano, e a equipe estuda a possibilidade de ampliar esse prazo para dois anos em silo fechado. Muitos produtores já têm estrutura para ensilar e podem adaptar o espaço sem custo elevado. As amostras coletadas no campo são analisadas no laboratório da Estação Experimental de Lages. As cientistas avaliam proteína, fibras, matéria seca, gordura e digestibilidade. Como não há padrão industrial para o resíduo, a composição varia.
Os ensaios iniciais com machos de corte mostraram boa resposta. “O bagaço de maçã é bem palatável. Quando colocamos no cocho, os animais vêm consumir imediatamente e comem tudo”, relata Vanessa. Esse comportamento reforça o potencial do suplemento para complementar alimentos nobres, como milho e soja, sem substituí-los por completo.
Má conservação de suplementos pode causar abortos

Além dos machos de corte, que consumiram o suplemento sem apresentar problemas, a pesquisa avança para esclarecer relatos antigos de aborto em vacas prenhas. Para isso, a Epagri acompanha 60 animais, divididos entre vacas suplementadas com a silagem de maçã e vacas controle. O ensaio será repetido por dois anos. Segundo Vanessa, “o risco não é da maçã, e sim da má conservação”. O uso como suplemento — e nunca como alimento único — é premissa do estudo.
Além de auxiliar a pecuária, o estudo fortalece a formação de novos profissionais da área. A etapa reprodutiva do experimento, que envolve inseminação artificial e exames de ultrassom, é realizada em parceria com a Universidade Estadual (Udesc). Alunos do curso de Medicina Veterinária participam do manejo e acompanham o desenvolvimento das vacas prenhas no rebanho da Estação Experimental.
Segundo a professora Verônica Scheeren, a parceria aproxima a universidade das rotinas do campo. Ela destaca que a atividade oferece aos estudantes “vivência real com grandes animais e crescimento prático importante”, reforçando a qualificação de futuros técnicos que atuarão diretamente junto aos produtores rurais.
A pesquisa tem apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação de Santa Catarina (Fapesc). Ao fim das análises, a Epagri vai publicar um guia com orientações práticas ao produtor. A ideia é apresentar recomendações sobre conservação, quantidade, balanceamento da dieta e categorias indicadas.
Na sequência, pesquisadora Vanessa Fávaro planeja iniciar um mapeamento de outros subprodutos agroindustriais do Estado, como bagaço de uva, resíduos de palmito, maracujá e abacaxi, fortalecendo as alternativas regionais de alimentação suplementar.
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