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Do limão, uma limonada: exportação de limão-taiti muda a vida de pequenos produtores mineiros
Certificação social tem agregado valor à produção da fruta em pelo menos 23 propriedades da região de Jaíba e Matias Cardoso
Daumildo Júnior* | Jaíba (MG) | daumildo.junior@estadao.com
20/02/2025 - 08:00

Resultado do cruzamento entre o limão siciliano e a lima-da-pérsia, o limão-taiti, na verdade, não é um limão, mas uma lima ácida. Limão ou não, o certo é que o taiti brasileiro tem ganhado o mercado internacional e promovido uma virada de chave para, pelo menos, 23 pequenos produtores no norte mineiro, na região onde estão os municípios de Jaíba e Matias Cardoso.
É o caso do Wagner Francisco dos Santos. Ele, a mulher e os dois filhos tocam um sítio de dez hectares, dos quais 7,5 são destinados ao cultivo de 250 toneladas da fruta por ano. “A gente tinha desanimado do cultivo de limão e ia produzir outras coisas”, conta. O cenário mudou quando o agricultor soube que colegas de atividade estavam exportando a fruta.
A diferença entre os valores comercializados nos mercados interno e externo é significativa. Enquanto os preços da caixa de 20 quilos pagos aos produtores podem ficar abaixo de R$ 7,50 no Brasil, chegam a mais de R$ 60 lá fora. “É sem comparação. Além da questão que a gente consegue comercializar toda a fruta que a gente produz, né? A gente consegue um preço muito melhor”, indica Wagner.

Um aliado importante nessa mudança foi a certificação fairtrade – que é global e comprova, junto com a qualidade do produto, o aspecto social de quem produz. Wagner e os outros 22 agricultores fazem parte da Associação União dos Fruticultores do Jaíba e Região (Afrutja). Todos têm menos de 30 hectares de terra e a mão de obra é familiar. Para as empresas que compram o limão fairtrade, o selo funciona como um apoio a esses produtores.
Entre os benefícios da certificação, está o valor mínimo pago pelo quilo do limão, que, em 2024, foi de US$ 0,55. Além da segurança, o fairtrade concede um prêmio aos produtores – cerca de US$ 0,07 por quilo, que são pagos ao final de uma temporada e destinados à comunidade de produtores, ou seja, não é distribuído individualmente, mas para o grupo.
“A gente recebeu de prêmio para revestir na coletividade. Compramos de esterco, pagamos as consultorias agronômicas, consultorias de certificação, anuidade, as despesas todas e investimos. Recentemente, compramos 23 caminhões de esterco”, explica o oficial fairtrade da Afrutja, Marlon José Meira.


Na prática, nem toda a produção vai para exportação — o percentual embarcado varia entre 30% e 40%, mas a inclusão dessa nova rota de destino tem se convertido em renda para Wagner. Ele conta que, em 2023, quando ainda não exportava, a média anual paga por quilo era de R$ 1,25. Já no ano passado, subiu para mais de R$ 2. Com mais dinheiro, passou a sonhar mais alto.
“A gente tinha vontade de ampliar a casa e, graças a Deus, alcançou esse sonho. E, se Deus quiser, vou comprar um tratorzinho mais novo, daqui uns dias, comprar um carrinho, é bom. O limão tem sido uma benção de Deus na vida nossa”.
A “Canaã” abençoada pelo Velho Chico
O produtor de limão resume o lugar como “a terra de Canaã no norte de Minas”. Isso porque, além de “terra boa”, tem “água em abundância”. E água que vem do Velho Chico — Rio São Francisco. Os produtores da Afrutja possuem cerca de 184 hectares dos 65 mil que têm fornecimento de água a partir do Distrito Irrigado do Jaíba (DIJ). Na etapa 1 do DIJ, são mais de 240 quilômetros de canais que levam água a 2.153 lotes de pequenos e médios produtores.

Além do limão, outras culturas são desenvolvidas pelos agricultores da região, como banana e manga. Foi essa diversificação, além da característica de uma produção familiar e de qualidade, que motivou o Sebrae-MG a buscar uma Indicação Geográfica (IG). Em 2022, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) aprovou a IG da região do Jaíba na modalidade Indicação de Procedência (IP) para quatro frutas: limão-taiti, manga, banana e mamão.
Como é recente, a IG ainda não agrega mais dinheiro ao limão, mas, como conta Cláudio Wagner de Castro, analista do Sebrae, o processo de criar um reconhecimento da região já começou. “Quem recebe essa fruta do outro lado conhece um pouco da história dos produtores, como foi produzida, por que foi produzida. Então, você tem todo um contexto que é levado ao longo da cadeia e que pode chegar ao atacadista e até mesmo ao consumidor final”.
A IG garante, também, proteção de marca, com a qual é possível gerar um vínculo com o consumidor e, consequentemente, um diferencial financeiro. “A partir do momento em que as pessoas começam a pedir essa fruta [específica da região], vão estreitando os laços comerciais e também com o consumidor”, diz o analista.
*Jornalista viajou a convite do Sebrae-MG
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