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Agricultura

Como o manejo do solo vai permitir ao produtor pagar menos pelo seguro rural?

Segundo especialista, ZarcNM rompe impasse histórico ao mostrar, com evidências, quem realmente apresenta menor risco climático

Nome Colunistas

Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com

09/12/2025 - 05:00

Projeto piloto utiliza metodologia de análise de solo desenvolvida pela Embrapa. | Foto: Adobe Stock
Projeto piloto utiliza metodologia de análise de solo desenvolvida pela Embrapa. | Foto: Adobe Stock

Está em curso no Brasil um processo de reformulação do seguro rural que deve alterar o cálculo de risco para proteção da produção. A proposta incorpora o manejo do solo como critério direto de risco e de acesso à subvenção pública. A ideia central é que produtores que adotam boas práticas agronômicas apresentem menor probabilidade de perdas e, portanto, devem pagar menos pelo prêmio e receber percentuais maiores de subvenção.

A nova modalidade — Zoneamento Agrícola de Risco Climático em Níveis de Manejo (ZarcNM) — está em fase piloto, concentrada inicialmente na soja no Paraná e já passou a ser operado pela primeira vez Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), 24 áreas de produção, somando cerca de 2,4 mil hectares, aderiram ao teste e contrataram seguro rural com percentuais diferenciados de subvenção conforme o nível de manejo adotado.

CONTEÚDO PATROCINADO

Os primeiros resultados mostram a distribuição dos talhões no piloto:

  • 5% das áreas alcançaram nível 4, o mais alto, com 35% de subvenção;
  • 27% ficaram no nível 3, com 30% de subvenção;
  • 57% no nível 2, com 25% de subvenção;
  • 11% foram classificadas como nível 1, mantendo os 20% padrão do PSR.

Metodologia

O projeto piloto utiliza a metodologia desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) que permite classificar talhões em quatro níveis de manejo (NM), com base em seis indicadores:

1. tempo sem revolvimento do solo;

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2. cobertura do solo no momento do plantio;

3. rotação de cultura nos últimos três anos;

4. saturação por bases;

5. saturação por cálcio na camada de 20 a 40 centímetros do solo;

6. saturação por alumínio na camada de 20 a 40 centímetros do solo.

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Segundo Eduardo Monteiro, coordenador da Rede Zarc de Pesquisa da Embrapa, esses indicadores, basicamente, envolvem informações do histórico de produção da área e de uma análise de solo de rotina. “Eles são combinados por meio de uma metodologia própria de combinação e interpretação, que leva à classificação em níveis 1, 2, 3 e 4. Quanto mais alto o número, maior o score da classificação: nível 4 é o mais alto e nível 1 é o mais baixo”, explicou. A classificação é registrada no sistema oficial da Embrapa e vinculada ao PSR.

A iniciativa parte de um diagnóstico consensual entre pesquisadores e seguradoras: a seca é o principal fator de perdas na agricultura brasileira, respondendo por 70% a 90% das quebras em culturas de verão, conforme dados da Embrapa. Porém, isso depende diretamente das condições físicas, químicas e biológicas do solo. “Na seca de 2022, por exemplo, áreas classificadas como nível de manejo 3 produziram entre 55% e 83% mais do que áreas de nível 1”, salienta Monteiro. 

Impacto no seguro 

Para o coordenador executivo do Observatório de Seguro Rural da FGV Agro e ex-diretor de do Departamento de Gestão de Riscos do Mapa, Pedro Loyola, a inclusão do manejo na estrutura de risco do seguro representa uma mudança histórica no arcabouço de políticas agrícolas. Ele afirma que a nova metodologia cria condições para que o mercado opere com maior precisão, reduzindo distorções do setor. Uma delas é a seleção adversa, quando produtores de baixa produtividade tendem a contratar mais seguro do que aqueles com tecnologia superior.

Nesse aspecto, Loyola indica que a ausência de dados individualizados sempre foi o principal entrave para diferenciar riscos entre produtores, uma vez que a média municipal do Instituto Brasileiro de Geografia a Estatística (IBGE) — usada por seguradoras e bancos — não captura diferenças tecnológicas relevantes dentro do mesmo município e acaba afastando agricultores mais eficientes. “O produtor que colhe 4 mil quilos não se vê representado por uma média de 3 mil. Já o que produz 2,5 mil se sente estimulado, porque entra no seguro praticamente sinistrado”, explica.

O ZarcNM, afirma ele, rompe esse impasse ao gerar um indicador verificável, construído com evidências de solo, histórico da área e monitoramento geoespacial. A combinação de análise laboratorial e dados de satélite permite validar o nível de manejo com menor margem de dúvida. Para ele, a lógica é direta: solos mais estruturados conservam melhor a umidade, aprofundam raízes e perdem menos produtividade mesmo sob estresse hídrico. “Se o risco cai, o prêmio cai; se o prêmio cai, o seguro se torna mais acessível. O produtor ganha duas vezes: na subvenção e na precificação”, diz. 

Para Loyola, o potencial de expansão é enorme. Há expectativa de que o modelo possa se tornar, em poucos anos, a base de toda a política de seguro rural para grãos e, no médio prazo, alcançar outras culturas. Ele afirma que, se mantida a trajetória atual, o manejo deve se tornar requisito para acesso à subvenção, ampliando a adoção de boas práticas agronômicas e reduzindo a sinistralidade sistêmica. “É uma mudança estrutural, que combina ciência de solo, dados de satélites e políticas públicas. Se o ciclo avançar como previsto, em cinco anos podemos ver o nível de manejo incorporado ao dia a dia das seguradoras”, afirma.

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