Economia
Gripe aviária: analistas apontam efeitos distintos no mercado
Especialistas avaliam possível pressão nos preços de carne e ovos no Brasil e veem cenário diferente do dos EUA
Sabrina Nascimento e Paloma Custódio | São Paulo e Guaxupé (MG) | Atualizado às 16h32
16/05/2025 - 13:14

A confirmação de um caso de gripe aviária em uma granja comercial no Rio Grande do Sul, terceiro maior exportador nacional de carne de frango, deve gerar impactos no mercado interno e externo, segundo especialistas ouvidos pelo Agro Estadão.
No âmbito das exportações, a China, principal comprador do produto brasileiro, e a União Europeia suspenderam temporariamente as compras do Brasil por 60 dias. Outros países, como Japão, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Argentina, limitaram restrições apenas ao estado ou ao município afetado, seguindo os protocolos internacionais firmados.
Ao Agro Estadão, o CEO da Scot Consultoria, Alcides Torres, avaliou que o impacto no setor deve ser limitado graças ao perfil da cadeia produtiva de frango no país, que tem mais mercado compradores. “Diferente do mercado de boi, o de frango é mais pulverizado e atende a mais países. As medidas de restrição variam conforme o protocolo com cada nação”, explicou Torres.
Outro ponto a favor do setor, conforme Torres, é a rapidez no ciclo produtivo das aves. “Enquanto um boi leva de três a cinco anos para chegar ao abate, um frango é produzido em 40 a 45 dias”, observa.
Em contrapartida, um levantamento preliminar realizado por Safras & Mercado, aponta para um impacto em torno de 15% a 20% nas exportações mensais de carne de frango por conta caso de Influenza Aviária, em Montenegro (RS).
Na visão de Fernando Iglesias, analista da consultoria, o Rio Grande do Sul será bastante prejudicado pelos bloqueios. Segundo o especialista, em torno de 8,37 mil toneladas da carne de frango do estado são embarcadas mensalmente para os Emirados Árabes Unidos, 7,6 mil toneladas para Arábia Saudita e 2,16 mil toneladas para o Japão. “A China importa mais de 40 mil toneladas mensais, com uma fatia de mais de 10% das exportações brasileiras”, destaca.
Mercado doméstico
Com a interrupção das compras, a CEO da Agrifatto, Lygia Pimentel, acredita que parte desse volume deverá ser redirecionado ao mercado interno, elevando a oferta e, consequentemente, pressionando as cotações no Brasil. “Certamente, por efeito osmótico concorrente, a gente deve ver as outras demais proteínas perdendo força também no mercado doméstico, mas ainda precisamos ver a extensão dos efeitos”, salienta.
Essa mesma visão é compartilhada igualmente pelo analista de Safras&Mercado, que também considera um recuo nas cotações. “Em uma primeira análise, haverá maior disponibilidade de produto no mercado doméstico, com potencial para recuo das cotações ao longo de todas as etapas da cadeia produtiva”, avalia Iglesias.
Já o CEO da Scot, não vê uma queda de preço em função de um possível maior volume de carne de frango no mercado doméstico. Ele acredita que pode acontecer algo regionalmente, mas por um período muito curto. “Depois o mercado se acerta de novo”, afirmou. Para Alcides, o mercado de ovos deve ter reflexos da mesma maneira, com um ajuste rápido, assim como na carne de frango.
Principais compradores de carne de frango do Brasil
No ano passado, a Ásia respondeu por 31,79% das exportações brasileiras de carne de frango em 2024. Com a China liderando as compras (10,89%), seguida do Japão (8,58%), de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior, compilados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Os países do Oriente Médio, por sua vez, foram os segundo principal destino da carne de frango produzida no Brasil, respondendo por 30,56% dos embarques. Emirados Árabes e Árabia Saudita foram os dois principais mercados compradores no continente, respondendo por 8,81% e 7,18% das importações, respectivamente.
No quadro geral, considerando as exportações em volume de 2024, os quatro países citados acima foram os principais compradores de carne de frango do Brasil, com 35,46% do mercado.
| Ranking | Destino | 2024 | Part. em volume (%) |
| 1º | China | 562.208 | 10,89% |
| 2º | Emirados Árabes Unidos | 455.121 | 8,81% |
| 3º | Japão | 443.202 | 8,58% |
| 4º | Arábia Saudita | 370.800 | 7,18% |
| 5º | África do Sul | 325.409 | 6,30% |
| TOTAL | 5.163.293 |
Risco sanitário como nos EUA?
A gripe aviária em uma granja comercial acende um alerta sanitário ao Brasil, principalmente, devido às perdas significativas em vários países, com destaque para os Estados Unidos, onde surtos recorrentes têm levado ao abate de milhões de aves e impactado diretamente a cadeia produtiva.
Apesar da preocupação, Alcides avalia que o Brasil está em posição favorável para conter o avanço da enfermidade. Para ele, o maior rigor das autoridades sanitárias pode ser um diferencial. “Nos Estados Unidos, a liberdade excessiva é um problema. No Brasil, o que a autoridade sanitária determina, tem que ser seguido. Aqui há mais respeito e rigor, o que pode evitar que o caso se espalhe”, ressaltou.
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