PUBLICIDADE
Nome Colunistas

Welber Barral

Conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil

Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão

Opinião

Política Industrial com propósito

Considerado um termo censurável durante a era do Consenso de Washington, a política industrial ressurgiu no mundo pós-covid, capitaneada inclusive por EUA e Europa 

23/10/2024 - 08:30

Foto: Adobe Stock
Foto: Adobe Stock

Professora na prestigiosa University College London, a economista Mariana Mazzucato tem sido uma voz influente no debate atual sobre política industrial. Em suas obras, Mazzucato desafia a ideia de que a inovação é exclusivamente fruto do setor privado, e que o setor público desempenha um papel crucial na pesquisa e no desenvolvimento de tecnologias inovadoras.

Na mesma linha, em artigo recente, Policy with a Purpose, publicado em setembro de 2024 na revista do FMI(1), Mazzucato apresenta uma defesa vigorosa de uma política industrial moderna que vai além da simples correção das falhas de mercado. A autora argumenta que a política industrial deve ser utilizada para moldar mercados, dirigindo o crescimento econômico e a inovação em direção a metas globais, como a mitigação das mudanças climáticas e o desenvolvimento inclusivo. 

CONTEÚDO PATROCINADO

Um dos pontos fortes do argumento de Mazzucato é a ênfase em uma “abordagem orientada por missões”, que define objetivos amplos, como a neutralidade de carbono, e permite que os setores inovem de forma colaborativa para alcançá-los. Ela usa o exemplo do programa Apollo da NASA nos anos 1960 para mostrar como essa abordagem pode transformar vários setores econômicos. No entanto, há uma questão crítica que surge desse raciocínio: até que ponto é possível coordenar tantos setores de maneira eficaz? A realidade atual, com cadeias de valor fragmentadas e uma interdependência internacional acentuada, torna essa tarefa mais complexa do que foi alcançar a Lua. Coordenação multissetorial, mesmo em escala nacional, pode ser repleta de obstáculos práticos e políticos.

Outro ponto que merece atenção é a ideia de que o crescimento econômico deve ser tanto sustentável quanto inclusivo. Mazzucato critica abordagens de crescimento que ignoram a direção dessa evolução, sugerindo que sem uma orientação adequada, os empregos gerados podem ser prejudiciais ao meio ambiente e à população. Embora essa seja uma preocupação válida, o conceito de “crescimento orientado” pode gerar interpretações diversas. Nem sempre está claro como os governos devem equilibrar o crescimento econômico e a inclusão social, especialmente quando confrontados com interesses divergentes entre os setores público e privado.

Um aspecto positivo da obra é a sugestão de condicionalidades nos contratos público-privados. Mazzucato argumenta que as condições contratuais, como a exigência de metas de emissões líquidas zero ou o compartilhamento de lucros, são ferramentas importantes para alinhar o setor privado com objetivos públicos. Contudo, é necessário questionar até que ponto essas condicionalidades podem ser eficazes sem sufocar a inovação. A experiência brasileira demonstra como o excesso de regulamentações pode criar rigidez nos mercados, desencorajar investimentos e criar ineficiências burocráticas.

PUBLICIDADE

Para Mazzucato, o setor público deve ser dinâmico e empreendedor, capaz de assumir riscos e liderar a inovação. Uma visão do ideal, mas que desconsidera os problemas estruturais nos governos latino-americanos: corrupção, falta de capacidade técnica, desperdício, descoordenação são realidades que não podem ser ignoradas ao se propor uma política industrial eficaz. 

Por fim, Mazzucato propõe que a política industrial moderna deve evitar o “protecionismo verde” e enfatizar a cooperação global. Difícil esta defesa quando a Europa cria barreiras de carbono e os subsídios industriais dos EUA drenam recursos de economias emergentes. Este cenário impele questionamentos: como equilibrar a descarbonização com um desenvolvimento mais equitativo? Como gerar cooperação em meio a conflito crescente e nacionalismo renascente?

