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Sustentabilidade

Sistema silvipastoril: pesquisa aponta que árvores em pastagem trazem benefícios de bem-estar para gado de corte

Implementação do sistema silvipastoril pode diminuir custos de produção

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Daumildo Júnior | daumildo.junior@estadão.com

11/03/2024 - 08:00

Temperatura de superfície dos animais pode diminuir de 1ºC a 1,5ºC com árvores em pastagem. Foto: Juliana Sussai/Embrapa
Temperatura de superfície dos animais pode diminuir de 1ºC a 1,5ºC com árvores em pastagem. Foto: Juliana Sussai/Embrapa

Quem não gosta de uma sombra em um dia de calor? Uma pesquisa realizada pela unidade Pecuária Sudeste da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) apontou os benefícios para o bem-estar do gado de corte em sistema silvipastoril – uma das opções da ILPF (Integração Lavoura Pecuária Floresta) que integra forragem com árvores no mesmo terreno. 

O estudo foi conduzido pelo pesquisador Alexandre Rossetto Garcia e financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). O médico veterinário conta que sempre foi curioso por entender como o calor afeta os bovinos e isso motivou a pesquisa. 

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“Eu sou médico veterinário com especialização em biotecnologia da reprodução animal; Eu sempre fui muito curioso sobre a questão de quanto o estresse calórico pode impactar na produtividade dos animais, principalmente dos bovinos de corte e de leite”, conta Rossetto ao Agro Estadão.

Nos experimentos, foram utilizados 64 touros das raças nelore e canchim. Eles foram divididos em dois espaços: uma área com aproximadamente 15 hectares no sistema silvipastoril e a outra, de mesmo tamanho, só que a pleno sol, ou seja, sem a presença de árvores. Ambas localizadas lado a lado no município de São Carlos (SP), cujo clima é tropical de altitude. 

Árvores em pastagem reduzem temperatura de animais 

Além disso, a pesquisa traz algumas inovações em termos de experimentação, já que é a primeira vez que se utiliza termografia embarcada em aviões tripulados para monitorar a temperatura em áreas de pastagem. Esse acompanhamento indicou que o local sombreado tem em média 1ºC a menos de temperatura em relação à pastagem a pleno sol.

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“A média de abaixamento das temperaturas é de mais ou menos 1ºC. E isso está se mantendo constante em todos os experimentos que a gente faz aqui”, afirma o pesquisador. Ele explica também que essa redução de temperatura pode ser maior ou menor dependendo da arquitetura do sistema silvipastoril. 

Outro ponto importante analisado foi a radiação solar. Em locais com árvores, essa incidência de raios solares diminui em 50%, o que altera a temperatura da superfície dos animais (pele e pelo). 

Os touros de área sombreada tiveram uma redução na temperatura da superfície de 1ºC a 1,5ºC comparado aos touros que estavam expostos ao sol. Isso é causado principalmente pela radiação solar direta nos animais a pleno sol.

“Quanto maior é o acúmulo de energia térmica pelo animal, mais dificuldade ele tem para dissipar calor. Isso aumenta o mal-estar do animal e aumenta a quantidade de energia que ele tem que despender para dissipar calor, e essa energia deveria estar sendo utilizada para a produção de carne, ou de leite, se for um sistema de produção leiteira”, diz Rossetto.

O veterinário esclarece que a temperatura da pele e do pelo não é a mesma temperatura corpórea interna dos animais. A pesquisa mostra que quanto maior esse aquecimento da superfície, maior será a temperatura interna e, portanto, mais trabalhosa será a dissipação de calor. 

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Foto: Gisele Rosso/Embrapa

Sistema silvipastoril X sistema a pleno sol: menos sal, menos água e peso igual

A pesquisa também apresenta mudanças no comportamento dos animais. A frequência com que buscam bebedouros e cochos de mineralização é menor em áreas sombreadas. 

“Houve uma redução de 23% na busca de água nos animais que estavam dentro da ILPF. Não medimos o consumo, mas sim, quantas vezes eles foram ao bebedouro ao longo dos dias. Se ele está indo menos, eu posso pressupor que ele tá bebendo menos água, porque está tendo menor necessidade de ir ao bebedouro”, completa Rossetto, que aborda do efeito poupa-água com a adoção de árvores. 

Já as idas aos cochos de mineralização diminuíram 19% nos touros de locais sombreados. Isso afeta a sudorese, isto é, a produção de suor pelo corpo, que ajuda na regulação da temperatura corpórea. Quando há suor, há também perda de sais minerais e água.  

Outra observação foi quanto ao peso dos animais. Os bovinos no sistema silvipastoril são mais bioeficientes, ou seja, são melhores na conversão dos nutrientes da alimentação em carne. 

Isso porque a pastagem em áreas sombreadas têm um teor mais alto de proteínas, apesar de ter uma oferta de forragem até 30% menor do que em locais a pleno sol. Mesmo assim, os animais dos dois sistemas chegaram ao fim do experimento com pesos iguais. 

“A gente sabe que a produção de forragem em uma área sombreada é menor do que numa área não sombreada. Então, talvez em alguma época do ano, a capacidade de suporte numa área sombreada vai ser menor do que numa área não sombreada. Mesmo com menos oferta de pastagem na área sombreada ao longo de alguns meses, os touros finalizam o experimento com o mesmo peso vivo. Isso mostra para a gente que eles estão convertendo melhor. Isso é muito importante quando se trabalha em escala”, afirma o veterinário.

Benefícios da pecuária de corte em um sistema ILPF

Rossetto elenca os benefícios que o sistema silvipastoril apresentou em comparação ao sistema tradicional sem árvores na pastagem.

  • Menos estresse com calor: a pesquisa analisou o comportamento noturno dos animais e concluiu que os touros do sistema arborizado utilizavam mais a noite para o descanso e reposição hormonal. No sistema a pleno sol, os animais utilizavam o período noturno também para outras atividades como se alimentar, invertendo o ciclo desses animais, que são diurnos, e afeta no bem-estar deles.  
  • Menor custo de produção: com menos idas a cochos e bebedouros, o custo do manejo diário fica menor para o produtor. 
  • Custo de implantação diluído: fazer um sistema silvipastoril tem custos altos no primeiro momento. No entanto, com a redução do custo de produção e a venda dessa madeira posteriormente (integração com eucalipto, por exemplo) fazem com que a despesa seja diluída ao longo do tempo. Além disso, há linhas de financiamento diferenciadas, como o Renovagro dentro do Plano Safra (juros entre 7% e 8,5%, com prazos de 10 anos). 
  • Vantagem competitiva: com mercados mais exigentes, que olham para o bem-estar dos animais consumidos, produtores no sistema ILPF têm uma vantagem em relação aos demais e podem alcançar comércios que pagam mais por esse tipo de produto.

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