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Rastreabilidade e genética são prioridades na nova gestão da Acrimat
Nando Conte detalha os desafios de um setor que busca eficiência, crédito e previsibilidade
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
02/01/2026 - 05:00

A posse da nova diretoria da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), prevista para o início de 2026, abre um ciclo de ajustes estratégicos na entidade. Eleito neste mês, o produtor Luís Fernando Amado Conte — o Nando Conte — aposta na virada do ciclo pecuário e na reorganização interna para enfrentar temas que, segundo ele, exigem presença ativa da Associação.
Em entrevista ao Agro Estadão, o novo presidente da Associação explica que, após um período marcado por custos elevados, margens baixas e dificuldade de acesso a crédito, a expectativa agora é de ajuste gradual da pecuária no Estado. O plano passa por fortalecer as bases genéticas e retomar investimentos.
Além das pautas estruturais, a nova diretoria também pretende reforçar a comunicação e ampliar a presença da entidade nas regiões produtoras. “A gente quer, de fato, estabelecer um contato mais próximo com esse pecuarista”, afirmou o dirigente.
Melhoramento genético volta ao centro do debate

A melhoria da base genética do rebanho aparece entre os principais pontos da nova gestão. Conte afirma que parte significativa das matrizes do Estado ainda reproduz sem controle técnico. “A gente ainda tem um número de matrizes expostas a uma reprodução sem qualquer tipo de controle”, diz. A prática reduz desempenho e limita avanços em eficiência.
A nova diretoria pretende envolver associações de raça — entre elas a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) e entidades estaduais de Nelore — para ampliar o acesso dos produtores a touros melhoradores e tecnologias básicas de reprodução. A proposta é levar informação, genética adequada e orientação técnica às regiões onde o tema ainda não chegou com força. Para Conte, esse passo é decisivo. “Isso pode agregar muito na produção de carne e na eficiência reprodutiva”, justifica.
Rastreabilidade exige diálogo
A pressão do mercado internacional mantém a rastreabilidade entre as pautas mais sensíveis. O dirigente avalia que o tema não pode ser imposto sem diálogo e que é necessário considerar a diversidade produtiva do Estado.
De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), todo o rebanho de bovinos e bubalinos do País deverá ter rastreabilidade até 2032. Ou seja, os pecuaristas deverão implementar o sistema de identificação individual, conforme calendário da pasta.
Segundo Nando, Mato Grosso reúne sistemas que vão do confinamento intensivo à cria extensiva. O Pantanal, principal área de criação natural do gado no Brasil, exige manejo próprio e adaptações que nem sempre cabem em modelos padronizados. “É bastante complicado. A gente não pode tomar decisões em quatro paredes”, diz ele. A entidade quer garantir discussões técnicas com produtores, governos e entidades competentes, para que o sistema seja viável no campo e compatível com as exigências do mercado — uma implementação responsável e realista.
Pastagens degradadas esperam pela retomada dos investimentos

A recuperação de pastagens aparece como um dos pontos mais afetados pela crise de crédito, segundo Nando. Em muitas propriedades, o pasto perdeu vigor e reduziu a capacidade de suporte dos rebanhos. A correção do solo e a renovação de áreas exigem recursos que não chegaram.
Conte descreve três anos de margem estreita que comprometeram investimentos e reduziram a capacidade dos pecuaristas de planejar o futuro. “A pecuária precisa ter um pouco mais de acesso a crédito”, afirma.
Além da Selic elevada, produtores enfrentaram limitações no Plano Safra e operações mais caras, segundo ele, interferiram no ritmo da recuperação de áreas. O novo presidente defende ajustes na política de crédito e alternativas que permitam ao produtor voltar a investir.
Um novo ciclo pode redesenhar o mercado em 2026
Apesar das dificuldades recentes, o novo presidente está otimista. Ele acredita que a virada do ciclo pecuário deve abrir espaço para retomar esses investimentos. Os abates de fêmeas em 2023 e 2024 reduziram a oferta de bezerros e abriram espaço para valorização na cria. “Esse abate indiscriminado já está gerando escassez”, afirma. O bezerro, que chegou a R$ 8 o quilo no ano passado, hoje está próximo de R$ 13.
Para Conte, a arroba deve reagir ao longo de 2026, impulsionada pela retomada econômica e por possíveis aberturas de mercado, como a do Japão. “A gente espera e tem convicção de que será um momento bastante positivo”, diz. O cenário eleitoral também pode estimular preços, já que historicamente aumenta o consumo e a circulação de recursos na economia.
Confinamento perde ritmo e TIP ganha espaço
A pesquisa de intenção de confinamento do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) para 2025 indica um aumento esperado de aproximadamente 3,84%, com projeção de 928,7 mil cabeças confinadas.
Mas, mesmo com o aumento de animais confinados, o número de produtores que utilizam o sistema caiu. A adesão recuou de 85,65% (2024) para 69,57% dos entrevistados em 2025.
Conte explica que a Terminação Intensiva a Pasto (TIP) vem se consolidando como alternativa no período das águas. “Apresenta resultados melhores e é mais fácil de manejar”, afirma.
Além disso, o ágio do boi magro tem impedido operações de confinamento terceirizado, como o boitel — modelo de confinamento em que a empresa, normalmente um frigorífico, faz toda a parte de engorda dos animais. “Não sobra pagar um ágio desse tamanho”, diz ele. Com o boi gordo entre R$ 305 e R$ 310 e o boi magro na casa dos R$ 360, a conta não fecha. Para o dirigente, a tendência é que mais produtores mantenham o foco na TIP, enquanto o confinamento tradicional fica restrito aos sistemas mais capitalizados.
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