Economia
‘Balsinha de açúcar’: como Balsas (MA) virou referência em grãos e agora mira agroindústrias
Com infraestrutura desafiadora, agricultura madura e nova onda industrial, cidade do Maranhão consolida protagonismo no Matopiba e quer seguir crescendo
Daumildo Júnior* | Balsas (MA) | daumildo.junior@estadao.com
08/01/2026 - 05:00

Balsas (MA) costuma receber quem chega com uma promessa peculiar: dificilmente alguém vai embora. Não é folclore, é identidade — e virou até apelido. “Balsinha de açúcar, porque as pessoas que vêm para cá não vão mais embora”, diz o prefeito de Balsas, Alan Douglas de Oliveira ao Agro Estadão. A combinação de acolhimento, condições de solo e clima estáveis — além do preço das terras no século passado — transformou o município em polo regional da agropecuária e em um dos motores do Matopiba — região de fronteira agrícola formada pelos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
A zona de Balsas reúne vantagens naturais, como explica o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Marcos Bomfim. A região é predominantemente no bioma Cerrado, o que possibilitou a adaptação das tecnologias já utilizadas no Centro-Oeste. Além disso, o clima com relativa estabilidade e previsibilidade facilitou a expansão da atividade. Outro elemento, característico de Balsas, são as chapadas.
“Essas regiões têm uma elevação interessante que favorece a cultura da soja. Não só pela temperatura, mas a própria altitude, e também contam com terras muito férteis. Em cima dessas chapadas, o solo tem uma alta concentração de argila, o que é bom para a atividade agrícola, porque ajuda a reter água e nutrientes. Então, foram as primeiras zonas ocupadas”, comenta o especialista da Embrapa Maranhão. A chegada da própria estatal de pesquisa a Balsas, entre as décadas de 1980 e 1990, ajudou a acelerar a escolha de materiais genéticos adaptados ao Cerrado do Sul Maranhense.
Entre os que apostaram nesse potencial está Daniel Marcos Lech, produtor rural e vice-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Balsas (Sindibalsas), que chegou em 1999. A decisão de sair de Balsa Nova (PR) foi calculada. “A gente pesquisou muito o mercado. Foi uma região que a gente achou com áreas baratas e não muito distante do porto [o terminal de Itaqui fica a aproximadamente 800 quilômetros], para fazer exportação”, conta.
A escolha mudou sua trajetória e a da família, já que trouxe esposa e um irmão. Esse último desembarcou em Balsas depois de dez anos, para ajudar a cuidar das propriedades que ficam em cidades próximas e juntas somam mais de 5,8 mil hectares. “No começo, foi sofrido, principalmente para minha mulher, mas depois fomos acostumando. Se eu falasse em ir embora, ela não queria mais”, brinca, ao lembrar dos desafios.
A história de Lech se confunde com a de tantos outros produtores migrantes, vindos principalmente do Sul e Sudeste. Com cerca de 105,9 mil habitantes, a cidade tem nesses deslocamentos um dos motivos que explicam por que é hoje a maior produtora de soja do Maranhão e está entre as capitais do Agro — com R$ 1,95 bilhão em valor de produção agrícola, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Futuro tem milho, sorgo e agregação de valor
Tanto o produtor como o pesquisador admitem que a expansão de áreas agrícolas na região Sul do Maranhão está custando mais agora, devido à valorização que ocorreu nos últimos anos. Mas o que tem ganhado ritmo é a incorporação de agroindústrias. A mais recente foi a usina de etanol de milho da Inpasa. Também já está em construção um frigorífico, que deve direcionar parte da produção de carne para o mercado exterior.
“Essas empresas geram um impacto positivo. Por exemplo, o etanol de milho tem os DDGs que são utilizados na ração animal. Então, isso está movimentando a cadeia pecuária na região. Já tem um frigorífico sendo construído para exportação para a China, para abate de 800 animais por dia e com confinamento acoplado para 20 mil bois. Isso tem trazido também a integração lavoura-pecuária. Então, já tem a safra da soja, safra do milho e agora a gente tem a safra do boi também”, projeta Bomfim.

Uma das dificuldades relatadas pelo especialista é a intensificação dos veranicos, o que tem atrapalhado as janelas de plantio do milho segunda safra. Apesar disso, o cereal ainda continua sendo estratégico, ainda mais com a instalação da usina.
Para esta temporada, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Maranhão vai colher cerca de 3,1 milhões de toneladas do cereal, 7,5% menos do que na safra passada. A maior parte dessa queda é explicada por uma redução na colheita do milho safrinha, que deve recuar 17,5% no Estado. A maior parte da produção deve ser da região Sul Maranhense.
A busca por alternativas mais tolerantes aos veranicos tem ampliado o espaço para outras culturas. É o caso do sorgo, que também pode ser aproveitado na produção de etanol. “É uma cultura mais tolerante a esse déficit hídrico, essas janelas mais curtas de plantio”, pondera o pesquisador. De acordo com a Conab, o Estado deve ter um incremento de 7% na produção nesta safra e alcançar 133,4 mil toneladas.
Por que Balsas e não Imperatriz?
Outra grande cidade da porção sul do Estado é Imperatriz, atualmente com 285,8 mil habitantes. Apesar do porte e de ser uma cidade de ligação — com aeroporto, colada ao rio Tocantins e cortada pela BR-010, a expansão agrícola de Balsas ainda é superior. Um dos fatores que diferenciam esses dois centros do Sul Maranhense não está só na economia, mas no bioma. Imperatriz está na divisa com a Amazônia, onde o uso da terra é mais restrito.
“Quando você entra no bioma amazônico, a legislação exige que 80% da área seja preservada. Isso limita muito a expansão”, diz Bomfim. Além disso, a presença de comunidades indígenas e o solo menos fértil contribuíram para afastar o ímpeto dos produtores na época. Por isso, a atividade que predominou foi a pecuária
Avanços esbarram em infraestrutura
Mesmo com o crescimento da produção rural, não é raro os produtores da região indicarem que um dos gargalos é a infraestrutura. A percepção no campo é de que o crescimento da região corre mais rápido do que a capacidade do Estado em acompanhá-lo.
Estradas federais, estaduais e vicinais seguem com manutenção irregular. Além disso, faltam armazéns e as condições das rodovias encarecem o escoamento e aumenta a vulnerabilidade durante os picos de safra. O vice-presidente do SindiBalsas cita a situação do Porto de Itaqui, em São Luís (MA), que já não comporta mais a demanda.
“O porto foi ampliado há alguns anos, mas já está saturado antes da previsão que tinha de chegar a esse ponto. […] Nós temos deficiência de infraestrutura em tudo, não é só o Maranhão, mas é o Brasil inteiro, que é muito amarrado na questão de infraestrutura”, diz Lech.
*Jornalista viajou a convite do Governo do Maranhão
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