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Segredos do campeão: como produtor alcançou 268 sacas de milho por hectare
Após quase dez anos de reconstrução do perfil de solo e ajustes de manejo, Mateus Passinato venceu concurso nacional com 268,4 sc/ha
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
03/01/2026 - 05:00

Em novembro de 2025, em Indaiatuba (SP), o nome do agricultor Mateus Passinatto ecoou como o grande destaque do milho de inverno brasileiro: 268,4 sacas por hectare, marca que o colocou no topo do Concurso de Produtividade Milho Inverno 2025. O resultado é mais que o dobro da produtividade média brasileira para o grão, aproximadamente 106 sacas por hectare segundo dados da safra 2025/2026 da Conab. O anúncio coroou dez anos de persistência no solo e no manejo, garantindo ao produtor a sensação que ele mesmo descreve como uma “grande realização”.
O dado, porém, não resume a dimensão do feito. A edição deste ano reuniu 618 agricultores de 12 Estados, número recorde para o concurso organizado pelo Grupo Tático para Aumento da Produtividade (Getap). Confira aqui todos os campeões da competição.
As áreas foram auditadas por empresas independentes e avaliadas em critérios de produtividade, população obtida e peso de grãos. O coordenador técnico do grupo, Gustavo Resende Capanema, afirmou que o ciclo começou pressionado pela chuva fora de hora. “Houve boa distribuição de chuvas, particularmente em Mato Grosso, de onde saiu justamente o grande campeão desta edição”, disse, ao apresentar os resultados.
Estratégias que levaram ao recorde
Além do título nacional, Mateus Passinatto conquistou o 1º lugar sequeiro da região Oeste. Filho de agricultor, ele retomou a fazenda da família em 2014, após 13 anos de arrendamento. Encontrou um terreno fértil, mas incompleto. Foram nove anos de trabalho árduo para chegar ao caminho da produtividade elevada.
A estratégia incluiu descompactação a 45 centímetros, calcareamento em profundidade e adequação de macro e micronutrientes, além de mudanças de consultoria e monitoramento técnico constante. Atualmente, ele planta 3.000 hectares de soja e 2.500 hectares de milho.
A troca de informações e a busca permanente por atualização também aparecem entre os pilares do produtor. Passinatto mantém a fazenda aberta a dias de campo e visitas, recebendo consultores e colegas para observar manejo, equipamentos e resultados, num modelo que ele considera decisivo para evoluir. “A gente mais recebe informação do que dá”, diz.
O produtor atribui os resultados principalmente à engrenagem humana. Ele divide a operação com a esposa, responsável pela parte jurídica. O desafio, afirma, é manter a fazenda em equilíbrio entre dias de campo, lavoura e escritório. E, para isso, conta com um time afinado. “O fator determinante número um é a equipe. Se não fosse por eles, seria impossível”.
Desafios enfrentados na safra

Mas a trajetória da safra recorde teve percalços. A colheita da soja coincidiu com semanas de chuva intensa. “A janela ficou bastante apertada devido ao alto índice de chuva”, disse. Máquinas maiores ajudaram a aproveitar os curtos intervalos de estiagem. “Onde o milho foi bem plantado no momento bom, ele se expressou muito bem”.
Mateus também procura trabalhar alinhado com boas práticas ambientais. A recuperação de áreas se tornou rotina na propriedade. Além disso, o produtor integra uma biofábrica formada por agricultores locais, dedicada à produção de insumos biológicos. “Sozinho, nem o químico dá conta e nem o biológico dá conta”, afirmou. A estrutura, sem fins lucrativos, atende apenas às fazendas participantes.
Além das questões técnicas e de manejo, Mateus Passinatto destaca a gestão de risco na comercialização como um dos principais desafios da atividade. Ele afirma que o planejamento financeiro exige disciplina e decisões práticas diante da flutuação cambial e das cotações internacionais. “Montar planilhas de custo, travar a venda do grão para frente, controlar a margem desejada”, explica.
A vitória mantém a sequência de conquistas do município de Campos de Júlio (MT). “É o terceiro ano consecutivo em primeiro lugar. A gente é muito abençoado com clima, topografia e pessoas trabalhadoras”, afirmou o produtor.
Aos agricultores que buscam produtividade maior, ele destaca que “não existe receita de bolo, existe muito trabalho”. Mas aponta um caminho possível: “investimento em pessoas, em solos e em comunicação”. Segundo ele, dialogar com a equipe é tão importante quanto o investimento econômico: os funcionários precisam saber o que estão fazendo e por que, para executar práticas com precisão. “Não adianta ir para o talhão sem saber o que está aplicando. Tem que ter diálogo e abertura”, completa.
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