Agropolítica
Validação do CAR é passo decisivo para destravar Código Florestal, apontam especialistas
Evento em Brasília reuniu representantes dos setores público, privado e da sociedade civil para pactuar implementação da lei sancionada há 13 anos
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
23/10/2025 - 16:25

O Cadastro Ambiental Rural (CAR) foi o ponto central dos debates sobre sustentabilidade e agronegócio durante o evento “Pacto pelo Código Florestal”, realizado nesta quinta-feira, 23, em Brasília (DF). Representantes do setores público, privado e da sociedade civil defenderam que a validação do CAR é o passo decisivo para destravar a implementação do Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), sancionado há 13 anos.
Organizado por Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Coalizão Brasil, Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), Conservação Internacional, Diálogo Florestal, Observatório do Código Florestal e o Ministério da Gestão e da Inovação (MGI), o pacto propõe responsabilidades compartilhadas entre governos, setor produtivo e sociedade civil.
Segundo dados do Plano Estratégico para a Implementação do Código Florestal (Planaflor), o cumprimento integral da lei poderia gerar 2,5 milhões de empregos, proteger quase 80 milhões de hectares de vegetação nativa, restaurar 12 milhões de hectares de áreas degradadas, além de impulsionar o PIB em US$ 1,5 bilhão por ano e gerar até US$ 5,7 bilhões anuais no mercado de carbono.
Agenda estratégica
A diretora associada do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), Joana Chiavari, afirmou que o país tem mais vegetação nativa do que passivos ambientais, o que cria “um ativo ambiental extraordinário”, capaz de gerar riqueza por meio de mercados de carbono e Cotas de Reserva Ambiental (CRA). “Implementar o Código é uma agenda estratégica para o Brasil, porque une floresta, clima e desenvolvimento econômico. O pacto simboliza o compromisso coletivo de transformar esse potencial em resultados concretos e duradouros”, disse.
Segundo ela, o avanço recente do Cadastro Ambiental Rural (CAR) demonstra que o sistema está ganhando escala. Entre 2019 e 2025, todos os Estados passaram a realizar análises dos cadastros e, em 2024, o número de registros com análise iniciada cresceu 41%, alcançando 1,6 milhão, o equivalente a 20% da base nacional. Já os cadastros com análise concluída aumentaram 92%, somando 485 mil registros validados, o que representa pouco mais de 6% do total. Estados como São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais e Ceará se destacaram ao adotar análises automatizadas, consideradas por Chiavari um “divisor de águas” na implementação do Código Florestal.

O enviado especial para a Agricultura da COP 30, Roberto Rodrigues, afirmou que a eficiência do agro brasileiro depende da efetividade da lei. “A atividade rural brasileira é moderna e eficiente, mas manchada pelo descumprimento de leis fundamentais. O Código Florestal é a mais moderna e perfeita legislação ambiental do mundo, mas precisa sair do papel”, disse. “Aplicar o Código dá segurança jurídica, estabilidade regulatória e mais produtividade. Cuidar da floresta é bom para o produtor e para o Brasil. Isso significa mais exportação, emprego e renda”, completou.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), André Nassar, reforçou que o Código é reconhecido internacionalmente e fortalece a imagem do agronegócio. “Ele é conhecido e respeitado na Europa, na Ásia e em todo o mundo como exemplo de legislação moderna e inovadora. O Código é um grande ativo para o país”, afirmou.
Rastreabilidade e legalidade
Segundo Nassar, o cadastro é a base das análises socioambientais das empresas exportadoras. “Sem o CAR, seria impossível garantir a rastreabilidade e a legalidade das cadeias produtivas. Ele é o ponto de partida para toda a checagem ambiental feita pelas empresas”, explicou. Para ele, a validação dos cadastros é hoje o principal desafio. “Enquanto o CAR não for validado, o produtor não está regularizado. Validar e implementar os Programas de Regularização Ambiental (PRA) é essencial para restaurar áreas degradadas e ampliar a captura de carbono”, defendeu.
O gerente de Sustentabilidade da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Giuliano Alves, destacou que o Código deve ser visto como oportunidade e não obrigação. “Cumprir a lei posiciona o Brasil como potência em segurança climática e alimentar. O desafio é construir uma governança integrada, com vontade política e cooperação entre União, Estados, municípios e setor privado”, disse.

