Economia
Preço da carne bovina sobe ao consumidor, mas pecuarista não vê lucro
Demanda externa aquece preços da carne, mas oferta elevada de animais limita alta da arroba e concentra ganhos na indústria exportadora
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
11/09/2025 - 07:00

A carne bovina ao consumidor brasileiro acumula alta de 22,17% nos últimos 12 meses, conforme dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, divulgado nesta quarta-feira, 10. À primeira vista, pensa-se que esse ganho está indo para o pecuarista, mas há fatores que limitam esse repasse integral.
É verdade que, no campo, também houve valorização da arroba bovina no mesmo período. Porém, de forma mais modesta: de acordo com o indicador Cepea, o preço da arroba ao pecuarista subiu 20,28% nos últimos 12 meses. Embora positiva, a valorização fica abaixo do aumento no preço da carne ao consumidor, mas acima da inflação acumulada no período (+5,13).
Enquanto isso, o milho, principal insumo da alimentação bovina, passou de R$ 62,60 para R$ 63,87 a saca em Campinas (SP) — alta acumulada de 2,03%. Apesar da baixa oscilação, a valorização comprime a margem de lucro do pecuarista.
Além dos custos com alimentação, soma-se gastos com insumos, energia e mão de obra. “Aqui na nossa região a realidade é que a alta da carne que o consumidor vê no mercado não se reflete na rentabilidade do pecuarista. Os custos de produção – como ração, insumos, energia e mão de obra – subiram bastante, e a margem de lucro está muito apertada. O produtor acaba arcando com esses custos, mas não consegue repassar no preço do boi gordo na mesma proporção”, destaca o pecuarista Guilherme Bumlai, de Campo Grande (MS).
Exportações explicam o cenário
O economista e analista de Safras&Mercado, Fernando Iglesias, explica que, atualmente, o pecuarista brasileiro está observando um mercado com movimentos limitados de alta da arroba. Isso, em decorrência de uma oferta elevada de animais para o abate.
“Estamos vivendo um ano de muita oferta, por mais contraditório que isso pareça. Observamos que o preço da carne está subindo, mas não é a demanda doméstica que está puxando esses valores. O que realmente está impulsionando os preços é a demanda de exportação. Hoje, o Brasil está exportando carne como nunca antes”, observa o especialista.
E os números comprovam. Em agosto, mês em que o tarifaço dos Estados Unidos entrou em vigor, o Brasil enviou ao exterior 299,4 mil toneladas de carne bovina, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). O resultado foi o segundo maior volume da série histórica. Além de representar uma alta de 20,7% em relação ao mesmo mês de 2024 (248.033 toneladas).
Considerando o acumulado do ano (entre janeiro e agosto), o Brasil exportou 2,08 milhões de toneladas de carne bovina — crescimento de 15% em comparação às 1,81 milhão de toneladas do mesmo intervalo de 2024. “O Brasil é hoje o player mais competitivo na produção de carnes do mundo, mais competitivo que Austrália, Estados Unidos, União Europeia, Argentina, Uruguai e Paraguai… O país vem alavancando suas vendas, exportando grandes quantidades em velocidade impressionante, gerando um crescimento de receita importantíssimo”, salienta.
No aspecto de receita, ainda conforme a Abiec, em agosto, as exportações de carne bovina alcançaram US$ 1,60 bilhão — alta de 49,8% em relação aos US$ 1,07 bilhão registrados no mesmo mês do ano anterior. No acumulado dos oito primeiros meses deste ano, a receita atingiu US$ 10,51 bilhões, avanço de 32,9%.
As perspectivas para o encerramento deste ano são de recordes, mesmo com as tarifas dos EUA em vigor, aponta a Abiec, entidade que representa grandes indústrias exportadoras como JBS, Marfrig e Minerva (confira aqui).
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Economia
1
Em investigação, China aponta 'dano grave' à indústria de carne bovina e notifica OMC e exportadores
2
Fim do papel: produtores rurais terão de emitir nota fiscal eletrônica em 2026
3
Feiras do agro 2026: calendário dos principais eventos do setor
4
Começa a valer obrigatoriedade de emissão de nota fiscal eletrônica
5
Salvaguarda à carne bovina: Câmara Brasil-China vê desfecho favorável ao setor brasileiro
6
Menos pão, mais carne: canetas emagrecedoras redesenham demandas do agro brasileiro
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Economia
Soja: Abiove projeta processamento recorde em 2026, de 61 milhões de toneladas
A produção de farelo de soja foi revista para 47 milhões de toneladas e óleo de soja avançou para 12,25 milhões de toneladas
Economia
Grupo Piracanjuba entra no mercado de queijos finos com aquisição da Básel (MG)
Com a operação, a Piracanjuba, que é de Goiás, passa a contar com dez unidades industriais em funcionamento no Brasil
Economia
Café dispara em 2025, enquanto arroz e feijão ficam mais baratos ao consumidor
Preços de 12 produtos básicos caíram 1,40% em 2025 e Abras projeta crescimento de 3,2% no consumo das famílias brasileiras em 2026
Economia
Colheita da soja pressiona frete e eleva custos logísticos em Mato Grosso
Segundo o Imea, o frete no trecho entre Sorriso (MT) e o porto de Miritituba (PA) avançou quase 5% em uma semana
Economia
Acordo Mercosul-UE pode entrar em vigor provisoriamente em março
Novo impasse jurídico no Parlamento Europeu não impede aplicação temporária do tratado, avalia diplomata
Economia
Quadrilha que roubava fazendas em Mato Grosso é alvo da Polícia Civil
Ação cumpriu 36 mandados em três cidades do Estado e apura crimes de roubo, cárcere privado, extorsão e lavagem de dinheiro
Economia
JBS dobra aposta na Arábia Saudita com expansão da Seara
Companhia amplia operação em Jeddah e firma parceria para produzir frango in natura no país
Economia
Brasil importou 23% mais defensivos químicos em 2025
Segundo o Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), total das compras somou R$ 13,8 bilhões