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Fungo que mata insetos pode ganhar upgrade com pesquisa da Embrapa

Estudo quer potencializar biodefensivos à base de Beauveria bassiana

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Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com

11/03/2025 - 08:00

Colônias de Beauveria bassiana mutantes. Foto: Embrapa Meio Ambiente/Divulgação
Colônias de Beauveria bassiana mutantes. Foto: Embrapa Meio Ambiente/Divulgação

Não é raro encontrar produtores de diferentes culturas que já utilizam no manejo o fungo Beauveria bassiana para auxiliar no controle de insetos. E esse defensivo pode ficar ainda mais potente. Isso porque a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem pesquisado uma forma de aumentar a eficiência do fungo. 

Os estudos são conduzidos pelo pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Gabriel Mascarin, que resume: “A gente tenta transformar ele [fungo] na melhor versão possível”. A pesquisa foi feita, até o momento, em duas etapas. A primeira trata de encontrar a estrutura reprodutiva do Beauveria bassiana mais infectante. 

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Basicamente foram analisadas duas células: conídios — esporos; e os blastosporos — esporos com formato de leveduras produzidos em meio líquido. Este último teve um desempenho melhor, sendo 3,3 vezes mais letal aos insetos e 22% mais rápido. Outra questão que favorece os blastosporos é a escalabilidade de produção e a agilidade, pode-se produzir bilhões em somente três dias. 

“Nós verificamos que os blastosporos, que são essas células leveduriformes, que o fungo produz quando é cultivado em meio líquido, foram mais efetivas do ponto de vista do controle biológico para eliminar aquele inseto alvo do nosso estudo”, comenta Mascarin. Ele também explica que essa estrutura pode ser produzida pelo fungo dentro do próprio inseto, na hemolinfa — espécie de sangue do inseto. 

A guerra química entre fungo e inseto

A outra fase da pesquisa envolve uma transgenia. Uma vez que o fungo se desenvolve dentro do inseto, uma verdadeira “guerra química” começa. O fungo se instala e o sistema imune do inseto responde. O contra-ataque do fungo é a liberação de substâncias. A oosporina é uma delas e funciona como um destruidor das defesas do inseto. Isso potencializa a ação letal do fungo, já que a imunidade está enfraquecida. 

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Porém, nem toda cepa do Beauveria bassiana produz a substância ou libera em quantidades significativas. Por isso, essa etapa do estudo científico identificou o gene responsável por essa inibição da produção de oosporina. Utilizando uma técnica de melhoramento genético chamada de CRISPR-Cas9, os pesquisadores deletaram esse gene fazendo com que o fungo se tornasse mais letal.     

“Tem um gene no fungo que controla a síntese desse pigmento [oosporina]. Só que esse é um gene que a gente chama de fator negativo, ele faz uma regulação negativa da oosporina. Ele reprime a síntese dessa substância pelo fungo. Quando a gente deletou esse gene, essa cepa que nós geramos ficou muito mais agressiva. Porque esse fungo passou a produzir a oosporina em maiores quantidades e de forma precoce, logo no início da infecção, deixando o inseto mais letárgico”, conta o pesquisador.  

larvas traça
Larvas da traça das colmeias infectadas e colonizadas pelo fungo após edição gênica. Foto: Embrapa Meio Ambiente/Divulgação

Mais mortífero e em menos tempo

O resultado foi o surgimento de uma cepa mutante — termo utilizado para organismo geneticamente modificado. E na comparação com a cepa parental, a eficiência foi o destaque: “A cepa mutante tem dois efeitos. Primeiro, ela reduz o tempo letal, ou seja, ela mata mais rapidamente o inseto. Segundo, ela reduz a concentração necessária para eliminar uma certa quantidade de pragas”, diz Mascarin.

Os testes foram feitos utilizando três níveis de concentração. O menor tinha 500 mil blastosporos na solução. Com essa quantidade e no quinto dia do experimento, os blastosporos da cepa tradicional haviam eliminado 40% da população de insetos. Já os blastosporos da cepa mutuante tiveram 100% de mortalidade. 

inseto infectado por fungo
Inseto infectado por fungo Beauveria bassiana tradicional. Foto: Adobe Stock

Pesquisa ainda precisa de aval 

Mesmo com o potencial, os estudos do melhoramento genético do Beauveria bassiana ainda têm alguns desafios a serem superados. Segundo o pesquisador, um deles está relacionado ao uso desses organismos transgênicos. Atualmente, não é possível fazer experimentos ou mesmo utilizá-los nas lavouras devido ao risco para o ambiente. 

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“Nós não podemos utilizar nenhum organismo transgênico aplicado no campo. Podemos usar o produto dele, mas não ele em si. Como a gente quer liberar o organismo no campo, ele não pode ser transgênico. Para isso estamos trabalhando numa pesquisa, em parceria com a Embrapa Arroz e Feijão, com uma técnica de CRISPR que no final obtém um fungo [eficaz] livre da transgenia, ou seja, capaz de ser utilizado em campo”, pontua. 

Além disso, é necessário fazer testes para entender o comportamento dessas novas cepas com outros organismos que não são alvos do fungo, como inimigos naturais, abelhas e minhocas. 

Outra questão é sobre o espectro de atuação do fungo potencializado. O experimento foi feito usando a traça-das-colmeias como o inseto de teste, por ser um organismo já amplamente utilizado na metodologia científica. No entanto, esse inseto tem pouca relevância entre as pragas no Brasil. É preciso aplicar e ver os resultados em pragas de relevância para o cenário brasileiro. De acordo com Mascarin, as pesquisas precisam se expandir para ver os resultados em pragas como a lagarta-do-cartucho, a mosca-branca, o moleque da bananeira e o gorgulho-da-cana-de-açúcar e outras em que a Beauveria bassiana já é utilizada.

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