Agricultura
Tropicalização do lúpulo no Brasil traz ganhos ambientais, sociais e econômicos
Estudo aponta avanços na produção nacional e indica caminho para reduzir dependência de importações
Redação Agro Estadão
02/10/2025 - 10:09

O cultivo de lúpulo no Brasil, antes considerado inviável em clima tropical, mostra resultados promissores em produtividade e sustentabilidade. Um estudo em dez fazendas de referência em Alagoas, Goiás e São Paulo revelou que a produção nacional contribui para ganhos econômicos, sociais e ambientais, apesar de desafios ligados ao consumo de energia, uso de insumos e demanda hídrica.
De acordo com a Embrapa, o estudo reforça que a produção tropicalizada da planta — base indispensável da indústria cervejeira — pode fortalecer pequenos e médios produtores, diversificar a agroindústria e abrir espaço para exportações futuras. Participaram pesquisadores da Unesp, da Embrapa Meio Ambiente e da Universidade da Flórida (EUA).
A pesquisa utilizou o Sistema de Avaliação de Impactos Ambientais de Inovações Tecnológicas Agropecuárias (Ambitec-Agro), que mede impactos de inovações tecnológicas no campo. O balanço apontou 19 critérios positivos, seis negativos e dois neutros. Os principais avanços ocorreram na renda, diversificação produtiva e valorização das propriedades.
“Também se destacaram avanços sociais, como formalização do trabalho, inclusão de mulheres e jovens e maior oferta de capacitações, além de efeitos ambientais positivos ligados à recuperação de áreas degradadas e aumento da biodiversidade”, afirmou a pesquisadora Viviany Viriato, doutoranda da Unesp em Botucatu.
Originário de regiões de clima temperado, o lúpulo exige condições específicas de luz e temperatura. Pesquisas brasileiras mostram que, com técnicas adequadas de manejo, é possível alcançar produtividade e qualidade compatíveis com padrões internacionais.
Estratégias sustentáveis

Embora persistam desafios ligados a energia, água e insumos, os pesquisadores apontam que os benefícios superam os obstáculos. Entre os pontos críticos estão a maior necessidade de iluminação artificial, irrigação intensa e uso de insumos agrícolas. Para mitigar esses impactos, algumas propriedades instalaram painéis solares e adotaram fertirrigação, técnica que une irrigação e aplicação de nutrientes. Outras práticas incluíram adubação verde, manejo integrado de pragas e reciclagem de resíduos.
Segundo os autores do estudo, essas estratégias reduziram custos no médio prazo e compensaram parte dos efeitos negativos. “A tropicalização do lúpulo no Brasil tem potencial de consolidar uma cadeia produtiva sustentável e de alto valor agregado, reduzindo a dependência de importações e abrindo espaço para a inovação na agricultura nacional”, destacam os pesquisadores.
Impactos sociais e econômicos
O estudo revela que o cultivo impulsionou a formalização de contratos e melhorou as condições de trabalho. Houve aumento da participação de mulheres e jovens nas lavouras e fortalecimento da vida comunitária com eventos ligados à colheita e programas de educação ambiental.
Do ponto de vista econômico, os produtores relataram valorização das propriedades e diversificação da renda. Embora os investimentos iniciais sejam elevados e a rentabilidade ainda varie entre as fazendas, a expectativa é de expansão no médio prazo, impulsionada pelo mercado cervejeiro.
Produção nacional em crescimento
O Brasil, terceiro maior produtor de cerveja do mundo, ainda depende da importação de lúpulo. Em 2023, foram colhidas cerca de 180 toneladas em 53 hectares, frente a uma demanda que ultrapassa 15 bilhões de litros de cerveja por ano. Apenas uma fração desse volume — cerca de 41 milhões de litros — utilizou exclusivamente insumo nacional.
Apesar disso, a cadeia cresce rapidamente. Já são 152 produtores registrados, segundo dados do Ministério da Agricultura, e a tendência é de expansão, com apoio de associações setoriais e pesquisas científicas que buscam adaptar a planta ao clima tropical.
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