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Sustentabilidade

Soja e abelhas: como uma fazenda no Paraná colhe mais

Experiência de família paranaense inspira projeto nacional que une agricultores e apicultores em parceria sustentável

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Sabrina Nascimento | Maringá (PR)* | sabrina.nascimento@estadao.com

21/03/2026 - 08:00

Antônio, Lígia e Albertina Jung (da esq. para a dir.) administram propriedade no município de Floresta. Foto: Sabrina Nascimento/Agro Estadão
Antônio, Lígia e Albertina Jung (da esq. para a dir.) administram propriedade no município de Floresta. Foto: Sabrina Nascimento/Agro Estadão

O Sítio Roda d’Água, no município de Floresta, a 28 quilômetros de Maringá (PR), guarda uma paisagem que se transformou ao longo de décadas. Quem olha a lavoura de soja e as colmeias de abelhas espalhadas entre as áreas de preservação mal imagina a história de uma família que, desde 1948, faz deste pedaço de terra o seu mundo.

Foi naquele ano que o avô da produtora Lígia Jung comprou a área. “A propriedade foi comprada em 1948 pelo meu avô, pai do meu pai. Essa área era totalmente de mata inteira, era tudo mato. Meu tio falava, ‘ali era o fim da picada’. Dali pra baixo era só de camionete rural por causa do atoleiro”, conta Lígia que além de produtora rural, também é engenheira agrônoma. 

CONTEÚDO PATROCINADO

Como em tantas propriedades do norte do Paraná, a agricultura ali se estruturou aos poucos. Ela relata que primeiro veio o café e, quase como extensão natural da vida no campo, surgiram as abelhas. “Tinha um problema na propriedade. O açúcar era muito caro. Então, a abelha chegou na propriedade para resolver um problema de açúcar na casa. Começou a abelha ali com o café”, retrata.

Mesmo após a grande geada que devastou os cafezais do Paraná na década de 70, as abelhas ficaram. Com o desaparecimento do café, a soja entrou em campo, reorganizando o cenário agrícola no Estado. 

Antônio Jung, pai de Lígia e hoje responsável pela propriedade com seus filhos e sua esposa, dona Albertina, lembra que nunca houve discussão sobre retirar as colmeias. “Elas sempre estiveram ali. Faziam parte da paisagem”, lembra. Segundo ele, a convivência entre soja e abelhas aconteceu de forma silenciosa, sem rótulos, sem debates técnicos, sem o debate sobre sustentabilidade que passaria a cercar o tema anos depois. 

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A descoberta prática da polinização da soja por abelhas

Foi também de maneira silenciosa a primeira constatação dos benefícios dessa coexistência. Ele lembra que a colheita parecia render mais nas áreas próximas às colmeias. “O grão era mais pesado”, diz. Em determinados pontos, a colheitadeira precisava reduzir a velocidade para não sobrecarregar o sistema, conta o agricultor. 

Durante anos, essa percepção ficou restrita à experiência prática, à comparação entre talhões, ao olhar atento de quem acompanha a terra safra após safra. “Na época, ninguém falava em polinização da soja, mas a gente via”, conta Antônio. 

Conhecimento passado entre as gerações

Esse saber baseado na experiência atravessou gerações e encontrou, na trajetória de Lígia, uma explicação científica, baseada em dados. “Meu pai sempre soube que produzia mais onde havia abelhas. A agronomia me deu as ferramentas para explicar o por quê”, diz. 

Hoje, pesquisas da Embrapa confirmam aquilo que o Sítio Roda d’Água já indicava há décadas: mesmo sendo autógama — plantas que se reproduzem predominantemente usando o pólen da própria flor, sem precisar de outro indivíduo para polinização —, a soja responde positivamente à visita de polinizadores. 

“Observamos ganhos de produtividade que variam, no mínimo, entre 8% e 10%. Em trabalhos pioneiros, houve casos de aumento de até 35%. Em uma das variedades avaliadas, o incremento chegou a 57%. São números excepcionais, mas quando analisamos o conjunto dos experimentos, a maioria dos resultados aponta ganhos médios entre 15% e 20%”, explica Décio Gazzoni, pesquisador da Embrapa Soja. 

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Manejo integrado de pragas para proteger polinizadores

soja e abelhas
Família Jung comercializa mel produzido nas colmeias das lavouras de soja. Foto: Sabrina Nascimento/Agro Estadão

A convivência com as abelhas também influenciou a forma de manejar a lavoura no Sítio Roda d’Água. Ao longo dos anos, a família Jung passou a adotar com mais rigor o manejo integrado de pragas, reduzindo aplicações desnecessárias de defensivos agrícolas e priorizando o monitoramento. 

Além disso, as pulverizações, quando necessárias, são feitas em horários adequados, respeitando o ciclo diário das abelhas. 

Essa relação equilibrada, no entanto, nem sempre encontrou eco fora da porteira. Pulverizações aéreas mal conduzidas em propriedades vizinhas já provocaram perdas severas de colmeias na região. 

Lygia conta que, em um episódio específico, a produção anual de mel caiu de cerca de 2.500 quilos para pouco mais de 30 quilos. O caso foi denunciado ao Ministério Público. O problema não estava no uso de defensivos, mas na aplicação fora das recomendações técnicas. “O conflito não é entre agricultura e abelhas. É entre manejo responsável e manejo irresponsável”, afirma. 

Projeto no Pampa Gaúcho une sojicultores e apicultores

abelha em flor de soja
Experiência prática confirma ganhos de 15% a 20%. Foto: Adobe Stock

Devido aos resultados de aumento de produtividade no Sítio Roda d’Água e em outras áreas acompanhadas pela Embrapa, a Basf decidiu levar a convivência entre soja e abelhas para o campo em escala maior. 

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No Pampa Gaúcho, a empresa iniciou na safra 2025/26 um projeto-piloto que integra sojicultores e apicultores em áreas de produção de soja. A iniciativa, chamada Coexistência entre Agricultura e Apicultura, começou em São Gabriel (RS). A ideia é oferecer aos produtores interessados colmeias, treinamento técnico e acompanhamento especializado. 

Enquanto os agricultores abrem espaço nas lavouras para os enxames, os apicultores produzem mel a partir da florada da soja, criando uma relação de benefício mútuo.  “É um modelo de ganha-ganha que integra agricultores, apicultores e meio ambiente. Ao incentivar boas práticas e o diálogo no campo, mostramos que é possível produzir mais alimentos, fortalecer a renda local e conservar a biodiversidade ao mesmo tempo”, diz o gerente de Stewardship e Sustentabilidade da Basf, Maurício do Carmo Fernandes. 

Além do impacto produtivo, o projeto incorpora uma contrapartida ambiental. Para cada quilo de mel de soja produzido, mudas de árvores nativas serão plantadas em áreas degradadas do Rio Grande do Sul, incluindo regiões afetadas por enchentes recentes. “Então, conforme vai produzindo mel, a gente vai plantando árvores nessas áreas que precisam desse reforço ambiental”, ressalta. 

A iniciativa conta com apoio da Embrapa Soja para suporte nos treinamentos presenciais, materiais técnicos e ferramentas digitais para orientar o uso correto de defensivos, o posicionamento das colmeias e o manejo adequado das lavouras. 

*a jornalista viajou a convite da Basf

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