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Bactérias podem impulsionar nova fronteira da agricultura sustentável no Brasil

Pesquisas da USP usam microrganismos encontrados em ilhas contra doenças da soja e apontam alternativas biológicas para reduzir efeitos do aquecimento global

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Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP)

07/12/2025 - 05:00

Ilhas de Alcatrazes e Palmas compõem arquipélago da costa de São Sebastião, no litoral norte paulista. Foto: ICMBio/Divulgação
Ilhas de Alcatrazes e Palmas compõem arquipélago da costa de São Sebastião, no litoral norte paulista. Foto: ICMBio/Divulgação

O uso de bactérias na agricultura vem ganhando espaço como alternativa tecnológica capaz de aumentar a produtividade e reduzir os impactos ambientais da produção de alimentos. Dois estudos recentes desenvolvidos na Universidade de São Paulo (USP) reforçam esse movimento ao mostrar aplicações distintas desses microrganismos, tanto no controle biológico de doenças da soja quanto na redução dos efeitos do aquecimento global sobre as plantas.

Na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba (SP), pesquisadores identificaram bactérias com alto potencial para o controle de doenças que afetam a soja, principal cultura agrícola do País. As amostras foram isoladas em áreas pouco exploradas do litoral paulista, nas ilhas de Alcatrazes e Palmas, na costa de São Sebastião, e pertencem ao gênero Streptomyces, conhecido por sua capacidade de produzir compostos bioativos com ação antimicrobiana.

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O estudo, conduzido pelo engenheiro agrônomo Juan Lopes Teixeira, sob orientação da professora Simone Possedente de Lira, avaliou 20 cepas com potencial para combater fungos que causam doenças como a mancha-alvo (Corynespora cassiicola), a podridão seca da haste e da vagem (Phomopsis sojae), a podridão de carvão da raiz (Macrophomina phaseolina) e a mancha púrpura da semente (Cercospora kikuchii).

Os testes laboratoriais apontaram resultados promissores: quatro cepas apresentaram níveis de controle superiores a 53% em cultivos paralelos e acima de 88% em ambientes controlados, enquanto o uso de metabólitos secundários — compostos produzidos pelas bactérias — ultrapassou 84% de eficiência. 

Segundo o pesquisador, os produtos biológicos derivados dessas bactérias representam uma ferramenta complementar ao manejo fitossanitário, ajudando a reduzir a pressão de seleção de patógenos resistentes e a dependência de fungicidas sintéticos. O trabalho recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

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Redução de emissões e ganhos produtivos

Bactérias
Sistema de aquecimento ao ar livre foi usado em pastagens na USP. Foto: USP/Divulgação

Outro avanço vem da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP/USP), onde um grupo de pesquisadores demonstrou que a aplicação de bactérias promotoras de crescimento vegetal em sementes pode reduzir os efeitos do aquecimento global sobre as plantas. O estudo, publicado na revista Science of The Total Environment, utilizou as espécies Azospirillum brasilense e Pseudomonas fluorescens, que foram aplicadas em gramíneas forrageiras durante um ano de experimento a campo.

O objetivo foi simular condições de aumento de temperatura de até 2°C — cenário compatível com projeções de aquecimento global — e observar os efeitos sobre o desenvolvimento das plantas. Um sistema de aquecimento ao ar livre, chamado T-FACE, manteve as temperaturas elevadas de forma contínua, permitindo aos cientistas avaliar o desempenho das plantas inoculadas em comparação com as não tratadas.

De acordo com o pesquisador Eduardo Habermann, os resultados mostraram que as bactérias conseguiram neutralizar completamente os impactos negativos do aquecimento sobre a fotossíntese, a transpiração e a produção de biomassa. Segundo ele, a inoculação estimula o sistema antioxidante das plantas e o crescimento radicular, melhorando a absorção de água e nutrientes, o que reduz o estresse oxidativo causado pelas altas temperaturas.

O professor Carlos Alberto Martinez y Huaman, líder da equipe de pesquisa, destaca que, além do efeito protetor contra o calor, a simbiose entre as bactérias e as plantas aumenta a fixação biológica de nitrogênio — processo natural em que o gás atmosférico é convertido em formas assimiláveis pelas plantas. Ele explica que esse mecanismo reduz a necessidade do uso de fertilizantes nitrogenados, que são caros e altamente emissores de gases de efeito estufa, como o óxido nitroso.

O estudo reforça a importância de soluções biológicas para reduzir a pegada de carbono da agricultura. O óxido nitroso (N₂O), liberado após a aplicação de fertilizantes químicos, tem potencial de aquecimento global cerca de 300 vezes superior ao do dióxido de carbono (CO₂). A substituição parcial desses insumos por inoculantes microbianos pode contribuir diretamente para as metas de mitigação de emissões e sustentabilidade do setor agropecuário.

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Martinez destaca que os resultados abrem novas perspectivas para ampliar o uso de bactérias promotoras de crescimento em culturas como cana-de-açúcar, milho e sorgo, além das pastagens. E que o Brasil está entre os países com maior potencial para expandir essa tecnologia, por reunir condições favoráveis à adoção de bioinsumos e ocupar posição de destaque na produção de soja.

Expansão dos bioinsumos

O interesse por soluções biológicas acompanha a rápida expansão do mercado de bioinsumos agrícolas no País, que cresce a taxas superiores a 10% ao ano. A combinação de sustentabilidade e eficiência vem atraindo empresas, cooperativas e produtores rurais em busca de alternativas ao manejo químico tradicional.

Especialistas destacam que os bioinsumos não devem ser vistos apenas como substitutos, mas como componentes integrados aos sistemas de manejo, capazes de melhorar a saúde do solo, a resiliência das plantas e a eficiência dos insumos convencionais. Para Teixeira, por exemplo, a agricultura do futuro será híbrida, com a biotecnologia e a microbiologia como pilares centrais do manejo de alta performance.

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