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Açaí: Pará investe em ações para driblar a sazonalidade da produção

Além da migração do cultivo de áreas de várzea para irrigadas, estado realiza intercâmbio tecnológico com a Colômbia

4 minutos de leitura 28/06/2024 | 07:30

Por: Sabrina Nascimento

Cacho de açaí irrigado no Pará. Foto: Ronaldo Rosa
Cacho de açaí irrigado no Pará. Foto: Ronaldo Rosa

O açaí é um dos pilares econômicos do Pará, responsável por cerca de 90% da produção nacional do fruto. Anualmente, o estado produz em torno de 160 mil toneladas de açaí, sendo que 85% dessa produção é destinada aos próprios paraenses, de acordo com informações da Embrapa Amazônia Oriental. 

Todos os anos, a demanda por açaí cresce 15% no Pará, o que comprova a importância alimentar e cultural do fruto. No entanto, a oferta não segue esse movimento, com aumento de apenas 5% no mesmo período. 

O cenário é explicado pelo período de produção. “O maior problema da cadeia produtiva do açaí no Pará é a sazonalidade, a safra e entressafra. Isso traz problemas seríssimos ao paraense, que tem uma uma nítida associação alimentar com o açaí”, explica João Tomé, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. 

No período de safra, que vai de julho a dezembro, o estado produz entre 70% e 80% do volume total. O restante é cultivado na entressafra, de janeiro a junho. Essa sazonalidade provoca flutuações nos preços, afetando a oferta e a acessibilidade do produto. 

Segundo o especialista, os preços do litro de açaí podem ficar entre R$ 40 e R$ 45 na entressafra, enquanto que no auge da produção, esses valores caem para R$ 25 a R$ 26. “Esse aumento de preços na entressafra torna o açaí inacessível para muitas famílias de baixa renda, destacando um problema de insegurança alimentar”, afirma Tomé. 

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Migração das áreas de várzea para terras irrigadas

Predominantemente, o cultivo de açaí no Pará ocorre em áreas de várzea — terras que são alagadas durante o período de cheia dos rios. Mas as áreas irrigadas têm surgido como uma estratégia para lidar com os desafios da sazonalidade na produção. 

Levantamento da Embrapa indica que a cultivar BRS Pai d’Égua, de açaizeiro de terra firme – lançada há cinco anos com o propósito melhorar a oferta no período de baixa – está bem adaptada. A maior parte da produção dela acontece, justamente, na entressafra (54%). Além disso, os frutos menores rendem 30% mais polpa em comparação com os frutos de açaí tradicionais.

“Eu não tenho dúvida alguma que pra gente solucionar o problema da entressafra, o açaí vai ter que migrar da terra de várzea para terra firme, com irrigação”, argumenta João Tomé. “A Embrapa só recomenda o plantio de açaí em terra firme se ele estiver com irrigação”, esclarece.

açaí nativo no Pará
Cultivo de açaí nativo no Pará. Foto: Ronaldo Rosa
produtores de açaí
Na foto à esquerda, produtor no plantio irrigado. À direita, homem colhe a fruta no cultivo nativo. Foto: Ronaldo Rosa

 Intercâmbio tecnológico entre Pará e Colômbia promete avanço na produção de açaí

Outra ação para mitigar os efeitos da sazonalidade e melhorar a produção do açaí, é o fortalecimento das práticas agrícolas por meio de um intercâmbio tecnológico com a Colômbia. 

“Recebemos informações de que a Colômbia possui mecanismos de colheita que poderiam facilitar muito o nosso trabalho aqui no Pará, então, uma comitiva nossa foi ao país”, comentou o secretário de agricultura do Pará, Giovanni Corrêa Queiroz, ao Agro Estadão. “Em contrapartida, uma delegação colombiana, incluindo governadores e empresários, visitou o Pará para conhecer as tecnologias desenvolvidas no Brasil”, completou. A visita ocorreu em meados de maio deste ano. 

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Segundo o secretário, a iniciativa visa aumentar a eficiência na colheita e no processamento do fruto aqui no país, assim como, expandir a área de cultivo. “Estamos comprometidos em continuar esse relacionamento com a Colômbia e buscar sempre melhorar a nossa produção e qualidade de vida dos nossos produtores”, garante Queiroz. 

Além das tecnologias de colheita, a comitiva paraense também explorou o potencial de variedades de açaí cultivadas na Colômbia. Essas variedades serão estudadas pela Embrapa para possível cultivo no Brasil.

Diferenças no cultivo de açaí entre Brasil e Colômbia

Conforme o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, José Leite, que participou da comitiva brasileira na visita à Colômbia, há grandes diferenças entre a produção nos dois países e isso pode ser um desafio na troca de tecnologias. 

Habitualmente, a colheita do açaí na Colômbia ocorre em áreas de terra firme, então, os produtores utilizam varas para colher o fruto. Entretanto, uma inovação ainda pouco difundida, é uma espécie de cadeira que sobe as palmeiras. “Eles sobem numa espécie de cadeira, depois desce o cacho numa cordinha. É lento, mas é muito seguro”, pontua Leite. 

Embora seguro, o pesquisador avalia que seria um método dificilmente aplicável à espécie produzida no Pará — euterpe oleracea, caracterizada pelo caule mais espesso. “A cadeira é conveniente pela segurança que ela oferece, mas essa espécie [Euterpe precatoria, produzida na Colômbia e com caule mais estreito] nós não temos aqui”, explica Leite. “Seria necessário, pelo menos, que fosse feita alguma adaptação na cadeira, bem menor do que a que vimos na Colômbia”, completa. 

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