Agricultura
Produção de sorgo cresce 400% em 10 anos e vira aposta na segunda safra
Cultura avança como alternativa na segunda safra, puxada pela demanda por etanol, maior resiliência climática e manejo eficiente do solo
Redação Agro Estadão
24/12/2025 - 09:34

Nos últimos dez anos, a produção nacional de sorgo cresceu mais de 400%, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Parte desse avanço vem justamente das novas fronteiras agrícolas, onde o cereal encontrou espaço na segunda safra, com boa adaptação às janelas de plantio e maior tolerância ao estresse hídrico.
No Maranhão e no Oeste da Bahia, o sorgo está deixando de ser uma cultura alternativa e vem se tornando um componente fixo da safrinha, com impacto direto na rentabilidade e na sustentabilidade das lavouras. Segundo a Embrapa, a expansão da área plantada e o salto de produtividade refletem a combinação entre demanda industrial, sobretudo para a produção de etanol, e a necessidade de diversificação diante de um cenário climático mais instável
“O sorgo está sendo impulsionado por ser uma cultura com características complementares às atuais culturas agrícolas utilizadas nos sistemas de produção brasileiros, principalmente por sua resiliência e adequação às demandas crescentes por culturas estratégicas frente a um cenário de mudanças climáticas e necessidade de diversificação da matriz energética”, explica Frederico Botelho, chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Milho e Sorgo.
Segundo ele, a consolidação do etanol de cereais mudou o patamar da cultura. “A demanda por etanol de cereais elevou o sorgo de cultura secundária a matéria-prima estratégica. Usinas localizadas no Mato Grosso do Sul, Goiás, Mato Grosso, Maranhão e outros vêm fomentando o cultivo e a compra do grão para impulsionar a produtividade industrial”, afirma.
Oeste da Bahia amplia área e produtividade
Na Região Oeste da Bahia, que reúne 31 municípios, o sorgo já aparece como peça importante da safrinha. A previsão para a safra 2025/26 é de 200 mil hectares cultivados, segundo a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba).
Para o produtor e empresário Celito Breda, da empresa de assessoria e pesquisa agronômica Círculo Verde, o avanço do sorgo atende a várias demandas do sistema produtivo. “Há demanda pelo grão de sorgo, há demanda por incorporação de carbono no solo, há demanda por uma formação de palhada em uma segunda safra. Tudo isso nos leva a crer que precisamos de mais gramínea na matriz produtiva”, afirma.
Breda destaca que a cultura já ganha em produtividade. “Estamos com média de produção em torno de 85 sacas por hectare na segunda safra, porque nós investimos e plantamos em áreas muito férteis”, diz. A expectativa, segundo ele, é de avanço rápido. “Daqui a cinco anos as fazendas produzirão 140 sacas de sorgo por hectare. Para pivôs plantados em fevereiro, a perspectiva é de 200 sacas por hectare”.
Maranhão aposta na diversificação
No Sul do Maranhão, a cultura também avança. Para a safra 2025/26, a área plantada de sorgo deve chegar a 54,1 mil hectares, com produtividade estimada em 2.465 quilos por hectare, conforme a Conab.
Produtores da região apontam a diversificação como principal ganho. “Com o sorgo temos a diversificação de culturas, o aproveitamento da janela de plantio e o aumento de área plantada. Quanto mais áreas cultivadas, maior a receita”, afirma Jean Henrique Martins, produtor de grãos no Estado.
Haroldo Uemura, empreendedor rural que cultiva sorgo no Oeste da Bahia, no Piauí e no Maranhão, destaca a segurança comercial. “O sorgo tem uma boa margem de rentabilidade. Além de grãos, é uma boa opção para fazer a cobertura do solo. Hoje, temos mais segurança de liquidez, com a destinação dos grãos para a produção de etanol”, diz.
Manejo define o sucesso da cultura
Com a expansão, cresce também a atenção ao manejo. Especialistas apontam que plantas daninhas, pragas e fertilidade do solo são fatores decisivos para a produtividade do sorgo.
“O controle químico deve ser visto como método complementar, não como única alternativa”, afirma o pesquisador Alexandre Ferreira da Silva, da Embrapa. Segundo ele, o manejo preventivo é essencial para evitar a dispersão de plantas daninhas, inclusive por máquinas agrícolas.
Outro ponto crítico é o chamado efeito residual de herbicidas aplicados na cultura anterior, especialmente a soja. “É muito importante conhecer os herbicidas residuais que podem prejudicar o desenvolvimento do sorgo semeado em sucessão”, alerta.
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