Economia
6,5% das empresas em recuperação judicial no país são do Agro
Número de empreendimentos em crise cresce a cada trimestre e previsão para 2025 é de continuidade na alta de pedidos, aponta consultoria
Paloma Custódio | Brasília | paloma.custodio@estadao.com
11/03/2025 - 14:15

No Brasil, 6,5% das empresas em recuperação judicial pertencem ao setor agropecuário, segundo o Monitor RGF da Recuperação Judicial no Brasil, referente ao quarto trimestre de 2024. A proporção vem crescendo nos últimos meses: no segundo trimestre, o segmento representava 5,8% das recuperações, avançando para 6,0% no terceiro trimestre e alcançando o patamar atual.
Ao longo do quarto trimestre, 35 empresas do setor agropecuário entraram em recuperação judicial no país, totalizando 295 empreendimentos nessa condição, contra 264 no trimestre anterior. Por outro lado, quatro empresas do setor saíram do processo de recuperação no período e retornaram à operação normal.
Ao Agro Estadão, o especialista em reestruturação e sócio da consultoria RGF, Rodrigo Gallegos, explicou que a alta nas recuperações judiciais do setor está ligada principalmente à queda nos preços dos grãos, como soja e milho, e da arroba do boi gordo, além da alta nos custos de produção — fatores que comprimiram as margens de lucro dos produtores.
Outro fator apontado pelo especialista é a dificuldade para tomada de empréstimos. “Muitos empresários rurais já vinham carregando um alto endividamento e, diante desse cenário de renda menor e custo maior, ficaram sem fôlego financeiro, o que gerou inadimplências e fez com que as instituições financeiras tenham restringido o crédito e renegociações para o setor”, explica. Ele acrescenta que os eventos climáticos adversos também agravaram a situação, comprometendo as safras e a capacidade de pagamento dos produtores.
“Vale notar que algumas instituições financeiras reduziram sua exposição ao agro diante do aumento de risco, então produtores acabaram recorrendo a bancos públicos tradicionais. Porém, com menos players, a tendência é haver um aumento das taxas, além da alta taxa básica de juros (Selic)”, pondera.
O professor e pesquisador do Insper Agro Global, Leandro Gilio, reforça a justificativa para o aumento das empresas em recuperação judicial. “Juros elevados e dificuldade de créditos para custeio e comercialização da produção também contribuem nesse cenário, já que elevam custos significativamente. Alguns produtores acabam ficando descapitalizados, com dificuldade de renovar lavouras e, com isso, tornar a produção mais eficiente e rentável”, disse à reportagem.
Impactos globais
Segundo Leandro Gilio, a oscilação dos preços no mercado — especialmente de grãos, como a soja — foi um fator determinante para a quebra de empresas do agronegócio brasileiro. Eventos como a pandemia, a guerra entre Rússia e Ucrânia e quebras expressivas de safras impactaram cadeias produtivas ao nível global, resultando em uma desvalorização acentuada dos preços após períodos de forte alta.
“Vivenciamos quase dois anos de queda e acomodação de preços no mercado e isso pode ter prejudicado empresas que realizaram fortes investimentos ou se planejaram, vislumbrando um cenário de preços em alta”, avalia. Gilio acrescenta que o preço dos insumos e os custos gerais de produção no mercado também pressionaram significativamente o produtor.
Soja e carne lideram as recuperações judiciais
De acordo com o Monitor RGF, do total de empresas em recuperação judicial no setor agrícola, 78% pertencem a cinco áreas específicas:
- cultivo de soja (34% — 100 empresas)
- criação de bovinos para corte (20% — 59 empresas)
- cultivo de cana-de-açúcar (15% — 43 empresas)
- serviço de preparação de terreno, cultivo e colheita (5% — 16 empresas)
- cultivo de milho (4% — 11 empresas)
Segundo Rodrigo Gallegos, soja e bovinos para corte lideram as recuperações judiciais por serem dois dos pilares do agronegócio brasileiro e concentrarem um grande número absoluto de produtores e empresas, o que naturalmente resulta em um maior volume de crises no setor. No entanto, fatores específicos também contribuíram com o resultado. “O cultivo de soja sofreu com a queda dos preços internacionais após anos de crescimento. Além disso, problemas climáticos, como seca no Rio Grande do Sul no verão e atraso de chuva em partes do Centro-Oeste, derrubaram a produção de algumas safras”, explica.
