Cotações
Quais fatores vão ditar o mercado da soja no primeiro trimestre de 2026?
Cotações devem ser influenciadas por supersafra brasileira. avanço do acordo China-EUA e a política de biocombustíveis norte-americana
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
02/01/2026 - 13:30

O mercado da soja no último ano ficou marcado por momentos de forte volatilidade. Inicialmente, o cenário foi pressionado pela entrada de uma safra recorde no Brasil. Depois, vieram os impactos das tensões comerciais, especialmente entre Estados Unidos (EUA) e China, que, como consequência, foram acompanhadas por uma maior demanda chinesa pela soja brasileira.
Ao final do ano, contudo, o setor passou a olhar com mais atenção para 2026, especialmente para o primeiro trimestre, período em que a entrada de uma nova grande safra tende a definir o tom dos preços no mercado interno e internacional. Além disso, acompanha-se o andamento do acordo comercial fechado entre Washington e Pequim, pois agentes do mercado têm dúvidas em relação ao ritmo de compras de soja norte-americana pelos chineses.
Diante dos fatores resumidos acima, os contratos da soja na bolsa de Chicago oscilaram majoritariamente dentro de uma faixa entre US$ 10 e US$ 10,50 por bushel — refletindo o equilíbrio entre uma oferta abundante e fatores pontuais de sustentação. No Brasil, a partir do segundo semestre, os preços encontraram algum suporte na melhora dos prêmios de exportação, impulsionados pelo aumento da demanda chinesa.
Nos últimos meses de 2025, as cotações em Chicago tiveram um viés mais positivo com a reaproximação entre China e EUA. No entanto, o ânimo não se sustentou. “O mercado começou a precificar uma possível supersafra de novo aqui na América do Sul, o que acabou corrigindo um pouco o movimento de alta que a gente tinha visto desde outubro”, disse Luiz Roque, coordenador de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets.
É nesse ponto que o mercado da soja para 2026 começa a ser desenhado, com uma atenção especial ao primeiro trimestre. “É uma safra grande. Se ela se confirmar, isso vai pressionar o preço, especialmente no primeiro semestre”, afirmou.
Somente para a safra brasileira, a Hedgepoint Global Markets trabalha com uma estimativa de produção próxima de 178 milhões de toneladas, podendo oscilar entre 177 e 179 milhões. Além disso, a consultoria acredita que a temporada anterior terminará com embarques em torno de 109 milhões de toneladas — superando o recorde anterior, de cerca de 102 milhões. “Então, isso traz alguns suportes”, indica Roque.
O cenário ganha relevância adicional diante do ritmo mais lento de comercialização por parte do produtor brasileiro. Até o fim de 2025, cerca de 27% da safra 2025/26 havia sido vendida antecipadamente, percentual inferior à média histórica, que gira entre 35% e 37%. “Isso mostra que o produtor está atrasado em relação à comercialização e está apostando em preços melhores lá na frente”, observou Roque, ponderando, no entanto, que o mercado segue bastante volátil.
Observando a relação China-EUA
Do lado da demanda, a relação entre China e EUA continuará no centro das atenções em 2026. O governo norte-americano anunciou que a China teria se comprometido a aumentar as compras de soja dos EUA, com uma meta de até 12 milhões de toneladas até fevereiro e 25 milhões ao longo do ano. No entanto, incertezas ainda pairam no ambiente. “O mercado tem dúvidas se esses volumes de fato foram acordados e se a China consegue cumprir. É por isso que esse tema ainda gera muita especulação”, destaca Luiz.
China seguirá comprando soja do Brasil
Apesar disso, a avaliação do analista é que o produtor brasileiro não deve se preocupar excessivamente com uma eventual perda de mercado. A tendência estrutural, segundo ele, é de manutenção de uma demanda chinesa elevada pela soja do Brasil, respeitando a sazonalidade. “O mercado normal é a China comprar mais soja da América do Sul no primeiro semestre e, a partir de setembro, outubro, comprar mais soja americana. A tendência é voltar para essa sazonalidade”, explicou.
Pesquisadores de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) reforçam essa leitura. Os especialistas indicam que o Brasil deve alcançar nova produção recorde em 2025/2026, enquanto a oferta global tende a diminuir, principalmente nos EUA e na Argentina. Com isso, o País pode responder por cerca de 60% do abastecimento mundial de soja, reforçando, inclusive, a sua presença no mercado chinês.
Nesse contexto, os preços externos e os prêmios de exportação para embarques no primeiro semestre de 2026 já indicam sinais de recuperação, ainda que limitados pela grande oferta brasileira. A demanda chinesa deve seguir sustentando os prêmios, enquanto o câmbio permanece como variável-chave para a formação dos preços internos.
Política de biocombustíveis nos EUA

Outro fator que merece atenção no primeiro trimestre é a política de biocombustíveis nos EUA. Uma proposta da agência ambiental norte-americana prevê um aumento de cerca de 67% na mistura de biocombustíveis, o que pode elevar a demanda por óleos vegetais. “Se isso for confirmado, deve aumentar o consumo de óleo de soja, estimular o esmagamento e reduzir estoques. Estoques menores costumam resultar em preços um pouco mais altos”, afirmou Roque.
Por fim, o cenário para 2026 também considera fatores macroeconômicos e políticos. No Brasil, o ano eleitoral tende a aumentar a volatilidade do câmbio, enquanto, no mercado internacional, a redução dos juros nos EUA pode pressionar o dólar. Esses movimentos podem criar tanto riscos quanto oportunidades para o produtor. “O primeiro trimestre vai ser decisivo. É quando a safra entra, os preços sentem o peso da oferta e o mercado testa seus limites”, salienta o coordenador de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets.
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