PUBLICIDADE
Nome Colunistas

Celso Moretti

Engenheiro Agrônomo, ex-presidente da Embrapa

Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão

Opinião

Sanções à ureia russa: o tiro europeu que pode acertar em cheio o agro brasileiro

Recente decisão da União Europeia sobre fertilizantes nitrogenados pode trazer efeitos colaterais ao Brasil, como inflação dos alimentos

19/07/2025 - 08:00

Foto: Adobe Stock
Foto: Adobe Stock

A recente decisão da União Europeia (UE) de ampliar sanções contra a Rússia, com foco na exportação de fertilizantes nitrogenados como a ureia, impõe novos desafios ao Brasil. Embora o nosso país não seja parte das sanções, os efeitos indiretos podem ser significativos, dada a forte dependência brasileira desses insumos. Atualmente, o Brasil importa cerca de 1,5 milhão de toneladas de ureia russa por ano, o que representa uma parcela considerável do total utilizado pela agricultura nacional. A decisão da UE poderá ter impactos no abastecimento e na produção agrícola.

A Rússia é um dos principais exportadores mundiais de fertilizantes nitrogenados. Restrições comerciais que afetem a logística, o financiamento ou os contratos de fornecimento desses produtos podem comprometer o fluxo regular de insumos ao Brasil, elevando os custos e afetando diretamente a produção agrícola. Culturas como milho, cana-de-açúcar e café, altamente dependentes de nitrogênio, seriam particularmente afetadas, com impactos em produtividade, custos de produção e viabilidade econômica.

CONTEÚDO PATROCINADO

A medida pode trazer efeitos colaterais sobre preços dos alimentos e inflação. Além da ureia, outros produtos químicos e matérias-primas industriais de origem russa podem ser afetados pelas sanções, gerando desequilíbrios em cadeias produtivas internas e agravando pressões inflacionárias. A elevação dos custos dos fertilizantes tende a ser repassada aos preços finais dos alimentos, impactando a inflação e o custo de vida da população, além de reduzir a competitividade do agronegócio brasileiro.

A crise expõe uma vulnerabilidade estrutural, já abordada por este articulista várias vezes: a dependência externa de mais de 80% dos fertilizantes consumidos no Brasil. Apesar da criação do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), em 2022, sua implementação avança lentamente e ainda carece de coordenação institucional, mobilização de investimentos e apoio regulatório. O país possui capacidade instalada insuficiente para responder rapidamente a choques externos na oferta global.

O Brasil precisa encontrar caminhos estratégicos para mitigar riscos, avançando em várias frentes. É necessário diversificar fornecedores, com o estabelecimento de acordos comerciais com novos parceiros estratégicos — como Irã, Egito, Omã e países africanos —, o que contribuirá para reduzir riscos de concentração. É imperativo ainda fortalecer a produção nacional, com investimentos em plantas de produção de nitrogenados a partir de gás natural (inclusive importado), ação essencial para reconstruir a autonomia.

Tecnologias alternativas, como a fixação biológica de nitrogênio para além das leguminosas e o uso de fertilizantes organominerais, devem ser incorporados de forma mais ampla e incentivada. O governo pode também ativar mecanismos de financiamento para estocagem estratégica, compras antecipadas e apoio ao produtor em momentos de alta volatilidade internacional. Por fim, é necessária integração diplomática e comercial, reforçando canais bilaterais e multilaterais de cooperação, o que pode garantir acesso contínuo a insumos estratégicos em contextos adversos.

Em síntese, segurança alimentar exige segurança no fornecimento de insumos. A nova rodada de sanções internacionais contra a Rússia é mais um lembrete de que a segurança alimentar do Brasil está intrinsecamente ligada à sua segurança de insumos. Uma potência agrícola global como o Brasil não pode continuar vulnerável a decisões geopolíticas externas. É hora de transformar vulnerabilidades em uma agenda concreta de resiliência, inovação e soberania produtiva. A resposta não pode ser reativa — ela precisa ser estratégica e permanente.

Siga o Agro Estadão no WhatsApp, Instagram, Facebook, X, Telegram ou assine nossa Newsletter

PUBLICIDADE
Agro Estadão Newsletter
Agro Estadão Newsletter

Newsletter

Acorde bem informado
com as notícias do campo

Agro Clima
Agro Estadão Clima Agro Estadão Clima

Mapeamento completo das
condições do clima
para a sua região

Agro Estadão Clima
VER INDICADORES DO CLIMA

PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas

UE-Mercosul: o custo da postergação

Opinião

UE-Mercosul: o custo da postergação

Estudo do instituto ECIPE calculou que, para cada mês de atraso na vigência do acordo, a Europa perde € 4,4 bilhões em crescimento do PIB

Welber Barral loading="lazy"
Opinião:

Welber Barral

O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras

Opinião

O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras

Mudanças regulatórias, câmbios climáticos e reconfiguração do comércio internacional tornam 2026 um ano desafiador para o agro

Celso Moretti loading="lazy"
Opinião:

Celso Moretti

Em 2026, o silêncio também comunica

Opinião

Em 2026, o silêncio também comunica

Quando aqueles que entendem de um assunto se calam, o espaço público é ocupado por quem fala mais alto, não por quem fala melhor

Marcello Brito loading="lazy"
Opinião:

Marcello Brito

A vigência do Acordo Mercosul-União Europeia

Opinião

A vigência do Acordo Mercosul-União Europeia

Entenda quais são os próximos passos, tanto na Corte Europeia quanto nos países do Mercosul, para que o tratado passe a valer

Welber Barral loading="lazy"
Opinião:

Welber Barral

PUBLICIDADE

Opinião

Setor do biodiesel e agronegócio aguardam confirmação de B16 para março

A decisão reforça o previsto no Combustível do Futuro e é fundamental para garantir estabilidade ao setor, segurança jurídica para os investimentos e previsibilidade

Francisco Turra loading="lazy"
Opinião:

Francisco Turra

Opinião

25 anos de inovação que mudaram o agro brasileiro

A inovação agropecuária deixou de ser incremental e tornou-se sistêmica: produzir mais não basta; o desafio é produzir melhor, com eficiência e valor agregado

Celso Moretti loading="lazy"
Opinião:

Celso Moretti

Opinião

Marcos Fava Neves: em janeiro, quais os 5 pontos para ficar de olho?

Dólar, preços internacionais, demanda asiática e produtividade das lavouras devem exigir maior gestão dos produtores rurais no próximo ano

Marcos Fava Neves loading="lazy"
Opinião:

Marcos Fava Neves

Opinião

Comércio Internacional em 2026: A (Des)Ordem Globalizada

Exportadores encaram um ambiente volátil, marcado pela imprevisibilidade e por decisões políticas que enfraquecem regras multilaterais

Welber Barral loading="lazy"
Opinião:

Welber Barral

Logo Agro Estadão
Bom Dia Agro
X
Carregando...

Seu e-mail foi cadastrado!

Agora complete as informações para personalizar sua newsletter e recebê-la também em seu Whatsapp

Sua função
Tipo de cultura

Bem-vindo (a) ao Bom dia, Agro!

Tudo certo. Estamos preparados para oferecer uma experiência ainda mais personalizada e relevante para você.

Mantenha-se conectado!

Fique atento ao seu e-mail e Whatsapp para atualizações. Estamos ansiosos para ser parte do seu dia a dia no campo!

Enviamos um e-mail de boas-vindas para você! Se não o encontrar na sua caixa de entrada, por favor, verifique a pasta de Spam (lixo eletrônico) e marque a mensagem como ‘Não é spam” para garantir que você receberá os próximos e-mails corretamente.