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Produtores denunciam fraude milionária em cooperativa de café de MG: 'trabalho de uma vida'
20 mil sacas teriam sido vendidas indevidamente pelo presidente da Cocapil, que teve prisão decretada; defesa considera medida desnecessária
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com | atualizada às 11h00
09/01/2026 - 05:00

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) investiga suspeita de fraude, apropriação indébita e gestão fraudulenta na Cocapil, cooperativa de cafeicultores sediada em Ibiraci, município mineiro com pouco mais de 11 mil habitantes. Segundo a polícia, mais de 20 mil sacas de café teriam desaparecido do armazém da entidade, prejudicando, pelo menos, 150 produtores rurais — prejuízo que pode ultrapassar R$ 70 milhões, de acordo com cafeicultores afetados.
A Justiça decretou a prisão do presidente da cooperativa, Elvis Vilhena Faleiros, que ainda não se apresentou. Também são investigados dois diretores: Guilherme Andrade Clausing e José Ivano Bruziquesi Neto. O caso corre em segredo de justiça.
Em nota, a defesa do presidente informou que, por ora, o cliente não pretende se apresentar e que aguarda decisão do Tribunal de Minas Gerais sobre um pedido de habeas corpus realizado. Para a defesa, a prisão preventiva é desnecessária. “Em nenhum momento, o Sr. Elvis se furtou a prestar esclarecimentos ou a colaborar com cooperados e credores. Ressalte-se que, até o dia anterior à determinação da prisão cautelar, o Sr. Elvis sempre esteve presente na Cocapil”.
O diretor Guilherme Andrade Clausing ainda não havia enviado o seu posicionamento até o fechamento da publicação. Já José Ivano Bruziquesi Neto não foi localizado para comentar o assunto. A reportagem também tentou contato com a sede da Cocapil sem sucesso.
Armazém vazio e dívidas
De acordo com o inquérito policial, ao qual o Agro Estadão teve acesso, produtores depositavam a safra regularmente há anos. Em 4 de dezembro de 2025, ao tentarem movimentar o café, foram informados de que o produto não estava mais no armazém. Registros policiais, documentos fiscais e vídeos anexados aos autos indicam que não havia sacas no local naquela data.
Em depoimento à PCMG, um dos produtores prejudicados afirmou que o presidente da Cocapil teria utilizado operações bancárias conhecidas como ACC (Adiantamento sobre Contrato de Câmbio), junto a grandes bancos, usando o café depositado como lastro para obtenção de recursos. Segundo ele, a cooperativa já operava em déficit financeiro desde 2022.
A nota emitida pela defesa do presidente confirma dívidas da cooperativa, que foram apresentadas durante uma assembleia extraordinária em 24 de dezembro. No entanto, em nota, atribui o passivo da cooperativa — estimado em cerca de R$ 100 milhões — a operações de travas de café realizadas entre 2018 e 2021.
De acordo com o posicionamento, a cooperativa teria firmado contratos que somavam cerca de 70 mil sacas, com preços travados entre R$ 500 e R$ 700 por saca, mas apenas 17 mil teriam sido efetivamente entregues. A defesa sustenta que parte desses contratos não foi formalizada por escrito ou não chegou a ser assinada pelos produtores.
A situação teria se agravado com eventos climáticos extremos e a pandemia, que reduziram a produção e impulsionaram os preços do café para patamares superiores a R$ 2.500 por saca. Nesse contexto, segundo a defesa, produtores teriam deixado de cumprir as entregas, enquanto a cooperativa passou a sofrer pressão de exportadores, com risco de ações judiciais e arresto de estoques. No entanto, a defesa não esclareceu quantos produtores deixaram de pagar as travas.
Durante a assembleia, a cooperativa apresentou uma proposta de ressarcimento. Segundo relatos de cooperados, a oferta foi rejeitada de forma unânime. A proposta previa o pagamento de R$ 2.100 por saca aos produtores com menor volume de café depositado, em parcela única, até março ou abril de 2026. No dia da assembleia, o preço de mercado da saca ultrapassava R$ 2.300.
Para produtores com volumes superiores a mil sacas, a proposta previa pagamento parcelado em até três anos, também ao valor de R$ 2.100 por saca. Nenhum termo foi assinado.
O impacto nos produtores: “Trabalho de uma vida inteira”

Uma cafeicultora da região, que pediu para não ser identificada, nega que os depositantes e cooperados tenham sido informados sob tais passivos. Ela afirma que a família perdeu cerca de 1.500 sacas de cafés especiais, com um prejuízo estimado em quase R$ 4 milhões. “O impacto é enorme. Há financiamento de máquinas, custeio e investimento de anos. É o trabalho de uma vida inteira”.
A família relata que a colheita foi uma das mais difíceis dos últimos anos, com clima instável e trabalho intenso. “Foi um ano de produção alta, com vigilância constante por causa de tentativas de furto. Era dia e noite cuidando do café”, conta a mineira.
Segundo a produtora, rumores sobre problemas na cooperativa circularam na cidade meses antes da descoberta do desaparecimento do café, mas o presidente negava. “Havia uma relação de confiança entre as famílias. No dia seguinte, veio a confirmação de que o café não existia mais”, alega.
Os produtores afirmam possuir notas fiscais e documentos que comprovam o depósito do café e que a perda foi judicializada.
O impacto emocional também pesa. “Houve um grande desgaste psicológico, muito nervosismo e uma sensação de impotência que não consigo nem descrever”, declara. “Três milhões é muito dinheiro”, completou.
Depoimentos revelam perdas milionárias
Os depoimentos reunidos pela polícia descrevem perdas de diferentes proporções. Segundo o inquérito, uma produtora declarou manter 342 sacas, avaliadas em R$ 803,7 mil. Segundo o termo de declaração, ela afirmou que o presidente teria admitido ter usado o café para “cobrir operações malsucedidas”, sem autorização dos cooperados.
Outra vítima disse que possuía cerca de 35 sacas, avaliadas em R$ 80,5 mil, e que, no dia 3 de dezembro, solicitou a transferência do café, momento em que o presidente teria solicitado um prazo e ofertado um valor abaixo de mercado. Segundo ela, depois, ao retornar ao galpão da Cocapil, não encontrou seu café e nem de outros cooperados.
Há, ainda, relatos de famílias que perderam mais de mil sacas, com valores superiores a R$ 2,8 milhões.
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