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Pecuária

Por que parasita carnívoro voltou a aterrorizar América Central e preocupa até os EUA

Perdas chegam na casa dos US$ 260 milhões; medidas de controle têm envolvido líderes comunitários, como xamãs, e até parteiras

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Daumildo Júnior* | San José, Costa Rica | daumildo.junior@estadao.com

07/01/2026 - 05:00

Larvas são capazes de abrir buracos em tecidos vivos. Foto: IICA/Divulgação
Larvas são capazes de abrir buracos em tecidos vivos. Foto: IICA/Divulgação

Pequenos e, à primeira vista, inofensivos, os “gusanos barrenadores” têm mobilizado uma corrida nos países da América Central, México e nos Estados Unidos. Em uma tradução ao pé da letra do nome em espanhol, esses insetos poderiam ser chamados de larvas abridoras de buracos. Mas esses orifícios não são na terra, mas em tecido vivo, ou seja, em carne viva. 

No Brasil, a doença é conhecida como miíase ou berne causada pela mosca-da-bicheira. Os pecuaristas lidam com ela há bastante tempo, sendo um problema que causa perdas de produtividade no rebanho. Apesar do nível de preocupação ser classificado como alto para a sanidade animal e prejuízos econômicos, esse contato constante com a doença e a mosca moldou a cultura dos produtores aqui, que estão preparados para lidar com ela.

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O que ocorre, principalmente, na Centroamérica é que essa enfermidade não aparecia há mais de 20 anos. Com isso, a forma de tratar e a importância da doença caíram no esquecimento e deixaram de ser levadas em consideração. Alguns cursos de formação de profissionais da área, inclusive, não tratavam muito sobre a doença nas grades curriculares, o que prejudicou na identificação dos primeiros casos. 

Como ocorre a infecção?

O ciclo da mosca é relativamente simples. Por ser um parasita de animais de sangue quente, ou seja, mamíferos e aves, depende de uma ocasião para conseguir dar seguimento no ciclo. Basicamente, essa oportunidade é uma ferida aberta ou mesmo uma lesão, por exemplo, um arranhão que deixou alguma fissura na pele. 

Primeiro, a mosca deposita seus ovos na ferida. Cerca de 12 a 24 horas depois, as larvas saem e começam a se alimentar do tecido vivo. Passados cinco a sete dias, essas larvas saem da ferida e caem no solo para se tornarem pupas — uma espécie de casulo. De sete a 20 dias após essa fase, cada larva vira uma mosca adulta, com as fêmeas tendo a capacidade de recomeçar o ciclo. 

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O resultado é um odor forte de putrefação exalado do local infectado e também dor intensa nos animais. Isso altera o comportamento deles, afetando, por exemplo, a alimentação e, consequentemente, o desempenho produtivo, seja de leite ou carne. Como explica Flávio Gomes, médico-veterinário e membro da Comissão Nacional de Defesa Sanitária Animal (Condesa) do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), as larvas “literalmente cavam” a carne viva. 

“A gravidade está no fato de que elas [larvas] se alimentam de tecido vivo. A ferida aberta vira porta de entrada para bactérias e fungos, favorecendo infecções secundárias que podem evoluir para septicemia. Com dor, o animal come menos, produz menos e perde desempenho. Se a lesão atinge músculos profundos ou a infecção se espalha, pode ocorrer morte por choque infeccioso, toxemia ou perda de sangue”, acrescentou o veterinário. 

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Fêmeas da mosca adulta são capazes de recomeçar o ciclo de infecção dos rebanhos. Foto: Seapi/Divulgação

Conscientização envolve xamãs e línguas maias

A falta de conhecimento é tida como o principal aspecto que tem agravado a situação na América Central. Por isso, um dos enfoques do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) tem sido ajudar os países da região a controlar a doença. Isso passa desde orientar em decisões governamentais até conscientizar populações rurais e tradicionais para curar pets e animais de uso comercial. 

Na Guatemala e em zonas de Belize, as campanhas educativas feitas pela entidade são em espanhol, mas também em quatro línguas maias, já que uma parte significativa das pessoas da zona rural desses países carrega essa herança linguística. O esforço de chegar a essas comunidades também inclui orientar chefes e líderes comunitários, como xamãs, prefeitos e até parteiras. 

“Nós entramos em uma comunidade não como um órgão oficial, mas falando com líderes locais. No México, por exemplo, estamos pensando em fazer uma atividade com parteiras e xamãs, com quem atua na medicina tradicional, porque a maior parte dos animais infectados foi através do umbigo”, afirmou a especialista técnica da Gerência de Sanidade e Inocuidade Agropecuária do IICA, Alejandra Díaz.

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Outro ponto é que a doença é uma zoonose, ou seja, pode ser transmitida de animais para humanos, o que requer ações também com órgãos de saúde. Como comenta a especialista, a falta de cuidados levou à morte de um bebê. “Em Honduras, um bebê não resistiu depois que as larvas entram pelo cordão umbilical”, disse. 

“Produtores perderam o costume de curar”

Díaz aponta alguns aspectos que tornam a doença uma forte preocupação na parte Central das Américas em comparação com outros países da América do Sul, como o Brasil. Além de clima diferentes, a não convivência com a enfermidade afetou rotinas de prevenção. “O produtor havia perdido o costume de curar as feridas. Quando tinha a ferida, ele esperava que o processo ocorresse de forma natural”, comentou, ao lembrar que o ressurgimento ocorreu em 2023. 

Um exemplo é no nascimento de bezerros. No Brasil, é normal um pequeno criador aplicar um spray com propriedades repelente, larvicida e cicatrizante no umbigo do bezerro algumas horas após o parto como forma de prevenir contra a mosca-da-bicheira. Esse costume não era tão comum entre os produtores de bovinos da América Central. 

Além disso, a técnica revela que, antes dos casos, “não havia produtos para curar” disponíveis nas casas agropecuárias. “Alguns dos países tiveram que importar produtos, mas nem todos os produtos tinham registros nesses países”, acrescentou. 

O tema já preocupa os Estados Unidos, por ser um dos maiores produtores mundiais de carne bovina e pela proximidade com os países de ocorrência. Por isso, a importação norte-americana de gado vivo do México foi interrompida. 

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A medida teve um efeito cascata na região, uma vez que a paralisação afetou a movimentação de gado vivo dos demais países para o México também. O resultado tem sido uma perda anual estimada em US$ 263 milhões.

No entanto, a especialista acredita que é possível tornar os países afetados livres da doença novamente, apesar do tempo que irá demorar. “Há um trabalho muito grande e eu acho que a erradicação vai tomar bastante tempo, mas estamos focados e tratando desde nível ministerial até de comunidades rurais”, completou Díaz.

*Jornalista viajou a convite do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA)

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