Pecuária
Seara conclui transição para gestação coletiva de suínos e amplia produção em 40%
Movimento elevou em 16,5% o alojamento coletivo de suínos em gestação no Brasil; setor deve cumprir esses critérios técnicos até 2045
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
12/02/2026 - 05:00

A Seara concluiu a transição para o sistema de gestação coletiva de suínos fêmeas em 100% das suas Unidades Produtoras de Leitões (UPDs). Segundo a companhia, a mudança aconteceu sem interromper a trajetória de crescimento da operação e resultou em um aumento de cerca de 40% da produção ao longo do período.
Representantes da Seara informaram ao Agro Estadão que a transição total ocorreu após um processo de cerca de dez anos. Esse processo segue a Instrução Normativa nº 113, de 2020, que estabeleceu critérios obrigatórios para o alojamento coletivo de matrizes suínas no Brasil até 2045.
De acordo com o gerente executivo de Agropecuária da Seara, Vamiré Sens Júnior, a decisão de antecipar a transição esteve ligada à maturidade do tema de bem-estar animal dentro da companhia. Considerou-se ainda a avaliação de que animais com melhores condições de vida apresentam desempenho produtivo superior, com impacto direto na eficiência do negócio. “O bem-estar animal não foi tratado como um custo adicional, mas como um investimento estratégico, capaz de melhorar resultados produtivos e aumentar a competitividade da cadeia”, disse.
Processo
Atualmente, a Seara trabalha com cerca de 2,7 mil propriedades integradas na suinocultura, distribuídas entre as fases de creche, terminação e produção de leitões. O sistema de gestação coletiva está concentrado nas UPDs, que somam aproximadamente 250 propriedades. No início do processo (entre 2015 e 2016), pouco menos da metade dessas unidades já operava com algum nível de adequação ao modelo coletivo.
A transição, no entanto, exigiu um desenho operacional complexo, uma vez que o sistema de produção da Seara é baseado na integração com produtores, muitos deles inseridos na agricultura familiar, com granjas de diferentes tamanhos e perfis produtivos. “Há propriedades com mais de 60 anos de construção, limitações de área física e modelos distintos, o que inviabilizou a adoção de uma solução padronizada”, esclareceu Júnior.
Segundo o executivo, cada granja passou por um diagnóstico individual, que envolveu análise de infraestrutura, equipamentos, desempenho produtivo e viabilidade econômica. A partir desse mapeamento, foram elaborados projetos específicos de adequação, respeitando parâmetros técnicos de densidade, ambiência, alimentação e manejo dos animais.
Um dos principais desafios esteve relacionado à necessidade de ampliação de espaço por fêmea, considerando que o sistema coletivo exige áreas maiores do que as celas individuais. Em muitos casos, isso implicou reformas estruturais e reorganização completa dos galpões. Para mitigar custos e viabilizar a adesão dos produtores, a Seara adotou uma estratégia de reaproveitamento de materiais existentes, especialmente estruturas metálicas, que representam uma das parcelas mais relevantes do investimento em instalações suinícolas.
“Um dos principais custos de uma estrutura de produção de suínos, quando diz respeito à maternidade ou gestação, é o ferro. É o instrumento de ferragem que é utilizado para formar as divisórias, as celas e assim por diante. Então, todas as celas individuais que a gente tinha dentro dos galpões de gestação, onde as fêmeas ficavam ali dentro, nós reutilizamos e passaram a ser as novas divisórias das baias coletivas”, informou, ressaltando que a mesma estratégia foi utilizada para os comedouros antigos que passaram a fazer parte das novas celas.
Além das adequações físicas, a empresa implementou uma política de incentivos financeiros atrelada ao desempenho produtivo e ao cumprimento integral das diretrizes de bem-estar animal. A lógica, segundo Vamiré, foi alinhar os ganhos de eficiência do sistema aos resultados econômicos das propriedades.
A Seara também estruturou mecanismos de apoio financeiro para facilitar o acesso a crédito destinado às adequações. Embora os valores totais investidos não sejam divulgados, a empresa afirma que assumiu compromissos de longo prazo com os produtores, com contratos de incentivo que chegam a dez anos.
Ganho de produtividade
Do ponto de vista produtivo, a gestação coletiva trouxe ganhos associados à redução de estresse dos animais, melhor uniformidade dos plantéis e maior controle do manejo reprodutivo.
As baias foram projetadas com limites técnicos de densidade e número de animais, priorizando grupos menores, o que facilita o monitoramento diário, reduz disputas de hierarquia e riscos de lesões e perdas. “O desenho das baias e o manejo adequado são fundamentais para garantir que o sistema coletivo gere ganhos produtivos. Grupos muito grandes dificultam o controle e aumentam o risco de perdas”, explica Vamiré.
Ao longo da última década, mesmo diante da transição, a companhia registrou um aumento de cerca de 40% na produção. Para a Seara, a antecipação da transição também funcionou como uma estratégia de mitigação de riscos regulatórios e reputacionais, além de posicionar a empresa à frente de tendências globais de bem-estar animal.
“A gente também tem uma responsabilidade social muito grande com os produtores para que as soluções sugeridas sejam tangíveis e efetivamente aplicáveis para eles no campo, sem proporcionar uma ruptura ou uma desistência da atividade por uma inviabilidade de adequação ao bem-estar animal”, destaca Sheila Guebara, diretora de sustentabilidade da Seara.
Transição no setor produtivo do Brasil
Atualmente, o Brasil registra cerca de 45% das porcas alojadas em baias coletivas durante a gestação, de acordo com o relatório mais recente do Observatório Suíno, divulgado em outubro de 2025. Os dados consideram o número de matrizes ativas alojadas no País, conforme o relatório anual da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Segundo o Observatório Suíno, apesar do avanço modesto de 2,8 pontos percentuais no cenário nacional entre 2024 e 2025, o alojamento de porcas em gestação coletiva apresenta uma trajetória de expansão relevante no médio prazo. Nos últimos quatro anos, o índice acumulou alta de 16,5%, passando de 28,4% em 2021 para 42,1% em 2024.
PERCENTUAL ESTIMADO DE PORCAS ALOJADAS EM BAIAS COLETIVAS NO BRASIL POR ANO

Fonte: Observatório Suíno, elaborado por Alianima
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