Agropolítica
Marina Silva é chamada de “adestrada” e diz ser “a maior amiga” do agronegócio
Ministra do Meio Ambiente participou de audiência na Câmara dos Deputados para explicar as ações da pasta no combate às queimadas
Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com e Fernanda Farias | Porto Alegre | fernanda.farias@estadao.com
16/10/2024 - 19:06

A participação da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, na comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados foi marcada por enfrentamentos e trocas de acusações entre os lados da oposição e da base governista e críticas diretas à ministra e ao governo. “O Brasil virou o capacho verde dos bilionários do exterior?”, afirmou a deputada federal Julia Zanatta (PL-SC) ao questionar a ministra e chamá-la de “incompetente” ao dizer que ela não foi capaz de “apresentar um trabalho prático” no combate às queimadas.
Após mais de três horas de audiência, o presidente da comissão, deputado federal Evair de Melo (PP-ES), repudiou “a forma de vitimização” da ministra e disse que ela havia passado por um “adestramento”, ao comentar o seu treinamento para falar em público.
“O media training está em dia […] esse adestramento para ter essa postura”, disse Melo, provocando reação imediata. “Adestramento? Quem é que é adestrado? […] O senhor não vai me dizer que eu sou uma pessoa adestrada”, respondeu a ministra, visivelmente incomodada.
Ao Agro Estadão, Melo qualificou a participação da ministra como “lamentável”. O parlamentar analisa que a chefe do Meio Ambiente não respondeu sobre pontos como licenciamento ambiental, utilização do Fundo Amazônia e formas para evitar e mitigar a repetição dos eventos climáticos de maio no Rio Grande do Sul.
“Se fosse uma prova ela teria tirado zero, porque ela não respondeu nenhuma pergunta que foi feita a ela, ela entregou a prova em branco. Isso mostra a baderna que está o Brasil. Ela é um reflexo desse governo: sem projeto, sem programa, só discurso”, disse o deputado, que vê como preocupante a atuação da pasta. “Você sabe que o licenciamento não vai andar, que a burocracia do ministério vai aumentar cada dia mais. O comportamento dela e o modus operandi dela traz uma insegurança jurídica para o país sem precedentes”, concluiu.
Na saída da audiência, a ministra falou a jornalistas que não espera ser diferente. “Eu vim preparada, sabia que ia ser nesse nível o debate como foi posto. Obviamente que não são todos, existem aqueles que podem até divergir – identifiquei um ou dois – mas com a manutenção da postura no parlamento. E existem aqueles que vêm aqui para fazer ofensa, acusação e sobretudo projeção. Eu vi muita projeção”.
Maior amiga do agronegócio
Durante o discurso, Marina Silva defendeu que não é inimiga do agronegócio. “Eu me considero a maior amiga do verdadeiro agronegócio. […] Os verdadeiros amigos do agronegócio são aqueles que não permitem que o agronegócio brasileiro seja associado a desmatamento”, comentou a ministra.
“Uma ascendência de desmatamento de mais de 50% como eu encontrei, isso depõe contra o agronegócio. Ter reduzido o desmatamento em mais de 60% nesse um ano e oito meses, que é o dado que nós temos, isso fez com que conseguíssemos abrir mais de 200 mercados para o agronegócio brasileiro, ainda que ninguém vai reconhecer”, acrescentou.
Ela ainda classificou os defensores de medidas contra demarcação de terras indígenas como os inimigos do setor. “Os inimigos do agronegócio são aqueles que associam o agronegócio brasileiro à regularização de terras roubadas da União, do Estado e dos Municípios. Os inimigos do agronegócio brasileiro são aqueles que são contra a demarcação de terras indígenas e gostariam que os povos indígenas não tivessem um lugar ao sol”, disse.
Marina Silva diz que é preciso seguir as orientações de não colocar fogo nas áreas
O que era convocação virou um convite para participar da audiência e explicar as ações do governo federal no enfrentamento do cenário de queimadas que o país vem passando nos últimos meses. A ministra do Meio Ambiente pontuou as medidas feitas pela pasta, como a criação da Secretaria Extraordinária de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial e a publicação de normativas que funcionaram de forma preventiva, de acordo com ela.
Marina Silva ainda citou medidas que estão em estudo no governo. “Então em primeiro lugar vem a ideia de uma estratégia nacional. Em segundo lugar, a figura jurídica da emergência climática, uma autoridade nacional para o enfrentamento da mudança climática”, afirmou.
Questionada sobre a necessidade de mais verba para órgãos ligados ao enfrentamento dos incêndios, Silva disse que espera que o Congresso Nacional aprove um orçamento sem cortes. Porém, ressaltou que é preciso seguir as orientações de não colocar fogo em períodos de seca.
“Obviamente que precisamos ampliar os recursos, mas o que nós precisamos mesmo é de quando chega o período da estiagem, o período do fogo, que é feita a proibição do fogo, que as pessoas não coloquem fogo. Se não nós vamos ficar simplesmente pegando o dinheiro público e utilizando para algo que preventivamente poderia se fazer, preventivamente não colocar fogo”, indicou.
Os deputados também citaram os exemplos das ações da iniciativa privada em São Paulo que tiveram participação ativa no combate aos incêndios nos meses de agosto e setembro. Eles apontaram que o governo federal teve pouca atuação, deixando a responsabilidade na mão do estado e do setor. A ministra argumentou que o governo estava a par da situação e encaminhou equipamentos e aeronaves para auxiliar, mas lembrou que a estrutura de combate ao fogo em outros estados é inferior a de São Paulo. Ela ainda sugeriu que produtores da região Amazônica tenham acesso a crédito para se estruturarem no enfrentamento ao fogo.
“Aí eu acho que tem uma discussão que pode ser feita que é o Banco da Amazônia. Eu não sei como seria essa engenharia, mas o Banco da Amazônia poderia ter uma linha de crédito, de financiamento, com linhas de crédito, com juros mais reduzidos para que a gente tenha as empresas devidamente equipadas para fazer esse enfrentamento”, propôs Silva.
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