Economia
Cecafé vê cenário internacional incerto e traça estratégia para não sofrer com EUA
Acordo Mercosul-UE pode abrir outros mercados para além do bloco europeu, avalia entidade que representa exportadores
Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com
20/01/2026 - 08:27

As tarifas norte-americanas aplicadas ao Brasil ainda repercutem nos exportadores de café brasileiro. Mesmo com a retirada da tarifa para o café verde, ou seja, a commodity que não passou por industrialização, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) prepara uma medida de prevenção nos Estados Unidos.
O diretor geral do Cecafé, Marcos Matos, deu as linhas gerais da estratégia. A intenção é garantir que o café não seja afetado no futuro, com mudanças na geopolítica do governo norte-americano. Além disso, a ação vai tentar convencer que o café solúvel precisa ser retirado da taxação de 50%, imposta no ano passado.
“A gente está buscando fazer eventos nos Estados Unidos. Primeiro, para fortalecer o senso de parceria, porque a gente resolveu no [café ] verde, mas a gente não quer que isso se repita por conta de outros problemas geopolíticos. A gente não quer que isso caia nas costas do café”, disse Matos a jornalistas nesta segunda-feira, 19, na apresentação dos resultados das exportações de café de 2025.
A ideia é contar com a parceria da Associação Nacional do Café (NCA, na sigla em inglês) para levar o Cafés do Brasil — iniciativa de promoção comercial — para diferentes encontros. Um deles, ainda em negociação, poderia ocorrer na embaixada brasileira, na capital dos Estados Unidos. “Queremos fazer em Washington, na nossa embaixada, e trazer oficiais norte-americanos e buscar soluções, inclusive para o café solúvel. Não podemos esperar a geopolítica agir ao nosso favor”, completou o diretor, ao falar da intenção de que o tema “entre na agenda de quem toma a decisão”.
A questão do café solúvel é vista com preocupação, já que a perspectiva é de piora para esse mercado caso as tarifas não sejam derrubadas. O presidente do Cecafé, Marcio Ferreira, acrescentou que vem pedindo apoio ao governo. “O que a gente pede é que tenhamos linhas de crédito mais acessíveis”, afirmou.
Acordo Mercosul-UE abre portas, mas ainda há desafios
A entidade dos exportadores de café também comentou sobre o acordo comercial firmado entre Mercosul e União Europeia. O acordo foi celebrado pelo Cecafé, que mira não apenas no bloco europeu como em outros mercados, principalmente da Ásia.
“A gente pode pensar que isso [acordo] é uma porta que se abre para vários outros acessos sem tarifas. A gente pode falar de Ásia, vários países na Ásia. Então, sem dúvida nenhuma, o benefício é, sim, pensando na integração econômica, é oportunidade dentro da cadeia, que pode gerar oportunidades para o café verde também, e, obviamente, outras que a gente mal consegue conceber nesse momento”, destacou Matos.
Uma solução no médio prazo para o café solúvel brasileiro é a Europa. No entanto, o acordo prevê o fim das tarifas para esse tipo de café apenas depois de quatro anos da vigência do tratado. Ferreira comparou a situação brasileira com a do Vietnã, também exportador do solúvel mas sem tarifa. “Para nós, isso [acordo] é muito bom, mas é a longo prazo. Obviamente, cair 25% por ano já ajuda muito, mas são quatro anos para começar no quinto ano a isonomia com o Vietnã”, disse.
Outro ponto de atenção é quanto à infraestrutura de portos, por exemplo, para enviar o café ao bloco europeu. ”Nós fizemos um acordo sem ter a infraestrutura adequada para poder atender essa demanda que certamente vai vir da Europa, tanto para importação quanto para exportação”, lembrou o diretor técnico do Cecafé, Eduardo Heron.
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