Economia
Pirataria de sementes de soja gera perdas de R$ 10 bi ao ano
Área corresponde a 11% da semeadura da cultura no Brasil e equivale ao plantio de soja em MS na safra 2023/24
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
02/04/2025 - 15:57

A pirataria de sementes de soja gerou perdas anuais de R$ 10 bilhões ao Brasil na safra 2023/24, segundo levantamento da consultoria Céleres, encomendado pela CropLife Brasil.
Os dados apresentados nesta quarta-feira, 02, indicam que a área cultivada com esse tipo de semente representou 11% da semeadura total do país. Proporcionalmente, o número equivale à área de plantio em Mato Grosso do Sul, quinto maior produtor nacional de soja.
O impacto da pirataria de sementes de soja atinge toda cadeia. Conforme o estudo, os prejuízos são distribuídos em:
- mais de R$ 4 bilhões: perdas em receitas não incorporadas por indústrias que antecedem a produção na fazenda;
- R$ 2,5 bilhões: perdas dentro das propriedades devido à redução de produtividade e ao aumento dos custos com controle de pragas e doenças;
- R$ 1,2 bilhão: perdas na produção de farelo e óleo de soja;
- R$ 1,5 bilhão: prejuízo nas exportações.
Segundo o diretor da Céleres, Anderson Galvão, essa perda de faturamento se traduz na perda de renda do agricultor, além da redução na arrecadação de impostos estaduais e federais.
Galvão destaca ainda que, coincidentemente, nos estados em que há uma maior adoção de sementes não certificadas, incluindo as piratas, existe uma presença maior de plantas daninhas. “Parte disso vem da própria contaminação da semente, que não participou ou não teve os seus devidos processos industriais no sentido de evitar esse tipo de contaminação”, explica.
Com um esforço maior para combater a pirataria de sementes de soja, o estudo estima que, na próxima década, o investimento em novas variedades de sementes pode girar em torno de R$ 900 milhões. O presidente da CropLife Brasil, Eduardo Brandão, ressalta que esse trabalho de melhoramento genético é primordial para garantir maior eficiência e sustentabilidade para o setor agrícola. “Nós temos um desafio muito forte relacionado à questão da segurança alimentar, uma população com um potencial de crescimento muito forte nos próximos anos, o que vai demandar um aumento substancial na oferta de alimentos e também energias renováveis. Tudo isso passa, necessariamente, pela agricultura”, ressalta.
Uso de sementes piratas por estado
O levantamento apontou que regiões tradicionalmente favoráveis à produção de sementes salvas, como o Rio Grande do Sul, historicamente registram altos índices de uso de sementes não certificadas.
Na safra 2023/24, a área plantada no estado gaúcho com sementes piratas chegou a 28% — o maior índice nacional. Além disso, neste ano, o RS registrou a maior apreensão de sementes de soja irregulares da história do país: mais de 1,4 mil toneladas.
Contudo, os dados mostram que a pirataria vai além da região Sul. Nos últimos anos, estados como Minas Gerais, Pará e estados do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) também se tornaram polos importantes da produção e comercialização de sementes piratas, ampliando os desafios para o setor.
Fonte: Céleres Consultoria e CropLife Brasil
Sementes certificadas X piratas X salvas
Em 2023, as sementes certificadas foram utilizadas em 67% da área cultivada no Brasil, enquanto as sementes não certificadas — que incluem tanto as salvas quanto as piratas — representaram 33% do total, segundo os dados do levantamento.
No país, os produtores têm o direito de salvar sementes, ou seja, armazenar parte da produção para o replantio na safra seguinte, caso sigam as regulamentações vigentes.
As sementes certificadas passam por um rigoroso controle de qualidade, garantindo maior produtividade e sanidade. Já as sementes piratas são comercializadas ilegalmente, sem certificação, o que pode comprometer o desempenho da lavoura e a produtividade e ainda aumentar a disseminação de pragas e doenças.
Por que os agricultores optam por sementes piratas?
Apesar dos impactos na cadeia produtiva, três fatores explicam a continuidade do uso de sementes pelos agricultores: cultura, conveniência e custo de curto prazo.
No aspecto da cultura, de acordo com Anderson, principalmente no Rio Grande do Sul, muitos agricultores mantêm a tradição familiar de utilizar sementes salvas, o que é permitido pela legislação. No entanto, ocorre também a aquisição de sementes piratas devido à conveniência e aos preços mais baixos. “A semente pirata, muitas vezes, parece uma alternativa mais econômica no curto prazo. No entanto, essa economia pode significar menor produtividade, maior incidência de pragas e doenças e aumento dos custos de controle”, alerta Galvão.
Conforme o especialista, embora tenha avançado nos últimos anos, a produtividade média do Rio Grande do Sul tem sido prejudicada pelo alto uso de sementes não certificadas. No entanto, essa perda é compensada devido à proximidade com os portos, como o de Rio Grande e o de Paranaguá, garantindo melhores preços de comercialização. “Como esse agricultor sobrevive? A facilidade dele é que está mais próximo dos portos e, consequentemente, essa perda de produtividade é compensada pelo ganho de preço do custo total de comercialização”, explica.
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