Economia
Feijão: baixa demanda esvazia mercado e preços seguem pressionados
Compradores estão cautelosos com fraco desempenho do varejo; perspectiva é de recuperação gradual da demanda e dos preços
Rafael Bruno | São Paulo | rafael.bruno@estadao.com
19/07/2024 - 05:16

O mercado de feijão se aproxima do fim de semana esvaziado, com negociações praticamente estagnadas. Nesta quinta-feira, o tipo carioca ficou travado no ambiente da bolsa, operando com poucos produtos remanescentes do início da semana.
Conforme a consultoria Safras & Mercado, aproximadamente 1,2 mil sacas de feijão foram ofertadas, mas não houve registro de lotes significativos comercializados durante o pregão. Segundo a consultoria, os preços continuam recuando, principalmente nos estados de Minas Gerais e Goiás, refletindo a baixa demanda do mercado. Atualmente é possível adquirir feijão carioca por valores em torno de R$ 250/saca.
No caso do feijão preto, devido a um excesso de oferta interna, o mercado seguiu inoperante. Apesar disso, os preços têm se sustentado por conta da desvalorização do real frente ao dólar, que influencia positivamente as exportações. A variedade é comercializada na bolsinha paulista a R$ 300/saca em média.
Carioca: sem interesse por parte do varejo, empacotadores reduzem as compras
A pressão sobre o mercado de feijão não se restringe aos últimos dias. Desde a segunda semana de julho, observa-se uma fraca comercialização com poucos compradores presentes. A redução das compras pelos empacotadores deve-se, em parte, à fraca demanda do setor varejista.
“Sem necessidade imediata de novas aquisições, os compradores não fazem sequer contrapropostas às ofertas existentes e a atual dinâmica do mercado mostra que a cautela tem persistido entre os compradores”, comenta Evandro Oliveira, analista de mercado.
Apesar do encerramento da safra principal do maior estado produtor do grão, o Paraná, os feijões recém-colhidos, especialmente das regiões de Minas Gerais e Goiás, apresentam uma desvalorização em torno de R$ 20 por saca no comparativo semanal. No entanto, em relação a igual período de 2023, há uma valorização de 9,43%, tendo como referência a saca do carioca extra a R$ 290 no fechamento da última semana.
O analista da Safras, Evandro Oliveira, explica que neste ano, por conta dos preços pouco atrativos do carioca em 2023 (ver gráfico), em comparação com outros tipos de feijão, houve manutenção ou redução de plantio da segunda safra do carioca, a principal do grão. Além disso, assim como na segunda, também houve impactos climáticos sobre a primeira safra nesta temporada, diminuindo a oferta da variedade, o que explica os melhores preços em 2024.

Sobre o atual momento do mercado, o analista comenta que a tendência é de recuperação dos preços, a depender da evolução da demanda.
“Sazonalmente os preços do feijão tendem a ser maiores nos primeiros meses do ano porque há um ‘hiato’ de oferta no final do ano anterior, tendo em vista que a terceira safra do grão tem características de ‘safra complementar’. Já a partir de abril e maio a tendência é de queda das cotações, com a entrada da segunda safra, a mais robusta”, explica Evandro.
Preto: ampla oferta e pouca demanda afastam novas comercializações
Também pressionado por uma demanda retraída e com um mercado bem abastecido após uma safra abundante, a comercialização do feijão preto segue com negócios pontuais, ocorrendo diretamente nas regiões produtoras. Em Ponta Grossa, no Paraná, as cotações variam entre R$ 240 e R$ 280 por saca.
“O baixo giro das gôndolas está dificultando a reposição de estoques por parte do varejo e a expectativa é que, sem uma mudança significativa na demanda, os preços permaneçam estáveis, com tendência de queda no curto prazo em algumas regiões”, comenta o analista da Safras.
Efeito arroz no feijão
Sobre a baixa demanda, Evandro traça uma relação de causa e efeito com o arroz. Em meados de maio, por conta da catástrofe que aconteceu no Rio Grande do Sul, houve uma corrida aos supermercados após o governo sinalizar – erroneamente, na opinião do analista – que faltaria arroz no país.
“A gente sabe que o consumidor que vai ao mercado comprar arroz também vai botar um saco de feijão no carrinho”, observa o especialista ao explicar que neste período houve uma boa saída dos produtos pelo varejo, com consumidores formando estoques, fato que posteriormente comprometeu as vendas.
Por fim, Evandro comenta que a expectativa dos agentes é de que, passado este mês de recessos e férias escolares, a demanda retorne gradualmente a partir de agosto. Quanto aos preços, ele acredita que a curva deve seguir ascendente e acima dos patamares do ano passado.
Siga o Agro Estadão no Google News e fique bem informado sobre as notícias do campo.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Economia
1
Em investigação, China aponta 'dano grave' à indústria de carne bovina e notifica OMC e exportadores
2
Fim do papel: produtores rurais terão de emitir nota fiscal eletrônica em 2026
3
Reforma tributária: o que o produtor rural precisa fazer antes de janeiro?
4
Começa a valer obrigatoriedade de emissão de nota fiscal eletrônica
5
Salvaguarda à carne bovina: Câmara Brasil-China vê desfecho favorável ao setor brasileiro
6
Feiras do agro 2026: calendário dos principais eventos do setor
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Economia
Acordo Mercosul-UE: Santa Catarina constrói plano para ampliar competividade
Estado acompanha fase final de formalização do tratado e organiza ações para ampliar competitividade quando o acordo entrar em vigor
Economia
Mercosul‑UE: especialista aponta oportunidades e limites do acordo para o Agro brasileiro
Análises do Ipea e Markestrat destacam ganhos em carnes e café, redução de custos em máquinas e o desafio das exigências ambientais
Economia
BNDES aprova R$ 950 mi para construção de nova usina de etanol da Inpasa na Bahia
Unidade em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, produzirá etanol, DDGS, óleo vegetal e energia elétrica a partir de milho e outros grãos
Economia
Café solúvel vê acordo Mercosul-UE como saída diante das tarifas dos EUA
Setor segue tarifado em 50% pelo seu principal cliente e não vê luz no fim do túnel das negociações diante do atual cenário geopolítico
Economia
Setor de vinhos do Brasil cobra condições equivalentes no acordo Mercosul-UE
Entidades avaliam que, sem ajustes internos, acordo tende a ampliar pressão de importados e afetar cadeia baseada na agricultura familiar
Economia
Desembolso no Plano Safra 2025/2026 cai 15,6% no 1º semestre, a R$ 186,146 bi
Montante corresponde a 45,8% do total disponível para a safra, de R$ 405,9 bilhões; produtores estão retraídos por conjuntura adversa
Economia
Acordo Mercosul-UE divide o agro brasileiro entre apoio e críticas
Faesp e Tereza Cristina defendem cautela com salvaguardas europeias, enquanto exportadores de suco de laranja celebram ganhos tarifários
Economia
Entenda as principais cotas agrícolas do acordo Mercosul-UE
Carnes bovina, suína e de aves terão limites de exportação, mas frutas, mel e arroz ganham acesso livre