PUBLICIDADE

Pecuária

Pesquisadores se mobilizam para evitar a extinção dos jumentos

Diante da urgência de proteger o animal no Brasil e no mundo, estudo da UFPR testa obtenção de colágeno em laboratório, sem abate

Nome Colunistas

Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP) | igor.savenhago@estadao.com

14/02/2026 - 08:46

Número de jumentos no Brasil caiu de 1,37 milhão em meados da década de 1990 para 78 mil. Foto: Adobe Stock
Número de jumentos no Brasil caiu de 1,37 milhão em meados da década de 1990 para 78 mil. Foto: Adobe Stock

No Laboratório de Zootecnia Celular (Zoocel) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), um grupo de pesquisadores liderado pela professora Carla Molento busca uma solução para evitar a extinção dos jumentos no Brasil.  

Em vez de extrair colágeno da pele dos animais — prática que tem impulsionado o abate em larga escala —, a equipe experimenta produzir a proteína por meio da fermentação de precisão, uma técnica de biotecnologia que insere trechos do material genético dos jumentos em microrganismos capazes de fabricar colágeno em laboratório. Dessa forma, seria possível atender à demanda de mercado sem precisar fazer o abate, reduzindo a pressão sobre a espécie. 

CONTEÚDO PATROCINADO

A pesquisa conta com apoio do Ministério do Meio Ambiente e da Fundação Araucária, envolvendo, ainda, parcerias nacionais e internacionais. Uma delas é com o Departamento de Engenharia de Bioprocessos da Universidade de Wageningen (Holanda). 

Segundo Carla, que é doutora em Zootecnia e tem pós-doutorado em bem-estar animal pelo Instituto ILVO, na Bélgica, os animais desta espécie – também chamados de asnos ou jegues (Equus africanus asinus) — enfrentam um dos maiores desafios de sua história: a possibilidade real de desaparecer caso medidas eficazes não sejam adotadas.

No Brasil, um dos polos dessa crise está no declínio populacional acelerado da espécie, que é impulsionado pela exploração de sua pele para a indústria de colágeno, especialmente para um composto tradicionalmente usado na medicina chinesa, o ejiao

A consultoria empresarial e financeira Newsijie, com sede em Pequim, calcula que o mercado de eijao movimente 58 bilhões de yuans anualmente – o equivalente a US$ 8 bilhões de dólares. Para dar conta de suprir essa demanda, são necessárias 5,9 milhões de peles de jumentos. 

PUBLICIDADE

Neste cenário, a ideia central da pesquisa da UFPR aplica um método já amplamente utilizado na produção de queijos, hambúrgueres vegetais e outras proteínas alternativas. Caso os resultados apareçam, o ejiao e outros produtos que dependem da pele de jumentos poderiam passar a ser fabricados sem sacrifício animal. 

Importância histórica

O jumento é um mamífero doméstico pertencente à família dos equídeos, a mesma dos cavalos e das zebras. É considerado uma subespécie do asno-selvagem-africano. De porte geralmente menor que o cavalo, é conhecido pela resistência física, capacidade de adaptação a ambientes áridos e temperamento dócil, características que o tornaram um animal de trabalho fundamental ao longo da história humana.

A origem do jumento remonta ao nordeste da África, especialmente em regiões hoje ocupadas por Egito, Sudão e Etiópia. Evidências arqueológicas indicam que sua domesticação ocorreu há cerca de 5 a 6 mil anos, quando comunidades humanas passaram a utilizá-lo como meio de transporte e apoio às atividades agrícolas e comerciais. A capacidade de sobreviver com pouca água e alimento fez do jumento um aliado essencial em áreas desérticas e semiáridas.

Ao longo dos séculos, o jumento acompanhou processos de expansão territorial. Foi amplamente utilizado em rotas comerciais, no transporte de cargas pesadas e no deslocamento de pessoas, especialmente antes da mecanização dos meios de transporte. Sua presença é registrada em diferentes civilizações antigas, como as do Egito, da Mesopotâmia e do Império Romano, onde desempenhou papel central na economia e na vida cotidiana.

No Brasil e em outros países das Américas, o jumento foi introduzido durante o período colonial, tornando-se importante especialmente no interior e nas regiões de clima seco. No Nordeste brasileiro, por exemplo, o animal teve papel decisivo na formação social e econômica, sendo símbolo de resistência e adaptação ao Semiárido. 

PUBLICIDADE

Riscos

jumentos
Pele dos jumentos é requisitada para extração de colágeno para a medicina chinesa. Foto: Adobe Stock

Os números servem de alerta. Dados reunidos por pesquisadores brasileiros indicam que o rebanho nacional de jumentos caiu cerca de 94% nas últimas décadas, passando de cerca de 1,37 milhão em meados da década de 1990 para aproximadamente 78 mil em 2025. As estimativas foram feitas com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), entre outras instituições. Apenas entre 2018 e 2024, quase 250 mil animais foram abatidos no País, com uma média diária superior a cem, para a extração do colágeno.   

Mas o problema não está limitado ao Brasil. Em escala global, a demanda por peles de jumentos tem ameaçado a população de várias regiões. Entidades como The Donkey Sanctuary indicam que a demanda global por ejiao pode fazer com que até metade dos jumentos africanos, por exemplo, desapareça nas próximas décadas, se políticas de proteção não forem implantadas. 

A União Africana, ciente desse quadro, adotou uma moratória de 15 anos sobre o abate de jumentos para exportação de peles, numa tentativa de frear a redução populacional no continente. 

