Pecuária
Como se produz queijo agroecológico na Serra da Canastra
Em Piumhi, na Canastra, uma queijaria mostra que produzir artesanalmente pode regenerar o ambiente e virar referência de sabor
Redação Agro Estadão*
09/02/2026 - 05:00

A Serra da Canastra, famosa pelo queijo mineiro, tem uma história que vai além do sabor. Na cidade de Piumhi, a Queijaria Faz o Bem mostra que fazer queijo pode ajudar a preservar e recuperar o meio ambiente.
Vinícius Soares, dono da queijaria criada em 2021, prova que é possível produzir de forma artesanal e ainda cuidar da natureza em reportagem do Sebrae.
Queijo agroecológico na Canastra: um modelo de fazenda que preserva e produz
A fazenda da Queijaria Faz o Bem tem 25 hectares perto do Ribeirão Araras. Quase metade da área (44%) fica preservada com mata nativa. No restante, Vinícius usa técnicas que melhoram a terra.
Não há defensivos no pasto nem remédios em excesso nos animais. Esse jeito de trabalhar precisa de planejamento constante, mas resulta em um rebanho saudável e ambiente equilibrado.
Um exemplo prático acontece com o soro do queijo. Esse líquido que sobra da produção alimenta porcos da raça Piau criados soltos em quase dois hectares. Como explica Vinícius: “o soro deixa de ser lixo e vira parte do sistema da fazenda”.
Sistema silvipastoril: produzir queijo com mais árvores
O sistema silvipastoril mistura árvores, pasto e gado no mesmo lugar. Na fazenda, 3,4 hectares de pasto dividido em piquetes (áreas menores onde o gado fica por períodos) já receberam cerca de 800 árvores plantadas.
As árvores fazem sombra para o gado, diminuem a perda de água do solo e criam ambientes diferentes para várias plantas crescerem. A ideia para o futuro é clara: “Daqui a cinco ou dez anos, vamos produzir queijo embaixo de uma floresta”, conta o produtor.

Qualidade, maturação e mercado: quando o processo vira valor
Os queijos são feitos com leite cru (não pasteurizado) e fermento natural. Durante o tempo de cura, a lactose se quebra naturalmente, uma característica do processo artesanal. A queijaria tem o Selo Queijo Artesanal, que permite vender em todo o Brasil.
A qualidade aparece nos prêmios. Em 2022, com apenas um ano funcionando, a queijaria ganhou medalhas de Prata e Bronze no Mundial do Queijo do Brasil. Em setembro de 2025, ficou em segundo lugar no Concurso de Queijos Artesanais de Minas Gerais.
Marca, território e desafios reais
Produzir de forma sustentável também envolve escolhas difíceis. O Sebrae ajudou a criar a marca da queijaria e trabalha para fortalecer o queijo da Canastra como um todo. A fazenda faz parte das Rotas da Canastra, projeto de turismo que inclui café, queijo e cachoeiras.
Entre 2023 e 2025, a Faz o Bem foi a primeira da região a conquistar a certificação orgânica para o queijo Canastra. Manter o selo, no entanto, trouxe desafios. As regras da produção orgânica não permitiam o uso de milho e soja transgênicos na ração, o que levou à queda da produtividade do rebanho: a produção recuou para entre 8,5 e 9 litros de leite por vaca ao dia.
Diante desse cenário, Vinícius decidiu abrir mão da certificação orgânica para preservar a produtividade. Sem o selo, a produção voltou a subir, alcançando cerca de 14 litros por vaca ao dia. Mesmo assim, o produtor afirma que continua cuidando da terra e dos animais da mesma forma. O objetivo, segundo ele, não é produzir mais, mas servir de exemplo para outros produtores.
A experiência da Queijaria Faz o Bem mostra que é possível fazer queijo de qualidade cuidando do meio ambiente. O segredo está em ver a fazenda como um sistema completo, onde cada parte ajuda a outra, e o que sobra de uma atividade vira recurso para outra.
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