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Agricultura

Diesel e estiagem ameaçam safra de verão no Rio Grande do Sul

Falta de combustível já atinge 44% das prefeituras gaúchas; chuvas abaixo da média prejudicam lavouras de soja e milho 

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Redação Agro Estadão

23/03/2026 - 13:53

Emater estimou prejuízo de mais de R$ 146 milhões, afetando soja, milho e produção leiteira. Foto: Adobe Stock
Emater estimou prejuízo de mais de R$ 146 milhões, afetando soja, milho e produção leiteira. Foto: Adobe Stock

A combinação de estiagem prolongada e escassez de diesel coloca em risco a safra de verão do Rio Grande do Sul. Enquanto prefeitos de diversas regiões relatam dificuldades para abastecer as máquinas agrícolas, os dados climáticos de fevereiro mostram que as chuvas ficaram abaixo da média histórica em quase todo o Estado.

Fevereiro seco

Desde dezembro de 2025, 44 municípios tiveram os registros de Situação de Emergência ou Calamidade Pública homologados pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul (RS). Entre as últimas homologações, está Júlio de Castilhos, considerada a segunda maior cidade produtora de soja no RS, em emergência devido aos prejuízos causados pela estiagem na zona rural e urbana.

O decreto municipal foi publicado em 12 de fevereiro, com base em levantamento da Emater que estimou as perdas econômicas no agronegócio, na época, em mais de R$ 146 milhões. Os danos atingiram as culturas de soja, milho grão e milho para silagem, além de redução da produção leiteira no município.

O monitoramento climático da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) aponta que as chuvas em fevereiro ficaram abaixo da média climatológica padrão (conjunto de dados meteorológicos de 1991 a 2020) em grande parte do Estado. Regiões como Campanha, Zona Sul, Litoral, Serra, Planalto, Alto Uruguai e parte da Fronteira Oeste registraram desvios negativos entre 5 e 100 milímetros. Apenas parte da Fronteira Oeste e áreas pontuais no Planalto e Depressão Central escaparam do déficit hídrico.

“Os valores de temperatura do ar variaram de próximos a acima da normal em praticamente todo o Estado”, detalha a pesquisadora Ivonete Tazzo, uma das autoras do comunicado técnico da Seapi. O resultado foi uma heterogeneidade de desempenho nas lavouras: a soja e o milho sofreram com o estresse hídrico, enquanto cultivos como arroz e uva se beneficiaram das condições. “O menor número de dias de chuva, a elevada disponibilidade de radiação solar e temperaturas mínimas na faixa ideal favoreceram a cultura do arroz, além da maturação e colheita das uvas”, acrescenta Tazzo.

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Na pecuária, o impacto também foi sentido. As condições meteorológicas de fevereiro acarretaram disponibilidade irregular das pastagens. “Por isso, houve a necessidade de ajuste de carga no gado de corte e manejo para redução de estresse térmico para as vacas leiteiras, a fim de diminuir perdas de produção”, conclui a pesquisadora.

Crise do combustível 

Se a estiagem já pressionava os produtores, a falta ou aumento abusivo nos valores do diesel acende um segundo sinal de alerta e afeta não apenas o campo. Um levantamento da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), atualizado nesta segunda-feira, 23 , aponta que pelo menos 143 prefeituras gaúchas enfrentam escassez de combustível. O número representa 44,8% das 319 prefeituras que responderam ao questionário encaminhado pela entidade aos gestores municipais.

O impacto já começa a ser sentido nos serviços essenciais. Prefeitos relatam que estão priorizando o transporte de pacientes na área da saúde, enquanto obras e atividades que dependem de maquinário pesado têm sido suspensas. 

Entre esses municípios, está também Júlio de Castilhos que, na última quarta-feira, 18, declarou situação de emergência administrativa em razão do aumento abusivo no preço do óleo diesel contratado. Segundo o documento, a situação “compromete o abastecimento da frota municipal e impacta diretamente a prestação de serviços públicos essenciais, especialmente nas áreas de saúde, educação, assistência social e infraestrutura”.

“Essa situação tende a se agravar se nenhuma medida de garantia do abastecimento for tomada. Temos o risco de que isso afete o transporte escolar e o transporte de pacientes para outras cidades. Vamos levar esses dados ao governador e reforçar a necessidade de buscarmos alternativas para garantir o pleno funcionamento dos serviços. Precisam de respostas efetivas, especialmente por parte do governo federal”, afirmou a presidente da Famurs e prefeita de Nonoai, Adriane Perin de Oliveira.

O problema no abastecimento de combustível não é novidade para o setor agrícola, como já foi mostrado pelo Agro Estadão. Em 7 de março, a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) já havia emitido nota alertando para a gravidade da situação, depois que agricultores de diversas regiões reclamaram da não entrega de diesel pelos Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs) — empresas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) a adquirir combustível a granel para revender aos produtores rurais.

Na ocasião, a entidade ressaltou que “o Rio Grande do Sul está em meio à colheita da safra de verão, em especial arroz e soja. O atraso no trabalho faz com que as lavouras fiquem expostas a intempéries em um estado que já vem sofrendo volumoso prejuízo pelo acúmulo de perdas em razão de eventos climáticos, impactando em toda economia gaúcha”.

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