Além das perdas numéricas, a exploração desses animais expõe graves questões de bem-estar animal e biossegurança. Outros estudos apontam que a cadeia de abate e comércio de peles opera de forma muitas vezes precária, com falhas na regulamentação, transporte inadequado, sofrimento dos animais e riscos de transmissão de doenças infecciosas. 

Mobilização científica e social no Brasil

No cenário brasileiro, apesar de existirem projetos em tramitação no Congresso que visam proibir o abate de cavalos, mulas e jumentos, a prática é permitida por uma lei de 1984. Além da mobilização em laboratórios, não apenas da UFPR, mas de outras instituições nacionais de ensino e pesquisa, como a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), criadores, ambientalistas e organizações de defesa dos animais têm se reunido para chamar a atenção das autoridades para o risco iminente de extinção dos jumentos, defendendo medidas como moratórias ao abate, incentivo à criação sustentável e reconhecimento legal do animal como patrimônio nacional. 

PUBLICIDADE

Eventos acadêmicos, como o III Workshop Internacional Jumentos do Brasil, que reuniu especialistas e criadores em Maceió (AL) em junho de 2025, resultaram em declarações unificadas de emergência e apelos por políticas públicas eficazes. 

Paralelamente, iniciativas tentam criar novos valores associados ao jumento, como a promoção de seu uso em atividades agrícolas éticas, educação ambiental e exploração de subprodutos — como o leite de jumenta —, que poderiam oferecer possibilidades econômicas ao abate predatório. 

O professor Pierre Barnabé Escodro, da Ufal, explica que a união de esforços dos cientistas começou em fevereiro de 2019, quando 200 jumentos morreram de fome e outros 800 eram maltratados em uma fazenda em Canudos (BA). Eles chegaram até lá por meio de uma denúncia anônima, que motivou a descoberta de casos semelhantes, como em Itapetininga, também na Bahia. 

Escodro afirma que as medidas estudadas pelos pesquisadores incluem, além do desenvolvimento de tecnologias, fatores socioeconômicos, ecológicos – tendo em vista que as amostras de material biológico dos jumentos usadas na pesquisa são recolhidas de animais resgatados por defensores do Nordeste, garantindo que o processo seja livre de exploração – e culturais, já que buscam o reconhecimento dos jumentos com patrimônio histórico brasileiro. 

Junto a esses esforços, tem havido chamadas por financiamento público para apoiar pesquisas na área, reforçando, de acordo com o professor, que as alternativas tecnológicas sejam acompanhadas de investimento e políticas claras que incentivem práticas ambientalmente e economicamente sustentáveis. 

Siga o Agro Estadão no WhatsApp, Instagram, Facebook, X, Telegram ou assine nossa Newsletter

PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas

Soro de leite pode virar refrigerante e gerar nova receita para laticínios de MG

Pecuária

Soro de leite pode virar refrigerante e gerar nova receita para laticínios de MG

Tecnologia desenvolvida em projeto da Epamig deve estar pronta para transferência ao setor em 2027

Clonagem animal: como a vaca mais cara do mundo foi copiada

Pecuária

Clonagem animal: como a vaca mais cara do mundo foi copiada

Lei regulamenta a clonagem de animais domésticos e silvestres, exigindo rastreabilidade total do nascimento à morte

Como criar galinha caipira?

Pecuária

Como criar galinha caipira?

Sistema simples e natural exige planejamento, abrigo adequado e cuidados diários com as aves

IBGE: abate de bovinos, suínos e frangos cresce no 4º trimestre de 2025

Pecuária

IBGE: abate de bovinos, suínos e frangos cresce no 4º trimestre de 2025

Números foram apontados pelas Pesquisas Trimestrais do Abate de Animais, do Leite, do Couro e da Produção de Ovos de Galinha

PUBLICIDADE

Pecuária

Exportações de ovos seguem em ritmo elevado em janeiro 

Japão e Chile mais que dobram compras de produto brasileiro

Pecuária

Em meio à crise no setor de leite, produtores do Paraná lançam nova associação

União Paranaense de Produtores de Leite pretende unificar discurso e pressionar por soluções para preços e importações desenfreadas

Pecuária

Derivados do leite e valorização da lã impulsionam a ovinocultura em 2025

Associação Brasileira de Criadores de Ovinos registra crescimento de 5% no número de registros de animais

Pecuária

Pecuária: EUA transformam base militar em ‘fábrica de moscas’ para barrar praga

Unidade no Texas vai dispersar insetos estéreis contra a mosca-da-bicheira que avança no México

Logo Agro Estadão
Bom Dia Agro
X
Carregando...

Seu e-mail foi cadastrado!

Agora complete as informações para personalizar sua newsletter e recebê-la também em seu Whatsapp

Sua função
Tipo de cultura

Bem-vindo (a) ao Bom dia, Agro!

Tudo certo. Estamos preparados para oferecer uma experiência ainda mais personalizada e relevante para você.

Mantenha-se conectado!

Fique atento ao seu e-mail e Whatsapp para atualizações. Estamos ansiosos para ser parte do seu dia a dia no campo!

Enviamos um e-mail de boas-vindas para você! Se não o encontrar na sua caixa de entrada, por favor, verifique a pasta de Spam (lixo eletrônico) e marque a mensagem como ‘Não é spam” para garantir que você receberá os próximos e-mails corretamente.