Já a criação de bovinos de corte enfrentou um ciclo de baixa no preço do boi gordo, aumento da oferta e demanda oscilante — fatores que derrubaram o valor da arroba e pressionaram a rentabilidade dos pecuaristas. O especialista explica que ambos os segmentos costumam trabalhar com capital emprestado para investimento. “Na soja, os produtores investem pesado em expansão e produção. [Na pecuária], os criadores muitas vezes financiavam a engorda do gado esperando vender em melhor mercado. Quando o cenário vira, ficam expostos”, analisa.
Recuperação judicial de grandes empresas
No início de março, o Grupo Montesanto Tavares (GMT), um dos maiores exportadores de café arábica do Brasil, entrou com pedido de recuperação judicial para reestruturar um passivo de R$ 2,13 bilhões. O processo foi protocolado na 2ª Vara Empresarial da Comarca de Belo Horizonte (MG) e inclui as empresas Atlântica Exportação e Importação, Cafebras Comércio de Cafés do Brasil, Montesanto Tavares Group Participações e Companhia Mineira de Investimento em Cafés.
Segundo a consultoria RGF, ao final do quarto trimestre de 2024, 0,3% das empresas do setor cafeeiro estavam em recuperação judicial, o que equivale a nove CNPJs entre os 2.988 ativos. Destas, cinco têm como atividade principal o cultivo de café, duas atuam na torrefação e moagem, e duas se dedicam ao comércio de café em grão. Todas as empresas em recuperação estão na região Sudeste, distribuídas entre São Paulo e Minas Gerais.
Em setembro de 2024, a rede de lojas de insumos agrícolas AgroGalaxy entrou em recuperação judicial com uma dívida de R$ 4,6 bilhões. Desde então, fechou metade das lojas, cortou 40% dos funcionários e, no terceiro trimestre de 2024, registrou um prejuízo de R$ 1,58 bilhão. Para Rodrigo Gallegos, casos como o da AgroGalaxy, que atua fortemente na distribuição de insumos agrícolas, mostram que em uma crise, a cadeia inteira é afetada.
“As dificuldades financeiras dos produtores se refletiram em uma queda repentina na compra de produtos do setor, o que pressionou o caixa da AgroGalaxy. Por sua vez, quando uma grande empresa tem o caixa pressionado, o impacto reverbera desde os fornecedores de matéria-prima até os pequenos produtores, que dependem muitas vezes dessas companhias para obter insumos ou negociar a produção”, avalia.

Foto: Adobe Stock
Cenário para 2025
Segundo as estimativas da consultoria RGF, o número de empresas do agronegócio em recuperação judicial deve continuar crescendo em 2025. Isso se deve à fragilidade financeira de negócios que já começaram o ano endividados, com dívidas a vencer a curto prazo, além da oferta de crédito que segue retraída. A expectativa é de que a taxa Selic continue a subir, o que tornará o custo do crédito ainda mais alto para o produtor.
Já em relação ao clima, Gallegos diz que não é possível prever com exatidão. “Se 2025 trouxer uma safra cheia, sem grandes adversidades, pode haver uma melhora na geração de receita que ajude a frear novos pedidos de RJ. Por outro lado, uma quebra de safra significativa ou continuidade de preços baixos poderiam agravar mais o quadro”. Ele avalia que se as condições atuais forem mantidas, a região do Centro-Oeste pode concentrar grande parte dos novos casos de RJ. “Em suma, em 2025, ainda teremos mais casos de recuperações judiciais, exigindo atenção redobrada de empresas e credores para mitigar uma crise mais profunda”, observa.
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