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100 anos de soja no Brasil
Pastor trouxe sementes de soja dos EUA em uma garrafa; hoje, o grão se espalha por 45 milhões de hectares no país
Sabrina Nascimento | São Paulo
30/10/2024 - 08:00

Dentro de uma garrafa, 160 sementes desembarcaram no Brasil há 100 anos. Foi assim que o pastor norte-americano Albert Lehenbauer trouxe a soja para começar a ser cultivada em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul. O missionário voltava de um período nos Estados Unidos, de onde trouxe o grão protegido do clima durante a viagem de navio.
“Assim que chegaram, mal tiraram as malas da carroça e ele foi plantar as sementes na horta da casa”, diz Walter Lehenbauer, neto do pastor, com quem conviveu só até os 3 anos de idade. Mas a história foi contada a ele muitas vezes pela avó, Helena, e também em relatos deixados em cartas pelo avô. Só no primeiro ano de semeadura, as 160 sementes renderam o dobro – e foram aumentando o volume nos anos seguintes.
A intenção de Lehenbauer era melhorar a vida dos colonos que viviam no sul do País, a maioria de origem europeia que havia fugido da guerra. Por isso, a cada produção, o pastor ficava com metade dos grãos e dividia o restante em caixinhas de fósforo. “Ele colocava duas ou três sementes em cada uma dessas caixinhas e distribuía dizendo: ‘plante essas sementes, e quando produzirem, fique com a metade, e a outra parte dê para seus vizinhos, parentes e amigos'”, lembra.


Na terceira e quarta safras, uma surpresa: Helena havia cultivado as sementes entre as flores do jardim e as plantas de soja cresceram tão altas que produziram 400 vagens. Assim, ao distribuir as sementes, os Lehenbauer aconselhavam também a cultivá-las entre as flores. Assim, a soja se espalhou pelo Estado e, mais tarde, pelo Brasil.
Hoje, o grão que chegou na garrafa e foi distribuído em caixas de fósforo ocupa 45 milhões de hectares de lavouras e soma quase 150 milhões de toneladas a cada ano, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Expansão territorial da soja
A disseminação da soja pelo Brasil deve-se ao movimento dos colonos que moravam no sul e foram desbravar o país em busca de solos férteis. Um deles foi o holandês Wilhelmus Hendrikus Josef Kompier, que chegou ao Brasil aos 22 anos, passou por São Paulo e Paraná e fixou-se no Rio Grande do Sul, onde casou e começou a plantar soja em 1969.
“A soja que nós plantamos tinha o nome de Santa Rosa, por causa do pastor que havia trazido as sementes dos Estados Unidos”, conta o agricultor, hoje com 81 anos. O plantio inicial foi em 100 hectares no município gaúcho de Condor. Em 1982, ele se mudou para Uberlândia (MG) e, alguns anos depois, foi convencido por um cunhado a apostar em Goiás. “Aqui o terreno é melhor, o clima é melhor”, lembra.



Atualmente, Goiás é o quarto maior Estado produtor de soja – colheu 16,8 milhões de toneladas na última safra. A região Centro-Oeste, aliás, lidera a produção no País, com 67,7 milhões de toneladas. Mato Grosso é o maior produtor, com 39,3 milhões de toneladas.
A produtividade alcançada é resultado de práticas de sustentabilidade adotadas pelos agricultores ao longo das décadas. A fazenda da família de Wilhelmus, por exemplo, tem o selo GAAS, de Agricultura Sustentável e Regenerativa, e também usa biofertilizantes. Em uma área de 2,2 mil hectares separados na fazenda, eles reduziram em 30% o uso de fungicidas e inseticidas. “Nessa área, conseguimos em torno de 72 sacos por hectare”, ressalta a filha do agricultor, Marion Kompier.
Ciência e tecnologia
A evolução da soja brasileira recebeu grande contribuição da pesquisa e inovação. Antes da década de 60, a soja era principalmente cultivada com variedades americanas. Nesse contexto, surgiu a Embrapa Soja, em 1975 – o objetivo era desenvolver um programa robusto de melhoramento genético focado na adaptação ao clima brasileiro. “Não foi só a genética da adaptação, houve também todo um trabalho que corrigiu os solos”, aponta Alexandre Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja. Segundo ele, a conquista do Cerrado foi um aspecto central pela característica mais acidificada da região, com a necessidade de ter novas cultivares.
Para salvaguardar esse mercado, existe a Lei de Proteção de Cultivares. A legislação brasileira regulamenta a propriedade intelectual de novas variedades de plantas. A lei permite que pequenos agricultores guardem sementes de cultivares protegidas para uso próprio, mas não para venda ou distribuição sem autorização.
Contudo, com a evolução vieram os desafios. “O Brasil teve que se adaptar às práticas culturais do manejo integrado de pragas, algo que a soja faz muito bem, aplicando somente quando necessário”, diz Nepomuceno. Esses e outros avanços em tecnologia agrícola fazem do País o maior produtor e exportador de soja do mundo, com Estados Unidos e Argentina ocupando a segunda e terceira posições, respectivamente.
Resiliência e superação
As conquistas da cadeia da soja nos últimos 100 anos serão celebradas durante a Fenasoja 2024, feira realizada no final de 29 de novembro a 8 do dezembro em Santa Rosa, cidade considerada o Berço Nacional da Soja. Tradicionalmente, o evento é realizado em maio, mas foi adiado em razão das chuvas que castigaram o Rio Grande do Sul. “A enchente aconteceu 15 dias antes do início da feira. A nossa primeira reação foi adiar e começamos a ajudar os produtores”, conta Dário Jr. Germano, presidente da Fenasoja.
Apesar dos desafios, a expectativa é de superar os negócios da última edição: R$ 1,2 bilhões e 310 mil visitantes. O destaque, no entanto, é a resiliência e superação dos agricultores. “Sem dúvida foi um ano muito difícil, mas com a fé e esperança o agricultor vem projetando um futuro ainda melhor”, acredita Germano.
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