Inovação
Maçã Purple Gala: eficiência na colheita e valor agregado no visual 100% vermelho
Nova cultivar de maçã Gala, Purple Gala é a única com casca full color, é resultado da parceria entre Embrapa e iniciativa privada
Fernanda Farias | Porto Alegre | fernanda.farias@estadao.com
29/08/2024 - 13:41

Uma maçã totalmente vermelha por fora (e muito suculenta por dentro). Qual consumidor resiste ao chamado da cor que se destaca entre as frutas? É apostando nesse apelo sensorial que a Embrapa Uva e Vinho está lançando, em parceria com a iniciativa privada, uma nova cultivar de maçã gala – a Purple Gala.
A diferença para a maçã Gala que todos conhecem e que responde por 65% do mercado de maçãs no país, está especialmente na cor. Enquanto a Royal Gala tem a casca vermelha com fundo amarelo, a nova cultivar é coberta só por vermelho. O sabor é o mesmo, garantem os pesquisadores: doce, com crocância e leve toque de acidez.
“O brasileiro está acostumado com o sabor da Gala, e a Purple tem essa coloração compacta, vermelha arroxeada, cor vibrante, mas não é uma fruta que precisa introduzir no mercado e apresentar, porque o consumidor já conhece e aprova” , comenta ao Agro Estadão a pesquisadora da Embrapa Uva e Vinho, Lucimara Antoniolli.
Para quem saboreia com os olhos, deve ficar mais difícil escolher entre a nova cultivar e a maçã Red Delicious, importada da Argentina que também tem a coloração vermelha intensa. A nova cultivar está sendo lançada oficialmente durante a 47ª Expointer, no Rio Grande do Sul.
Da descoberta ao lançamento, pesquisa com Purple Gala levou 11 anos
A Purple Gala foi registrada como BRS Gala JVZ64 e leva as iniciais do produtor rural que descobriu a novidade. É que a maçã Gala com casca 100% vermelha surgiu do olhar atento de João Vicente Zuanazzi às frutas do pomar de Royal Gala, que cultiva em Vacaria (RS) ainda em 2013.
Ao Agro Estadão, o produtor e diretor da Jardim dos Clones, que fornece a tecnologia para outros produtores, conta que costuma observar mutações nas frutas, quase como um hobby. “Na atividade de rotina, a gente vai coletando esses galhos que passaram por mutação, fazendo enxertos e observando se eles eram estáveis. De todos os materiais ao longo do tempo, a gente observou uma que ganhou destaque, com a mutação estável”.

Como foi a atuação da Embrapa
A partir daí, começou a parceria com a Embrapa Uva e Vinho, a fim de validar a cultivar. Os estudos começaram em 2018 e os testes aconteceram em três ciclos em Vacaria (RS). “Muito trabalho de pesquisa até que pudesse ser afirmado que essa mutação não sofreu nenhuma regressão”, explica Antoniolli, a pesquisadora que participou desde o início do projeto.
Já o engenheiro agrônomo e pesquisador aposentado da Embrapa, Paulo Ricardo Oliveira, foi o responsável por boa parte dos estudos. Ao Agro Estadão, ele explica que a seleção de clones na fruticultura é uma modalidade de melhoramento genético que começa com a identificação de uma variante ou mutação natural no campo – o que aconteceu nos pomares do produtor Zuanazzi.
“Retiramos parte da planta que apresenta a mutação e ela é clonada para que seja possível confirmar, ou não, se a característica se mantém”, resume Oliveira. Ele complementa que manter a mutação depende de cuidados específicos nos viveiros credenciados. “é um trabalho minucioso de produção de mudas que garanta a sanidade e identidade do clone, de modo que as características dessa nova cultivar se mantenham ao longo do tempo”.
Cor vermelha é obtida em até 98% do pomar da Purple Gala
A Purple Gala rende entre 30 e 40 toneladas por hectare, o mesmo da cultivar tradicional. Porém, a cor vibrante não garante só diferença no visual, pois uma característica importante é o ganho precoce de coloração. Isso significa que as frutas ficam vermelhas praticamente ao mesmo tempo.
“Normalmente, em cultivares tradicionais, tem que dar três ou quatro passadas na colheita, porque a cor vem de forma fracionada. No caso da Purple Gala, ela é colhida em apenas uma passada, em um ‘rapa-pé’”, conta Zuanazzi. “Isso dá um rendimento muito maior, mais produtividade da mão de obra, que hoje é cada vez mais escassa e onerosa”, reflete.

Zuanazzi destaca, ainda, a quantidade de frutas coloridas em um pomar, o que garante menos descarte na hora de embalar. “Chega a dar 95% a 98% de frutas vermelhas, ou seja, até 98% de frutas embaladas nessa categoria 1, que é a melhor categoria e tem valor de mercado maior”, afirma.
Oportunidade de mercado para os produtores
Atualmente, o Brasil produz 1 milhão de toneladas de maçã. A Purple Gala ainda tem uma parcela tímida – somou 250 toneladas na última safra. Mas a Jardim dos Clones, empresa que produz o material genético para que outros produtores repliquem a cultivar, já está intensificando a produção das mudas.
Assim, a ideia é aumentar os 150 hectares de pomares atuais em 50 hectares a cada ano. “Hoje a nossa missão é colocar a produção em escala para que nós possamos suprir a demanda do mercado. A fruticultura é uma cultura perene e mais demorada. Entre o plantio do pomar e a produção plena são quatro ou cinco anos, então você consegue aumentar a produção lentamente”, explica Zuanazzi ao Agro Estadão.
A expectativa de sucesso da Purple Gala vem dos resultados das últimas três safras e da validação da fruta nos testes comerciais feitos em várias capitais, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Manaus.
“O que acontece: o cliente compra e repete a compra, porque realmente é uma fruta atrativa, ela é colhida no ponto exato das qualidades organolépticas”, analisa Zuanazzi. Ou seja, a Purple Gala se desenvolve de forma que as características de sabor, aroma, textura e cor são percebidas por todos os sentidos humanos. O consumidor tem a sensação de que a fruta acabou de ser colhida do pé. É olhar e saborear.
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