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A história do pecuarista que criou seu próprio frigorífico de carnes premium

Da infância no curral ao pioneirismo em carnes nobres no Brasil: conheça a história de Valdomiro Poliselli Júnior, fundador da VPJ Alimentos

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Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com | Atualizada em 02/01/2026

28/12/2025 - 08:00

Valdomiro cresceu na roça e, desde criança, tem forte ligação com o gado. Foto: VPJ/Divulgação
Valdomiro cresceu na roça e, desde criança, tem forte ligação com o gado. Foto: VPJ/Divulgação

“Eu sempre brinco que nasci dentro de um curral”, relata à reportagem Valdomiro Poliselli Júnior, fundador da VPJ Alimentos. Hoje, o grupo é um dos nomes mais relevantes da cadeia de carnes premium do Brasil. 

A metáfora utilizada pelo pecuarista e empresário é quase literal. Ao Agro Estadão, ele conta que, durante a infância, sua casa ficava a menos de 20 metros do curral da família, em uma pequena cidade do interior de São Paulo. Filho e neto de produtores rurais, ele cresceu em meio ao cheiro do café recém-colhido e ao leite tirado de madrugada. 

CONTEÚDO PATROCINADO

Aos dois anos de idade, um coice de bezerro quase mudou o rumo dessa história. Foram sete dias de internação, mas também a confirmação de que a vida de Valdomiro estaria totalmente ligada ao gado. “Então, assim, a nossa história é toda ligada a esse segmento. E eu sempre fui muito focado em seleção, cruzamento e em buscar novas tecnologias de melhoramento. E, assim, eu fui me desenvolvendo”, lembra. 

Esse gosto pelo melhoramento genético e pela criação diferenciada foi o que moveu Valdomiro desde cedo. Ele fez colégio agrícola em Jaboticabal (SP) e depois estudou Administração na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-SC). Com o tempo, ambas as formações o ajudaram a unir técnica de gestão com o saber prático do campo.

Aposta em Goiás e nos primeiros cruzamentos

Em 1995, Valdomiro decidiu ampliar horizontes para além das fronteiras de São Paulo. Comprou terras em Nova Crixás (GO) e iniciou um projeto ambicioso de pecuária intensiva, introduzindo o cruzamento de raças. Na virada dos anos 2000, ele começou um trabalho com a raça Angus de pelagem vermelha, introduzida no Brasil décadas antes. Paralelamente, também iniciou um trabalho de cruzamento com Zebu.

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A proposta era ousada: unir a rusticidade do gado zebuíno à maciez e marmoreio do Angus. O projeto envolvia todas as etapas — da genética ao confinamento, passando pela recria e engorda. “Foi um dos primeiros trabalhos completos de cruzamento no Brasil. Não só criar, mas controlar a cadeia inteira”, disse. Segundo ele, o olhar de fazendeiro lhe deu a base para o que viria depois: a fundação do frigorífico. 

Nasce o frigorífico

O ano era 2004. A VPJ começou, então, a abater seus primeiros animais cruzados. A carne, vendida ainda com osso, passou a chamar a atenção de restaurantes e consumidores. Assim, a recompra do produto era imediata. “A pessoa experimentava e logo queria mais”, relata. 

Quase como uma sinergia natural, um ano antes, tinha sido criado o Programa Carne Angus Certificada da Associação Brasileira de Angus — sistema que certifica a carne de animais Angus e suas cruzas, focando na qualidade, maciez e marmoreio, com o objetivo de valorizar o produtor, garantir um produto superior ao consumidor e atender mercados exigentes. Então, percebendo a demanda crescente, Valdomiro deu um passo que mudaria sua história: adquiriu uma planta frigorífica em Pirassununga (SP).

Curiosamente, o frigorífico não estava nos planos iniciais. “O frigorífico foi por necessidade. A gente começou a ver que o mercado era promissor e que, para agregar valor de verdade, precisaríamos controlar também a desossa, o porcionamento e a embalagem. Então, entramos na indústria”, recorda.

