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Mulheres ampliam presença no agronegócio, mas ainda enfrentam barreiras para chegar à liderança

Trajetória de Graciela Mognol mostra mudanças na presença feminina no setor, ainda marcado pela predominância masculina, conforme aponta PwC

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Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com

08/03/2026 - 08:00

Agrônoma Graciela Mognol cresceu observando o trabalho da família nas lavoura de soja, milho e trigo no RS. Foto: Acervo Pessoal
Agrônoma Graciela Mognol cresceu observando o trabalho da família nas lavoura de soja, milho e trigo no RS. Foto: Acervo Pessoal

O cheiro da terra, o ritmo das safras e o movimento das máquinas sempre fizeram parte da vida de Graciela Mognol. Natural de Carazinho, no interior do Rio Grande do Sul, ela cresceu observando o trabalho do pai e dos tios na lavoura de soja, milho e trigo. 

Foi nesse ambiente que nasceu a paixão que mais tarde definiria a carreira dela. “Eu venho de uma família agrícola. Meu amor pela agricultura começou desde que eu era muito criança, vendo meu pai trabalhar na lavoura”, contou à reportagem. 

CONTEÚDO PATROCINADO

A escolha por cursar agronomia foi quase que natural. Formada pela Universidade de Passo Fundo (RS), Graciela construiu uma carreira de mais de duas décadas em multinacionais do setor. Hoje, ela ocupa o cargo de diretora de marketing da BASF.

Diferentemente dos dias atuais, em que a presença feminina no campo ganha cada vez mais notoriedade, quando a executiva começou sua carreira, o cenário era diferente. “Existiam muito poucas mulheres no agro, especialmente no campo. […] Como eu queria ser vendedora, queria ser gerente de vendas, de marketing, fui encontrando o meu espaço aos poucos”, lembra, relatando que um dos principais desafios foi justamente conquistar credibilidade em um ambiente tradicionalmente masculino.

A experiência de Graciela reflete um cenário que começa a mudar, mas ainda carrega marcas históricas de desigualdade de gênero no setor. Dados da pesquisa “Protagonismo e impacto: a presença das mulheres no agronegócio brasileiro”, realizada pela PwC e compartilhada com o Agro Estadão, indicam que o ambiente do agro ainda é fortemente masculino.

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De acordo com o levantamento, em 59% dos casos a tomada de decisão nas organizações do setor permanece sob responsabilidade dos homens. Apenas 17% das decisões são protagonizadas por mulheres, enquanto 22% das organizações apresentam equilíbrio entre os gêneros.

Apesar disso, o estudo comprova que a presença feminina vem crescendo e gerando impactos relevantes na forma como as empresas do agronegócio pensam em estratégia, inovação e gestão. Nesse contexto, a capacidade de resolver problemas aparece como a principal característica das habilidades associadas às mulheres no setor. Em seguida aparecem competências como capacidade analítica, visão crítica e habilidade de adaptação. 

Fonte: PwC Brasil

Inovação e visão estratégica

Para Mayra Theis, sócia e líder de agribusiness da PwC Brasil, ampliar a participação feminina no agronegócio não é apenas uma questão de equidade, mas também de competitividade. Segundo ela, a diversidade de perspectivas contribui diretamente para fortalecer a capacidade de inovação e a visão estratégica das organizações. “As mulheres atuam de forma consistente em diferentes níveis da cadeia produtiva, contribuindo para processos decisórios qualificados e ambientes de negócios diversos”, destaca.

Essa percepção também aparece na pesquisa. Muitos dos entrevistados apontam que as mulheres contribuem de forma significativa para dois pilares considerados fundamentais para o futuro do agronegócio: inovação e visão estratégica. Na prática, isso significa que a presença feminina tende a ampliar a capacidade das organizações de enxergar novos caminhos, identificar riscos e desenvolver soluções para desafios cada vez mais complexos.

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A própria trajetória de Graciela ajuda a ilustrar essa transformação. Em determinado momento da carreira, ela decidiu experimentar um caminho fora do agro. Em 2014, aceitou o desafio de atuar em outro setor e passou a trabalhar na área de marketing no segmento da construção civil.

A experiência trouxe novos aprendizados. “Eu acabei migrando para um setor muito masculino e tive desafios semelhantes. Mas depois de alguns anos percebi que o agro é realmente onde eu quero estar”, relata. 

Ao voltar para o setor, Graciela acompanhou de perto, ao longo dos últimos anos, a evolução da participação feminina no setor. Segundo ela, mudanças culturais e organizacionais têm contribuído para ampliar oportunidades. Programas de diversidade, iniciativas de mentoria e políticas de inclusão passaram a fazer parte da estratégia de muitas empresas do agro. “Mais mulheres passaram a se interessar pela agronomia e pelo agronegócio”, afirma. 

Equidade em cargos de liderança

Ela destaca ainda um fator que considera fundamental para acelerar essa transformação: o apoio entre mulheres. “Hoje vemos cada vez mais mulheres ajudando outras mulheres a crescer na carreira. Isso faz muita diferença.”

Apesar dos avanços, ela reconhece que ainda há um longo caminho pela frente, especialmente quando se fala em posições de liderança. A pesquisa da PwC aponta justamente para essa nova etapa do debate: a evolução das percepções sobre equidade de gênero dentro do agronegócio brasileiro.

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Embora o setor ainda apresente forte atuação masculina em posições de decisão, cresce o reconhecimento de que ampliar a participação feminina é essencial para o desenvolvimento do ecossistema agro. “Existem relevantes oportunidades para ampliar a presença feminina em posições decisórias de forma efetiva, o que representa não apenas o fortalecimento da governança, da competitividade e da sustentabilidade do agronegócio, mas também um fator de avanço social, capaz de provocar mudanças estruturais”, afirma a líder de agribusiness da PwC Brasil. 

Por isso, Graciela acredita que, pensando no futuro, é preciso continuar elevando a presença feminina não somente nas propriedades rurais, como também em posições de lideranças das companhias. “Acredito muito no poder do trabalho colaborativo entre homens e mulheres, com diferentes experiências e formações. Afinal, performance não é feita de pessoas iguais, é justamente a diversidade que constrói equipes mais fortes e tenho certeza de que muitas mulheres compartilham esse mesmo propósito”, diz.

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