Agropolítica
Para atender pedido de Lula, atraso no Plano Safra piora relação do governo com o setor
Governo trabalha em "linha específica” do Plano Safra, enquanto setor fala em “desorganização”; entenda os reflexos no planejamento da safra
Fernanda Farias* | fernanda.farias@estadao.com | Atualizada às 21h45
27/06/2024 - 11:24

Bombardeado por críticas vindas de diversas entidades representativas do setor devido ao adiamento do anúncio do Plano Safra, o governo federal diz que está trabalhando para “melhorar” as medidas. O atraso foi amenizado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
“Não se trata de mais equalização. Se trata de uma linha específica que ele [Lula] pediu para turbinar e que não tem impacto fiscal”, disse Haddad para jornalistas, no fim da tarde desta quarta-feira, 26.
Na manhã desta quinta, 27, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Roberto Perosa, admitiu que o governo não conseguiu fazer a lição de casa ainda.
“Acho que é notório a dificuldade que a área econômica do governo está tendo que enfrentar de restrição de crédito, restrição orçamentária, né. Então, é um grande desafio fazer um plano safra maior que o do ano passado”, disse Perosa, durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF), em São Paulo. Segundo ele, um dos focos é a linha em dólar com apoio do BNDES.
Mas a expectativa de mais recursos ou de mais facilidade no acesso não anima os produtores rurais, que esperavam conhecer as regras do manual de crédito nesta semana, mas terão de esperar até o dia 3 de julho.
“Isso mostra desorganização do governo federal, falta de compromisso com o nosso setor e até com a economia do nosso país, já que a agricultura é fator chave para o crescimento do PIB”, afirma o presidente da Aprosoja-MT, Lucas Beber, ao Agro Estadão. (confira mais no vídeo abaixo).
A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) chama de “mais um episódio de trapalhadas e desconsideração”, segundo o economista-chefe, Antonio da Luz. “O Mapa focou nos leilões, que foram considerados ‘um sucesso’ pelo ministro e descuidou do Plano Safra, e agora estamos vendo mais essa trapalhada”, diz.
Governo pediu ajuda ao setor para o Plano Safra no início do ano
A Federação da Agricultura do Paraná (FAEP) lembra que as sugestões do setor para elaboração do Plano Safra foram enviadas há meses ao governo federal, ou seja, não faltou tempo para trabalharem.
“No final de janeiro, o governo pediu sugestões. A FAEP encaminhou no final de fevereiro, estamos praticamente em julho e nada foi anunciado”, critica Ana Paula Kowalski, técnica do Departamento Técnico e Econômico(DTE) do Sistema FAEP/SENAR-PR.
“Entendo que, dentro do governo, é difícil mobilizar os recursos e fazer todas as discussões, mas isso já era para ter acontecido nos últimos meses”, analisa o presidente da Federação da Agricultura de São Paulo (FAESP), Tirso Meirelles, ao Agro Estadão. Segundo ele, ao não conseguir definir as políticas e programas em tempo hábil, o governo deixa os produtores rurais descobertos. “Sem plano safra, cria-se uma grande insegurança”, completa.
O secretário de Agricultura de São Paulo concorda. “O momento no agronegócio brasileiro não é fácil com seca, estiagem, queda do preço de commodities. Essa semana o produtor já vai ficar descoberto. É muito prejudicial”, afirma Guilherme Piai. Ele conversou com jornalistas durante O GAFFFF, em São Paulo, na manhã desta quinta-feira, 27.
No mesmo evento, o governador do Rio Grande do Sul avaliou o que já foi sinalizado para o estado. “O Plano Safra, apresentado pelo governo federal ao governo estadual, não endereçou até aqui ações específicas em volume suficiente para o que o agronegócio do Rio Grande do Sul sofreu”, disse Eduardo Leite.
Produtor atrasa o planejamento da safra ou paga mais caro em linhas de crédito
No ano passado, os recursos para agricultura empresarial e agricultura familiar somaram R$ 435 bilhões. Agora, o Plano Safra deve liberar mais de R$ 500 bilhões de reais em recursos, conforme o Agro Estadão adiantou. Mas até esse valor passou a ser revisto pelo governo federal. Fontes da área econômica que atuam diretamente na elaboração do plano, consultadas pela reportagem, dizem que “nada está certo”, a exatos seis dias do esperado anúncio. E que o valor disponibilizado “ainda não está fechado” e deve ser um pouco maior ou igual ao anunciado no ano passado: R$ 435 bilhões.
Após essa divulgação, as regras precisam ser aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Só depois são publicadas as portarias que estabelecem os limites dos recursos controlados por instituições financeiras. E esse prazo leva em torno de 15 dias.
Além disso, leva mais algum tempo para os bancos atualizarem os sistemas. Ou seja, na prática, o produtor rural terá acesso às medidas do Plano Safra até um ou dois meses após os anúncios.
Por isso, as entidades que representam o setor se preocupam com esse movimento lento do governo, já que o momento é do produtor rural planejar os investimentos. Todas concordam que o atraso na tomada de crédito provoca uma cascata: atrasa a compra de insumos, que atrasa a logística de entrega, que pode atrasar o plantio.
É claro que os produtores rurais podem – e os maiores o fazem – comprar os insumos com recursos próprios. Mas nessa fase de pré-custeio, o pequeno e o médio produtor precisam planejar os custos. “Sem os recursos equalizados do Plano Safra, acabam procurando linhas com taxas de juros maiores. E isso vem ocorrendo há algumas safras, porque o crédito rural não consegue rodar de forma efetiva”, pontua a técnica da FAEP, Ana Paula Kowalski.
Só 30% dos insumos foram comprados até agora, diz analista
A demora na definição da principal política agrícola do país só piora a situação do pequeno e do médio produtor, segundo analistas. O sócio-diretor da Markestrat, José Carlos de Lima Júnior, diz que esse público acaba ficando ainda mais exposto ao ambiente macro da economia.
“Esse atraso do Plano Safra pode ter um desdobramento bastante negativo, porque o produtor já não está conseguindo comprar os insumos, devido à queda das commodities. Nesse momento, a média de compra de herbicidas, fungicidas e inseticidas, principalmente, está girando em torno de 35%”, afirma Lima Júnior. Com menos da metade dos insumos garantidos, o produtor deve ficar exposto à inflação, porque vai esperar a liberação dos recursos para efetivar as compras, segundo análise.
*Colaborou Sabrina Nascimento
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