Inovação
Inteligência artificial é usada pela primeira vez para produzir vinho
Como um “degustador virtual”, sistema analisou mais de 10 mil combinações para formular a receita do primeiro blend da vinícola Casa Tertúlia, no Rio Grande do Sul
Fernanda Farias | Porto Alegre | fernanda.farias@estadao.com
28/09/2024 - 08:30

Entre dez mil combinações, surgiu o primeiro vinho produzido com Inteligência Artificial (IA) no mundo. É a tecnologia sendo usada da forma mais avançada possível na produção de uma bebida.
O rótulo “IA” é o primeiro blend da vinícola Casa Tertúlia, de Três de Maio (RS), produzido com uvas Marselan, Cabernet Sauvignon, Merlot e Teroldego de diferentes safras da vinícola. A proporção de cada variedade é mantida em sigilo – eis o diferencial do negócio!
A novidade surgiu a partir da curiosidade da família Hilgert em entender “como provar, cientificamente, que o vinho é realmente bom”. Questões que ganharam força durante a pandemia, quando pai, mãe e filhos voltaram a morar juntos na propriedade onde fica a vinícola. Cada um com sua profissão e área de conhecimento contribuiu para o feito.
“Um administrador, uma enóloga, uma sommelier e um engenheiro degustando vinhos e falando sobre vinhos”, lembra Leodir Hilgert, fundador e administrador da vinícola. Ao Agro Estadão, ele conta como surgiu o vinho inédito, sem esconder o orgulho e a animação. “Estamos fazendo história”, diz em determinado momento da conversa.
Como surgiu a ideia de usar Inteligência Artificial na produção do vinho?
Em 2020, a vinícola já produzia vinhos de excelência e os vendia na sede da propriedade, que também oferecia jantares harmonizados. Com a curiosidade instigada, o mais jovem da família começou a desenvolver um algoritmo que pudesse avaliar os vinhos com a mesma (ou maior) assertividade que os sommeliers.

Para isso, o engenheiro conta que usou “diversas ferramentas ao mesmo tempo”, mas principalmente duas. As redes neurais, que são programas de computador que ensinam máquinas a tomar decisões de forma semelhante ao cérebro humano. E a machine learning, que inclui outras abordagens para treinar as máquinas.
“Nesse caso, ensinamos o computador a determinar a qualidade do vinho. Você mostra a composição química e ele vai dar uma nota para a bebida”, resume o engenheiro.
Foram inseridas milhares de informações de diferentes bancos de dados de avaliações de vinhos do mundo, considerando as características físico-químicas, como acidez, açúcares, graduação alcoólica, densidades, etc.
“É como um degustador virtual! O sistema aprende a diferenciar as características – vai olhar para os milhares de exemplos e entender o que faz um vinho ser bom ou ser ruim”, complementa.
Com o algoritmo testado, chegou a hora de produzir o primeiro vinho com IA
Para testar o algoritmo, os vinhos da casa foram avaliados e depois, inscritos em uma premiação nacional, para descobrir se a avaliação do sistema era a mesma de especialistas. O resultado foram oito rótulos listados entre os melhores nas suas categorias no concurso Wines of Brazil Awards (WBA), além de ser premiada como Vinícola Revelação 2021.
A partir daí, cinco vinhos de diferentes safras da vinícola Casa Tertúlia foram escolhidos para produzir o blend. “De uma quantidade potencialmente infinita, o sistema gerou dez mil combinações otimizadas, estimando as melhores notas, ou seja, as de maior qualidade”, explica a sommelière Jéssica Hilgert.
“Ele trouxe as melhores variáveis de cada tipo, indicando as proporções exatas para um vinho de excelente qualidade”, conta o engenheiro Gabriel Hilgert.
As 20 combinações com melhores notas foram analisadas pela enóloga e a sommelier da vinícola, e a escolhida foi a receita nº 10, feita com quatro variedades de uva. Com assertividade de 97% do sistema de que este vinho seja de alta qualidade, o primeiro vinho com IA tem o primeiro lote com 1,2 mil garrafas que são comercializadas pelo site da vinícola.
“É claro que a escolha dos vinhos para inserir no algoritmo é fundamental. Não adianta colocar qualquer vinho. Até vai aumentar a nota, mas não vai produzir o excelente. Primeiro tem que fazer a escolha de vinhos de qualidade”, comenta a enóloga Viviane Hilgert.

O que significa usar IA para produzir vinho
Para o administrador, o resultado demonstra uma revolução tecnológica para o negócio sem perder a essência da busca constante pela qualidade. Hilgert destaca que a colheita da uva na propriedade é manual, e o cuidado com cada cacho da fruta é o início da jornada para produção de vinhos de qualidade.
“Eu vejo uma contribuição para toda a vinificação brasileira. É uma tecnologia que pode trazer os vinhos brasileiros a um patamar de alto nível e permitindo uma produção de escala maior”, destaca.
Por enquanto, o algoritmo só deverá ser usado na vinícola e foi patenteado pelo criador, que também usou IA para produzir o rótulo do vinho. Gabriel guarda uma garrafa dessa produção em casa, como lembrança de uma sensação incrível.
“A coisa mais emocionante desse projeto todo foi provar o vinho. Foi muito gratificante”, lembra.
Siga o Agro Estadão no Google News e fique bem informado sobre as notícias do campo.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Inovação
1
Estudo inédito no Brasil estima perda de carbono em solos da agropecuária
2
Tecnologia identifica origem do café e detecta adulterações em segundos
3
Mel da Serra Catarinense conquista primeira certificação FSC das Américas
4
Nanotecnologia abre caminho para arroz mais resistente à seca
5
Embrapa lança primeira cultivar de arroz preto voltada à gastronomia
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Inovação
Embrapa lança primeira cultivar de arroz preto voltada à gastronomia
Abertura da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas também apresentará variedades especiais para bioetanol e culinária japonesa
Inovação
Nanotecnologia abre caminho para arroz mais resistente à seca
Pesquisa do INCT NanoAgro utiliza óxido nítrico encapsulado para fortalecer sementes e reduzir perdas causadas pelo déficit hídrico
Inovação
Estudo inédito no Brasil estima perda de carbono em solos da agropecuária
Com participações de pesquisadores de três instituições, mensuração pode ajudar a medir potencial de parte do mercado de carbono brasileiro
Inovação
Cafeicultura mineira avalia cooperação em inteligência geoespacial com missão tcheca
Encontro na Emater discute parceria internacional para uso de dados de satélite no planejamento e na sustentabilidade das lavouras
Inovação
Tecnologia identifica origem do café e detecta adulterações em segundos
Pesquisa da Embrapa adapta método já empregado nas cadeias do leite e da soja para confirmar procedência e identificar misturas ilegais
Inovação
Mel da Serra Catarinense conquista primeira certificação FSC das Américas
Reconhecimento valoriza pequenos apicultores e mostra que a floresta pode gerar renda, biodiversidade e desenvolvimento para além da madeira
Inovação
Uva Niágara de Jundiaí (SP) inspira criação de cerveja inédita
Desenvolvida em parceria com a Etec e produtores locais, a bebida é uma das atrações da 41ª Festa da Uva, que acontece até 8 de fevereiro, em Jundiaí.
Inovação
As baratas podem ser aliadas na transição energética; saiba como
Pesquisa busca, no sistema digestivo dos insetos, enzimas capazes de tornar mais eficiente a conversão da biomassa vegetal em biocombustíveis