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Amazônia forma sua primeira geração de baristas indígenas

Iniciativa do Grupo 3 Corações capacita 25 jovens de Rondônia, visando incentivar sucessão familiar em terras indígenas e abrir caminho para o turismo

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Mônica Rossi | Porto Alegre | monica.rossi@estadao.com

16/12/2025 - 05:00

As gêmeas Natielly e Tatielly veem no barismo uma oportunidade de renda. | Foto: 3 Corações/Divulgação
As gêmeas Natielly e Tatielly veem no barismo uma oportunidade de renda. | Foto: 3 Corações/Divulgação

A rotina das gêmeas Natielly e Tatielly Aruá, de 16 anos, da etnia Aruá, tem se dividido entre os estudos no curso técnico em agropecuária e os testes para um concurso de baristas que está se aproximando. As duas moram na Aldeia São Luís, na Terra Indígena Rio Branco, em Alta Floresta D’Oeste (RO). Elas integram a primeira turma de baristas indígenas formada após um curso de capacitação oferecido pelo Grupo 3 Corações.

Depois de uma imersão no universo do café, em outubro de 2025, as gêmeas e outros 23 jovens indígenas de Alta Floresta D’Oeste e Cacoal terão seus conhecimentos testados na primeira Copa Rituais Baristas Tribos.

CONTEÚDO PATROCINADO

A iniciativa faz parte do Projeto Tribos de Rituais 85, que atua junto a mais de 160 famílias indígenas na cafeicultura. Iniciado em 2019, nas Terras Indígenas Sete de Setembro e Rio Branco, o programa já comercializou mais de 5 mil kg de café robusta amazônico.

O projeto se sustenta em três pilares, como explica Patrícia Carvalho, líder do Projeto Tribos no Grupo 3 Corações: “O Tribos é construído sobre o protagonismo indígena; a proteção da floresta, porque os cafezais estão dentro da Amazônia; e a produção de café de qualidade”. Os cafezais nas terras indígenas de Rondônia têm origem em plantios antigos de cerca de 40 anos, realizados pelo homem branco antes da demarcação das terras, segundo Patrícia. 

Da aldeia ao barismo: um novo caminho profissional

A formação de baristas é vista como uma forma de garantir a sucessão familiar nas lavouras e a permanência dos jovens em suas comunidades. “O que soubemos é que os jovens do curso já estão replicando o aprendizado para outros indígenas que não fizeram a formação. Eles estão sendo professores dentro das famílias, ensinando outros indígenas”, relata Patrícia.

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“A gente já queria fazer o curso de barismo, só que na nossa cidade não estavam permitindo porque temos só 16 anos. Aí tivemos essa oportunidade de fazer o curso de barismo da 3 Corações e aproveitamos muito”, conta Natielly.

Patrícia explica a inclusão de jovens mais novos no curso: “Esses jovens entre 15 e 18 eram os que mais estavam interessados. Eles relataram que, pela idade, não conseguiam participar de outras formações. Aí resolvemos incluí-los, reforçando que é uma profissionalização, não um trabalho”.

jovens indígenas baristas
Grupo de formandos do curso de baristas: profissionalização. Foto: 3 Corações/Divulgação

A família de Natielly e Tatielly já produz café com marca própria, o Café Aru, e elas viram no curso uma chance de aprimorar o trabalho. “Fazendo o curso, a gente conseguiu extrair mais do café. Passamos a entender melhor o café com acidez maior, sentir mais o aroma, o que é um café encorpado”, diz Natielly. A irmã complementa: “Foi ótimo. Uma oportunidade dessas é muito importante para a gente”.

As gêmeas já enxergam no barismo uma ponte para novas oportunidades econômicas na aldeia. Atualmente, a família recebe visitas informais em casa, onde serve cafés da marca própria e explica o preparo, ainda sem estrutura turística formal.

O curso acelerou planos maiores. Segundo as jovens, a comunidade passou a discutir a criação de um ponto turístico dedicado ao café, com as gêmeas como baristas oficiais. “A gente está com o planejamento do turismo para o ano que vem. A ideia é fazer um lugar para o pessoal vir, conhecer um pouco mais da comunidade, do café e da nossa história também”, explica Natielly.

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Formação e mentoria com especialistas

O curso de barismo foi ministrado por especialistas como Carolina Barreto, gerente de Treinamento do Grupo 3 Corações, e Karine Sousa, supervisora de Treinamento da marca. Os jovens aprenderam sobre a história do café, categorias de qualidade, degustação, preparo e diferentes métodos de extração, com foco inicial nos cafés filtrados.

Cada participante recebeu um kit profissional completo, com utensílios e equipamentos essenciais para praticar em casa, além de café padronizado para treinamentos contínuos. O acompanhamento pós-curso é garantido por padrinhos: baristas experientes da 3 Corações foram pareados com os jovens, oferecendo consultoria online. As gêmeas explicam que a mentoria vem incentivando os estudos das duas na aldeia: “Todo dia de manhã, eles mandam mensagem: ‘E aí, você está treinando?’. Nos incentivam e tiram nossas dúvidas”, conta Tati.

Formação de baristas pode ajudar na permanência dos jovens em suas comunidades. Foto: 3 Corações/Divulgação

Competição vai premiar melhores baristas

A grande final da Copa Rituais Baristas Tribos será nesta quarta-feira, 17, e promete ser um marco na história do projeto. Os quatro finalistas competirão no mesmo palco que premia os melhores cafés do Concurso Tribos. Os dois primeiros colocados receberão prêmios em dinheiro e uma viagem de imersão a São Paulo, para um treinamento avançado e conexão com o mercado de cafeterias do país.

As gêmeas contam que estão treinando muito e pedindo a opinião de amigos e familiares. “A gente pede ajuda e opinião de todo mundo aqui e tenta fazer o melhor”, diz Natielly.  As duas não escondem a emoção de participar da competição “A gente está bem ansiosa para o teste final na Copa, mas vai dar tudo certo”, finaliza Tatielly. 

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