Pecuária
Pesquisadores se mobilizam para evitar a extinção dos jumentos
Diante da urgência de proteger o animal no Brasil e no mundo, estudo da UFPR testa obtenção de colágeno em laboratório, sem abate
Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP) | igor.savenhago@estadao.com
14/02/2026 - 08:46

No Laboratório de Zootecnia Celular (Zoocel) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), um grupo de pesquisadores liderado pela professora Carla Molento busca uma solução para evitar a extinção dos jumentos no Brasil.
Em vez de extrair colágeno da pele dos animais — prática que tem impulsionado o abate em larga escala —, a equipe experimenta produzir a proteína por meio da fermentação de precisão, uma técnica de biotecnologia que insere trechos do material genético dos jumentos em microrganismos capazes de fabricar colágeno em laboratório. Dessa forma, seria possível atender à demanda de mercado sem precisar fazer o abate, reduzindo a pressão sobre a espécie.
A pesquisa conta com apoio do Ministério do Meio Ambiente e da Fundação Araucária, envolvendo, ainda, parcerias nacionais e internacionais. Uma delas é com o Departamento de Engenharia de Bioprocessos da Universidade de Wageningen (Holanda).
Segundo Carla, que é doutora em Zootecnia e tem pós-doutorado em bem-estar animal pelo Instituto ILVO, na Bélgica, os animais desta espécie – também chamados de asnos ou jegues (Equus africanus asinus) — enfrentam um dos maiores desafios de sua história: a possibilidade real de desaparecer caso medidas eficazes não sejam adotadas.
No Brasil, um dos polos dessa crise está no declínio populacional acelerado da espécie, que é impulsionado pela exploração de sua pele para a indústria de colágeno, especialmente para um composto tradicionalmente usado na medicina chinesa, o ejiao.
A consultoria empresarial e financeira Newsijie, com sede em Pequim, calcula que o mercado de eijao movimente 58 bilhões de yuans anualmente – o equivalente a US$ 8 bilhões de dólares. Para dar conta de suprir essa demanda, são necessárias 5,9 milhões de peles de jumentos.
Neste cenário, a ideia central da pesquisa da UFPR aplica um método já amplamente utilizado na produção de queijos, hambúrgueres vegetais e outras proteínas alternativas. Caso os resultados apareçam, o ejiao e outros produtos que dependem da pele de jumentos poderiam passar a ser fabricados sem sacrifício animal.
Importância histórica
O jumento é um mamífero doméstico pertencente à família dos equídeos, a mesma dos cavalos e das zebras. É considerado uma subespécie do asno-selvagem-africano. De porte geralmente menor que o cavalo, é conhecido pela resistência física, capacidade de adaptação a ambientes áridos e temperamento dócil, características que o tornaram um animal de trabalho fundamental ao longo da história humana.
A origem do jumento remonta ao nordeste da África, especialmente em regiões hoje ocupadas por Egito, Sudão e Etiópia. Evidências arqueológicas indicam que sua domesticação ocorreu há cerca de 5 a 6 mil anos, quando comunidades humanas passaram a utilizá-lo como meio de transporte e apoio às atividades agrícolas e comerciais. A capacidade de sobreviver com pouca água e alimento fez do jumento um aliado essencial em áreas desérticas e semiáridas.
Ao longo dos séculos, o jumento acompanhou processos de expansão territorial. Foi amplamente utilizado em rotas comerciais, no transporte de cargas pesadas e no deslocamento de pessoas, especialmente antes da mecanização dos meios de transporte. Sua presença é registrada em diferentes civilizações antigas, como as do Egito, da Mesopotâmia e do Império Romano, onde desempenhou papel central na economia e na vida cotidiana.
No Brasil e em outros países das Américas, o jumento foi introduzido durante o período colonial, tornando-se importante especialmente no interior e nas regiões de clima seco. No Nordeste brasileiro, por exemplo, o animal teve papel decisivo na formação social e econômica, sendo símbolo de resistência e adaptação ao Semiárido.
Riscos

Os números servem de alerta. Dados reunidos por pesquisadores brasileiros indicam que o rebanho nacional de jumentos caiu cerca de 94% nas últimas décadas, passando de cerca de 1,37 milhão em meados da década de 1990 para aproximadamente 78 mil em 2025. As estimativas foram feitas com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), entre outras instituições. Apenas entre 2018 e 2024, quase 250 mil animais foram abatidos no País, com uma média diária superior a cem, para a extração do colágeno.
Mas o problema não está limitado ao Brasil. Em escala global, a demanda por peles de jumentos tem ameaçado a população de várias regiões. Entidades como The Donkey Sanctuary indicam que a demanda global por ejiao pode fazer com que até metade dos jumentos africanos, por exemplo, desapareça nas próximas décadas, se políticas de proteção não forem implantadas.
A União Africana, ciente desse quadro, adotou uma moratória de 15 anos sobre o abate de jumentos para exportação de peles, numa tentativa de frear a redução populacional no continente.
Além das perdas numéricas, a exploração desses animais expõe graves questões de bem-estar animal e biossegurança. Outros estudos apontam que a cadeia de abate e comércio de peles opera de forma muitas vezes precária, com falhas na regulamentação, transporte inadequado, sofrimento dos animais e riscos de transmissão de doenças infecciosas.
Mobilização científica e social no Brasil
No cenário brasileiro, apesar de existirem projetos em tramitação no Congresso que visam proibir o abate de cavalos, mulas e jumentos, a prática é permitida por uma lei de 1984. Além da mobilização em laboratórios, não apenas da UFPR, mas de outras instituições nacionais de ensino e pesquisa, como a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), criadores, ambientalistas e organizações de defesa dos animais têm se reunido para chamar a atenção das autoridades para o risco iminente de extinção dos jumentos, defendendo medidas como moratórias ao abate, incentivo à criação sustentável e reconhecimento legal do animal como patrimônio nacional.
Eventos acadêmicos, como o III Workshop Internacional Jumentos do Brasil, que reuniu especialistas e criadores em Maceió (AL) em junho de 2025, resultaram em declarações unificadas de emergência e apelos por políticas públicas eficazes.
Paralelamente, iniciativas tentam criar novos valores associados ao jumento, como a promoção de seu uso em atividades agrícolas éticas, educação ambiental e exploração de subprodutos — como o leite de jumenta —, que poderiam oferecer possibilidades econômicas ao abate predatório.
O professor Pierre Barnabé Escodro, da Ufal, explica que a união de esforços dos cientistas começou em fevereiro de 2019, quando 200 jumentos morreram de fome e outros 800 eram maltratados em uma fazenda em Canudos (BA). Eles chegaram até lá por meio de uma denúncia anônima, que motivou a descoberta de casos semelhantes, como em Itapetininga, também na Bahia.
Escodro afirma que as medidas estudadas pelos pesquisadores incluem, além do desenvolvimento de tecnologias, fatores socioeconômicos, ecológicos – tendo em vista que as amostras de material biológico dos jumentos usadas na pesquisa são recolhidas de animais resgatados por defensores do Nordeste, garantindo que o processo seja livre de exploração – e culturais, já que buscam o reconhecimento dos jumentos com patrimônio histórico brasileiro.
Junto a esses esforços, tem havido chamadas por financiamento público para apoiar pesquisas na área, reforçando, de acordo com o professor, que as alternativas tecnológicas sejam acompanhadas de investimento e políticas claras que incentivem práticas ambientalmente e economicamente sustentáveis.
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