Economia
Produtores de trigo do Cerrado sofrem com clima mais seco e produtividade deve cair na região
Somente em Mato Grosso do Sul a produtividade de algumas lavouras pode cair em até 80%
Daumildo Júnior* | daumildo.junior@estadao.com
12/07/2024 - 15:46

“Ano passado, nós tínhamos uma produtividade de 55 a 60 sacas por hectare e este ano, vamos ter lavouras colhendo 10 a 15 sacas por hectare em média”. Esse é o relato do supervisor técnico da Cooperalfa, Luan Pivatto, de Dourados (MS), sobre a situação das lavouras de trigo sequeiro. O período de estiagem fez com que produtores atrasassem o plantio do cereal e quem plantou dentro do período convencional, deve ficar no prejuízo.
“Nas áreas com essa produtividade, os produtores vão ter prejuízo sem dúvida.[…] Nesse ano, o custo saiu entre 25 a 30 sacas por hectare falando apenas de insumos e o básico do operacional”, revela o supervisor ao Agro Estadão.
O Mato Grosso do Sul é o segundo maior produtor de trigo do Centro-Oeste. No ano de 2023, o estado colheu 125,8 mil toneladas de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Por lá, o trigo é quase 100% produzido no cultivo de sequeiro, ou seja, a irrigação é feita com a água da chuva, e os meses de abril e maio tiveram pouca precipitação. Além disso, a reserva de umidade do solo também estava baixa, o que agravou ainda mais a situação.
Esses fatores alteraram o período da semeadura e, por consequência, da colheita. Pivatto conta que a época normal de plantio é de 15 de abril a 15 de maio, porém, neste ano esse tempo se estendeu até meados de junho. A maior parte das lavouras foi plantada em abril. A colheita deve iniciar na próxima semana com previsão de prejuízos.
Apesar do maior volume de chuvas, os produtores que plantaram em junho também estão preocupados. Eles só devem colher após o dia 15 de setembro, dependendo da normalidade climática para as áreas.
“Essas áreas que foram semeadas mais tardias, estão pegando algumas chuvas, num estágio de perfilhamento, e aí essas áreas ainda tem um potencial produtivo maior, porém a gente sabe que o mês de agosto ele é extremamente seco na nossa região, né? Então vai pegar ainda a cultura numa fase reprodutiva que possivelmente vai impactar também”, avalia Pivatto.
O supervisor técnico afirma que a situação pode piorar, já que muitos produtores não têm seguro rural, mesmo plantando dentro do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC). “Hoje, temos áreas com zoneamento agrícola, mas as seguradoras não estão disponibilizando seguro e isso acaba desestimulando o produtor a plantar depois”, aponta Pivatto. Segundo ele, a Cooperalfa vem tratando do tema, mas ainda não há uma solução prevista para esses produtores.

Produtores mineiros também sofrem com estiagem
Vanoli Fronza é pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) ligado à unidade de trigo. Ele fica no núcleo avançado de Trigo Tropical em Uberaba (MG) e tem observado a realidade de produtores no Triângulo Mineiro. Por lá, os produtores ainda não mostraram os resultados de produtividade, mas já há a percepção de que haverá uma queda.
“As chuvas estavam acontecendo na região mas de uma hora para outra elas pararam, houve uma interrupção abrupta. E uma coisa que a gente observa é que o enchimento do grão ficou prejudicado, porque faltou chuva na hora de encher”, afirma Vanoli. Ele alerta para casos mais graves. “Quem plantou entre final de março e início de abril, sofreu mais, inclusive com lavouras perdidas”, conta o pesquisador, que esclarece que o mês de abril teve chuvas abaixo da média.
O técnico também comenta que a situação pode afetar o trigo irrigado, já que a cultura passa a concorrer com outras, especialmente produtores que rotacionam o trigo com hortícolas, que no geral têm melhores preços.
“No irrigado também deve haver um comprometimento, porque com essa seca toda, acaba reduzindo a disponibilidade água. O produtor tem um volume fixo de água e ele tem que dividir entre as culturas. Como está muito quente, a perda de água por evapotranspiração é maior, e isso aumenta o consumo de água”, explica.
“Faltou uma ou duas chuvas”, lamenta produtor goiano
O produtor de trigo em Cristalina (GO), Paulo Bonato, também sofreu com a falta de chuva, especialmente em abril. A expectativa era colher 40 sacas por hectare, mas a realidade foi bem abaixo, com média de 27 sacas por hectare.
“A gente esperava um pouco mais de produtividade com a previsão de ter chovido mais no mês de abril, começo de maio”, pontua o produtor, que trabalha com trigo há mais de 30 anos. Apesar da experiência, este é o segundo ano no cultivo sequeiro, já que a maior parte da história dele com a cultura é com o trigo irrigado.
Porém, o prejuízo para o negócio de Bonatto não deve ser tão relevante, já que a maior parte da renda vem de outras culturas e o maior volume do cultivo de trigo é irrigado. Apaixonado pelo cereal, o produtor ainda conseguiu achar um ponto positivo na situação, o que não aconteceu aos produtores sul-mato-grossenses e mineiros.
“Afetou a nossa produtividade, mas felizmente não a nossa qualidade. Eu tive até uma surpresa quando nós colhemos com PH de 83, que é um peso hectolitro de trigo irrigado”, comentou Bonatto ao falar sobre uma métrica de qualidade do trigo. De forma geral, as indústrias de processamento de trigo adquirem o grão quando tem PH superior a 77 ou 78. Os níveis mais elevados de qualidade chegam a 85 de PH.
*Jornalista participou do dia de campo a convite da Embrapa Trigo
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