Agricultura
Feijões do Vale do Juruá (AC) têm até 35% mais proteína que variedades comuns
Estudo destaca o valor nutricional e cultural dos feijões crioulos cultivados por agricultores familiares do Estado
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
09/11/2025 - 05:00

Um estudo conduzido no Vale do Juruá, no Acre, identificou variedades de feijão com teores de proteína superiores às médias nacional e mundial. Os feijões-caupi Costela de Vaca e Manteiguinha Branco (Vigna unguiculata (L.) Walp.) apresentaram até 27% de proteína, enquanto a média de outras regiões fica em torno de 20% — ou seja, 35% a mais.
Também conhecido em outras regiões do País como feijão-de-corda, feijão-macassar ou feijão-fradinho, o caupi é uma espécie típica das áreas tropicais, resistente à seca e rica em proteínas e ferro.
As análises foram realizadas no laboratório de Bromatologia da Embrapa Acre. Segundo a pesquisa, as duas variedades são cultivadas por agricultores familiares que mantêm sistemas agrícolas tradicionais, geralmente em áreas de várzea, durante o período seco. “Essas variedades possuem pouco ou nenhum estudo, o que deixa claro que ainda temos muito a conhecer sobre elas”, afirma Guiomar Almeida Sousa, professora do Instituto Federal do Acre (Ifac).
O diferencial nutricional dos feijões do Vale do Juruá está ligado à combinação entre condições ambientais favoráveis, manejo tradicional e diversidade genética. O solo fértil e o regime de chuvas da região favorecem a formação de grãos ricos em proteínas e compostos bioativos. As sementes crioulas, cultivadas sem o uso de insumos químicos e selecionadas há gerações pelos próprios agricultores, mantêm características originais que contribuem para o alto valor nutricional. Essa interação entre ambiente, cultura e biodiversidade explica por que os feijões locais se destacam em relação às variedades comuns.
O levantamento também constatou altos índices de antocianinas — substâncias antioxidantes naturais — em feijões das variedades Preto de Arranque e Preto de Praia. Os valores variaram de 420 a 962 microgramas por grama, superiores aos de feijões brancos e coloridos. Essas substâncias auxiliam no combate ao envelhecimento celular e na prevenção de doenças como câncer, problemas cardíacos e Alzheimer.

A conservação dos grãos foi outro destaque do estudo. Mesmo após 12 meses de armazenamento, os feijões mantiveram seus valores nutricionais. “Esse é um ponto muito importante, considerando que as sementes são selecionadas e manejadas por agricultores familiares, indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais”, explica Amauri Siviero, pesquisador da Embrapa Acre.
Durante três anos, os pesquisadores avaliaram 14 variedades cultivadas nos rios Juruá, Breu, Tejo e Amônia, em Marechal Thaumaturgo — município com maior diversidade de feijões do Acre. O trabalho resultou na elaboração de um mapa da distribuição de variedades crioulas em todo o Estado. Siviero observa que “o cultivo dessa leguminosa ocorre em todos os municípios acreanos, mas a maior diversidade está no Vale do Juruá”.
Potencial para certificações
De acordo com o professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) Eduardo Pacca, “o Vale do Juruá pode ser considerado um dos principais centros de conservação on farm de feijões caupi e comum do mundo”. Ele ressalta o potencial das variedades locais para obter certificações de origem e selos de qualidade.
Além do valor nutricional, os feijões do Vale do Juruá representam um patrimônio genético e cultural. A Embrapa coordena, com outras instituições, o projeto Registro dos Sistemas Agrícolas Tradicionais do Alto Juruá (RSAT Alto Juruá), que mapeia práticas agrícolas ancestrais na região. Em agosto de 2025, a equipe percorreu mais de 190 quilômetros pelo rio Juruá, visitando comunidades em sete municípios do Acre e do Amazonas.
Para Siviero, esses sistemas vão além da produção de alimentos. “Os feijões do Vale do Juruá se perpetuam como herança passada entre gerações e como práticas de conservação da agrobiodiversidade”, afirma.
A pesquisadora Elisa Wandelli, da Embrapa Amazônia Ocidental, destaca a sustentabilidade das práticas locais. “Nas comunidades que visitamos, vimos uma população sábia, que mostra que é possível produzir alimento e cuidar da natureza ao mesmo tempo”, diz.
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