Pecuária
Bem-estar humano impulsiona resultados na pecuária de Rodrigo Canabrava
Produtor mineiro opera com foco em “qualidade total” e estrutura a eficiência a partir do cuidado com as pessoas; conheça os pilares da sua gestão
Mônica Rossi | Porto Alegre | monica.rossi@estadao.com
14/12/2025 - 05:00

O sucesso da pecuária vai muito além dos investimentos em genética e tecnologia. É o que pensa do engenheiro civil, que se tornou pecuarista por paixão, Rodrigo Canabrava. À frente da RC Agropecuária, referência na produção de bezerros de qualidade no Norte de Minas Gerais, ele defende que o pilar fundamental na gestão de uma fazenda é o capital humano.
Há 37 anos na atividade, dos quais 25 dedicados profissionalmente, Canabrava afirma que o bem-estar da equipe é um requisito essencial e reflete diretamente na qualidade do produto final. “A gente fala tanto em bem-estar animal, mas temos que nos preocupar também com o bem-estar das pessoas que estão com a gente”, resumiu Canabrava durante palestra para pecuaristas. “Sigo o princípio de São Francisco de Assis: é dando que se recebe. Ofereço bem-estar e tenho como retribuição motivação e entusiasmo. Minha equipe está motivada no mesmo nível que eu”.
Com entusiasmo contagiante, o pecuarista elencou pilares para uma criação de gado bem-sucedida e produção de carne de qualidade:
O pilar social
O primeiro e mais importante pilar na filosofia de gestão da RC Agropecuária é ter uma equipe engajada, motivada e bem treinada. Para Canabrava, isso só é alcançado com um cuidado que se estende para além da porteira. Atualmente, na fazenda em Bocaiúva (MG), trabalham 120 pessoas, muitas das famílias moram em casas cedidas na propriedade.
O pecuarista relata que o cuidado se materializa em boas moradias, visitas às casas para checar as condições em que vivem os empregados, alimentação equilibrada oferecida na fazenda e apoio prático em saúde e educação. “Não tem como a gente mexer com cria, não tem como mexer com bezerro sem ter uma equipe treinada. E essa equipe treinada exige cuidado. Cuidado com a remuneração compatível com o padrão de mercado. Cuidado com a possibilidade de crescimento profissional, um plano de carreira. Eu tenho na minha fazenda jovens que nasceram na fazenda, filhos de funcionários, que evoluíram na carreira e hoje estão comandando unidades. Isso me dá muita satisfação”, complementa.
A conectividade é tratada como direito básico: internet para todas as famílias, para reduzir o isolamento e apoiar a educação dos filhos nos trabalhadores no meio rural. “Ninguém aqui fica sem internet. Então, por que os nossos funcionários não podem ter?”, questiona. Para Canabrava, essa preocupação com o social sustenta a motivação e reduz a rotatividade de funcionários.

Além disso, o criador diz que trabalha para a valorização do vaqueiro. “Um bom uniforme. Tem que usar um chapéu, uma botina, um cinto de fivela com orgulho. Isso aí valoriza a profissão deles, valoriza a fazenda, valoriza o emprego. São questões muito importantes”, afirma. A RC Agropecuária realiza festivais anuais que servem para fortalecer a integração entre as unidades e aumentar o sentimento de pertencimento.
Pilar do bem-estar
Canabrava destaca a importância de uma fazenda bem cuidada, com capricho em vez de luxo. Isso inclui pastagens bem divididas e curral anti-estresse. Balança e brete, por exemplo, são considerados inegociáveis para segurança, produtividade e bem-estar animal. Assim como as rotinas de manejo, que preservam a equipe.
A água limpa e abundante e uma mineralização de ponta são itens nos quais ele afirma ser “intransigente”. Canabrava relata gasto em torno de 9% do custo total com água, ureado e proteinado. Ele garante que o “retorno é garantido em todo o processo”.
O capricho se estende a outros cuidados com a saúde do rebanho. “Você trabalhar no nível top de sanidade, com os melhores produtos – cumprindo o calendário sanitário mais rigoroso – você vai gastar 1%. Isso tudo compõe também a qualidade da carne. Todo mundo quer que o gado tenha boa origem e boa procedência”.
Pilar da sustentabilidade

O respeito às regras ambientais é visto como uma obrigação ética e estratégica. Para ele, o fazendeiro brasileiro não é apenas um produtor, é um exemplo de cuidado com o meio ambiente. “Somos os cuidadores da natureza, somos guardiões da natureza, das nossas propriedades. Nenhum produtor rural do mundo faz o que fazemos com nossas terras. Mais de 25% do país são terras privadas destinadas à reserva ambiental”.
Pilar da tecnologia
A tecnologia do melhoramento genético é considerada uma ferramenta da qual não se pode abrir mão. Por isso, a busca por animais geneticamente superiores é constante. Canabrava, que tem preferência pelo cruzamento Zebu-Zebu (entre raças zebuínas), utiliza os melhores touros melhoradores disponíveis no mercado para escalar o desempenho de seu rebanho. Ele enfatiza a importância de um processo rotineiro de “avaliar, medir, anotar e apartar” para aprimorar a vacada, que ele considera um patrimônio e não um mero ativo financeiro.
O criador revela que a gestão da fazenda é guiada por processos inteligentes, com um sistema de controle de centro de custos para perseguir resultados. Canabrava diz que trabalha com um planejamento plurianual de cinco anos para ter firmeza nas decisões. “Nós temos muita surpresa no campo: é falta de chuva, é o mercado instável de preço… Mas a gente não pode ter surpresa no que diz respeito à porteira para dentro. Nós temos que ter firmeza. Temos que saber o que vamos produzir o ano que vem, como vai ser daqui a dois anos e como está a minha perspectiva de geração de caixa. Esse ciclo virtuoso de que estou falando precisa se alimentar do resultado. Não conseguimos cuidar bem de pessoas, de genética, de sanidade, se não tiver resultado”, pontua.

Canabrava defende também a importância da organização coletiva dos produtores rurais para garantir representação em todos os níveis e defender os interesses com firmeza e independência. “Não tem que estar preocupado com o governo de plantão. O governo de plantão passa e as nossas fazendas ficam para nós, para os nossos filhos, para os nossos netos e para muitas outras gerações”.
Para o pecuarista, a junção de todos esses fatores — da responsabilidade social ao planejamento financeiro — é o que constrói um produto de valor reconhecido pelo mercado. “Se a gente faz esse trabalho sério, esse trabalho dedicado a produzir qualidade, o reconhecimento vem. A geração de valor no seu produto é consequência natural”.
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