Economia
Oferta não acompanha demanda por carne premium, dizem especialistas
Especialistas apontam que a estrutura produtiva e a falta de padronização nacional limitam o ritmo de expansão do segmento
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
11/11/2025 - 16:20

O consumo de carne bovina de alta qualidade tem crescido de forma consistente entre os consumidores brasileiros. De acordo com especialistas, esse movimento ganhou tração pela melhora do poder aquisitivo da classe média e pelo avanço do varejo especializado. No entanto, a oferta não acompanhou o movimento, o que tem limitado o ritmo de expansão do mercado premium do segmento.
Para Lygia Pimentel, CEO e fundadora da Agrifatto, houve a criação da demanda por carne bovina de alta qualidade, porém, a oferta não cresceu no mesmo ritmo. “A demanda é um caminho sem volta, o paladar não desaprende. Uma vez que você provou, você não desprova. Como que a gente está resolvendo esse problema, se é que estamos?”, questionou nesta terça-feira, 11, durante painel no VI Fórum Internacional On-line de Empreendedorismo e Inovação no Agro (Finovagro 2025).
O agrônomo Roberto Barcellos, especialista em programas de carne de qualidade, participou do debate. Ele avalia que o setor ainda trata o segmento premium como um nicho comercial, sem estrutura de base para sustentação de longo prazo. “Faltou comprometimento real entre os elos da cadeia. O consumidor aprendeu a identificar qualidade, mas o sistema produtivo não evoluiu na mesma velocidade”, avaliou.

Segundo ele, a redução recente na produção de sêmen Angus — base genética dos principais programas de carne de qualidade — é um dos sinais de enfraquecimento da oferta. “Há um esforço de reorganização, mas com defasagem. É preciso reforçar a base genética e a regularidade de produção”, apontou.
Além da questão produtiva, de acordo com Barcellos, a ausência de um sistema nacional de certificação padronizado compromete a percepção de valor por parte do consumidor. “Hoje, um contrafilé pode custar R$ 90 em uma marca e R$ 150 em outra, e o cliente não entende a diferença. Falta uma certificação equivalente às categorias Choice e Prime dos Estados Unidos, que assegure consistência e transparência”, afirmou Barcellos.
As certificações citadas pelo especialista referem-se ao sistema nacional de classificação de carnes mantido pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que define, entre outros, os selos Prime e Choice. Esses selos identificam cortes com alto grau de marmoreio e qualidade superior de textura e sabor, sendo auditados oficialmente para garantir padronização e confiança ao consumidor.
Concentração do consumo
A consultora Lygia Pimentel observa que, embora o aumento de renda da população em geral seja limitado, o consumo de carne de alta qualidade tende a se concentrar em faixas médias e altas, sustentando o crescimento do segmento. “O apetite por produtos premium segue firme, mas o país precisa estruturar melhor a cadeia para capturar valor. O mercado está pronto, já o sistema produtivo, nem tanto”, observa.
Observa-se, entretanto, que a lacuna entre oferta e demanda abre espaço para novos modelos de negócio, como a integração entre pequenos produtores e frigoríficos regionais — fenômeno comparável ao das microcervejarias no setor de bebidas. “Eu vejo que a carne de qualidade, talvez, fique na mão das pequenas indústrias frigoríficas, e as grandes indústrias vão focar nos volumes grandes para exportação”, disse Barcellos. O especialista destaca, no entanto, que apesar das oportunidades de demanda para o setor premium, o setor parece não percebê-las o que, para ele, é resultado de “um mau trabalho que todos nós cometemos dentro da cadeia de produção.”
Realizado em parceria com a Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (FEALQ), sob coordenação do professor Celso da Costa Carrer (FZEA/USP), o Finovagro 2025 acontece até a quinta-feira, 13, com transmissão gratuita ao vivo e emissão de certificado. A programação completa e o link para inscrição estão disponíveis aqui.
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