O excelente artigo de Mazzucato advoga pela política industrial com foco em objetivos sociais e ambientais. Apesar de seus méritos, também subestima as complexidades envolvidas na implementação de tais políticas em escala global, especialmente em termos de coordenação multissetorial, capacidade estatal e os dilemas inerentes à relação entre crescimento econômico e sustentabilidade. Como sempre, os desafios práticos precisam constar da reflexão acadêmica.


1. MAZZUCATO, Mariana. Policy with a Purpose. Finance & Development Magazine, September 2024.

Siga o Agro Estadão no WhatsApp, Instagram, Facebook, X, Telegram ou assine nossa Newsletter

PUBLICIDADE
Agro Estadão Newsletter
Agro Estadão Newsletter

Newsletter

Acorde bem informado
com as notícias do campo

Agro Clima
Agro Estadão Clima Agro Estadão Clima

Mapeamento completo das
condições do clima
para a sua região

Agro Estadão Clima
VER INDICADORES DO CLIMA

PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas

Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em fevereiro

Opinião

Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em fevereiro

Colheita da soja, janela do milho, mix da cana e cenário geopolítico estão entre as variáveis que podem mexer com o agro neste mês

Marcos Fava Neves loading="lazy"
Opinião:

Marcos Fava Neves

UE-Mercosul: o custo da postergação

Opinião

UE-Mercosul: o custo da postergação

Estudo do instituto ECIPE calculou que, para cada mês de atraso na vigência do acordo, a Europa perde € 4,4 bilhões em crescimento do PIB

Welber Barral loading="lazy"
Opinião:

Welber Barral

O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras

Opinião

O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras

Mudanças regulatórias, câmbios climáticos e reconfiguração do comércio internacional tornam 2026 um ano desafiador para o agro

Celso Moretti loading="lazy"
Opinião:

Celso Moretti

Em 2026, o silêncio também comunica

Opinião

Em 2026, o silêncio também comunica

Quando aqueles que entendem de um assunto se calam, o espaço público é ocupado por quem fala mais alto, não por quem fala melhor

Marcello Brito loading="lazy"
Opinião:

Marcello Brito

PUBLICIDADE

Opinião

A vigência do Acordo Mercosul-União Europeia

Entenda quais são os próximos passos, tanto na Corte Europeia quanto nos países do Mercosul, para que o tratado passe a valer

Welber Barral loading="lazy"
Opinião:

Welber Barral

Opinião

Setor do biodiesel e agronegócio aguardam confirmação de B16 para março

A decisão reforça o previsto no Combustível do Futuro e é fundamental para garantir estabilidade ao setor, segurança jurídica para os investimentos e previsibilidade

Francisco Turra loading="lazy"
Opinião:

Francisco Turra

Opinião

25 anos de inovação que mudaram o agro brasileiro

A inovação agropecuária deixou de ser incremental e tornou-se sistêmica: produzir mais não basta; o desafio é produzir melhor, com eficiência e valor agregado

Celso Moretti loading="lazy"
Opinião:

Celso Moretti

Opinião

Marcos Fava Neves: em janeiro, quais os 5 pontos para ficar de olho?

Dólar, preços internacionais, demanda asiática e produtividade das lavouras devem exigir maior gestão dos produtores rurais no próximo ano

Marcos Fava Neves loading="lazy"
Opinião:

Marcos Fava Neves

Logo Agro Estadão
Bom Dia Agro
X
Carregando...

Seu e-mail foi cadastrado!

Agora complete as informações para personalizar sua newsletter e recebê-la também em seu Whatsapp

Sua função
Tipo de cultura

Bem-vindo (a) ao Bom dia, Agro!

Tudo certo. Estamos preparados para oferecer uma experiência ainda mais personalizada e relevante para você.

Mantenha-se conectado!

Fique atento ao seu e-mail e Whatsapp para atualizações. Estamos ansiosos para ser parte do seu dia a dia no campo!

Enviamos um e-mail de boas-vindas para você! Se não o encontrar na sua caixa de entrada, por favor, verifique a pasta de Spam (lixo eletrônico) e marque a mensagem como ‘Não é spam” para garantir que você receberá os próximos e-mails corretamente.