Tecnologia e integração fundiária
O diretor do Cadastro Ambiental Rural, Henrique Dolabella, encerrou o encontro defendendo que a implementação é a melhor defesa contra retrocessos. “A falta de execução abre brechas para questionamentos e mudanças inoportunas. A implementação é a vacina contra a desconstrução de consensos”, afirmou.
Dolabella propôs que o governo e o setor privado definam metas concretas e criem capacidades institucionais para acelerar a análise e a validação dos cadastros. “Precisamos gastar energia em fazer o Código funcionar, não em discutir se ele muda ou não. Implementar é o que garante segurança jurídica, renda e prosperidade”, disse.
Ele destacou ainda os avanços tecnológicos e a integração de dados fundiários que estão sendo desenvolvidos pelo MGI. Entre as medidas, citou o CAR pré-preenchido, o ‘Meu Imóvel Rural’ — ferramenta que permite ao produtor acessar informações fundiárias e ambientais — e a interoperabilidade com o Banco Central e instituições financeiras, para facilitar o crédito verde. “Estamos construindo o ‘como’ fazer. E o ‘como’ é o que garante que o Código saia do papel e gere resultados concretos”, concluiu.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Agropolítica
1
Proposta no Congresso pode flexibilizar porte de arma em propriedades rurais; entenda
2
Brasil terá fazendas de cannabis? Anvisa vota regras para o cultivo nesta semana
3
Governo inicia processo de desapropriação de 7 imóveis rurais para reforma agrária; veja onde
4
Lula sanciona orçamento com pouco mais de R$ 1 bilhão para Seguro Rural
5
Irã, Groenlândia e Venezuela: como as tensões geopolíticas impactam o agro do Brasil?
6
Anvisa aprova cultivo de cannabis, mas especialistas veem impacto limitado
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Agropolítica
Brasil abre novos mercados em Mianmar e na Malásia
Produtos derivados de reciclagem animal e castanhas brasileiras estão na lista
Agropolítica
Bancos públicos vão passar por auditoria para verificar práticas de venda casada
Decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) acata pedido feito pela Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados em dezembro
Agropolítica
Secretária dos EUA celebra compromisso 'sem demora' de Trump com E15
Em discurso em Iowa, Trump afirmou que assinaria o projeto assim que fosse aprovado pelo Congresso, o que pressiona o Legislativo
Agropolítica
Anvisa aprova cultivo de cannabis, mas especialistas veem impacto limitado
Limite de 0,3% de THC, previsto na resolução, exigiria mais de 33 mil hectares para atender o mercado de cannabis medicinal no Brasil
Agropolítica
Em conversa com vice-presidente da China, Alckmin demonstra preocupação com salvaguarda à carne
Pedido brasileiro busca ajustes no cumprimento e na contagem da cota prevista para a carne bovina brasileira
Agropolítica
Proposta no Congresso pode flexibilizar porte de arma em propriedades rurais; entenda
Projeto prevê programa de proteção ao agro, crédito para compra de equipamentos de segurança e mudanças no Código Penal
Agropolítica
Lula diz a Macron que acordo Mercosul-UE é positivo para os 2 blocos
Conversa foi por telefone e incluiu possibilidade de acelerar tratativas em negociações que envolvam Brasil e França
Agropolítica
Governo inicia processo de desapropriação de 7 imóveis rurais para reforma agrária; veja onde
Medida foi anunciada pelo presidente da República em encontro com o MST na semana passada e formalizada nesta terça-feira