Frigorífico em Pirassununga (SP) permitiu agregar valor à carne. Foto: VPJ/Divulgação

Mas não foi um início fácil. Na década de 2000, os restaurantes premium brasileiros ainda dependiam fortemente da carne argentina e uruguaia, e o produto nacional ainda tinha a fama de ter uma qualidade inferior. Porém, com disciplina na genética, seleção criteriosa e controle de qualidade rígido, a marca VPJ conseguiu convencer chefs e varejistas de que o Brasil pode produzir carne no mesmo nível — ou até superior — às importadas.

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Um dos pontos de virada, recorda Valdomiro, foi a entrada no Empório Santa Luzia, em São Paulo — considerado referência nacional no consumo de alimentos gourmet. A vitrine abriu portas para dezenas de empórios, supermercados e restaurantes de alto padrão em todo o país. “Hoje, a VPJ está presente nos 27 estados brasileiros, com um portfólio de mais de mil produtos, distribuídos em 150 endereços de empórios, supermercados, hamburguerias e casas de carnes especializadas”, salienta. 

Carne premium além do boi

A busca por carne de qualidade, no entanto, não parou na raça Angus. Em busca de diferenciação e de um portfólio mais amplo, a VPJ incorporou duas novas proteínas ao negócio. Em 2005, passou a trabalhar também com o cordeiro Dorper, uma raça de ovelha identificada pela cabeça preta e reconhecida pela precocidade e pelo marmoreio da carne. Já em 2015, foi a vez do suíno Duroc, uma variedade de pelagem vermelha, considerada a “raça Angus da suinocultura”.

As escolhas, aponta o pecuarista, seguiram a mesma lógica da criação de bovinos: animais diferenciados, genéticas selecionadas, abate em padrões mais exigentes que o mercado comum. “Nosso foco sempre foi oferecer algo especial. Enquanto o mercado abate suínos de 100 quilos, nós abatemos com 140 a 150 quilos. Isso custa mais, mas entrega um produto muito acima da média”, disse. Além disso, a VPJ adota somente o abate de fêmeas na produção das carnes. O padrão é seguido pela qualidade da carne produzida. 

Para Valdomiro, a qualidade da carne começa na genética. À reportagem, ele conta que o trabalho do Grupo VPJ é orientado por três pilares:

  • Genética: seleção rigorosa de raças, acasalamentos planejados, uso de DNA, ultrassonografia e avaliação genômica. O foco é marmoreio, ganho de peso acelerado e peças maiores;
  • Manejo: pastos sombreados, currais antiestresse, manejo cuidadoso, adubação e reforma constantes;
  • Confinamento de precisão: uso de ração total (volumoso + concentrado), confinamento coberto e mensuração detalhada de desempenho.

Esse tripé garante que apenas animais de alta performance cheguem ao frigorífico. “A regra é clara: se não atender ao padrão, não abate”, afirma.  

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Abate para o mercado premium é feito a partir de padrões diferenciados de qualidade. Foto: VPJ/Divulgação

Reconhecimento e legado

Com o trabalho desenvolvido pela VPJ ao longo das últimas décadas, a companhia conquistou prêmios nacionais e internacionais, tanto por sua carne quanto pela valorização de seus touros em leilões anuais. Este ano, por exemplo, 16 touros VPJ já estavam contratados por multinacionais antes mesmo do tradicional leilão da companhia acontecer.

Mas, para Valdomiro, o maior reconhecimento está além dos números. “O que mais me orgulha é o reconhecimento da qualidade. Quando um cliente, seja uma dona de casa, seja um chef estrelado, percebe a diferença da nossa carne, isso nos dá vontade de continuar”, relata. 

E dar sequência a esse trabalho é a palavra de ordem na companhia. Desde 2022, a empresa intensificou um movimento para verticalizar ainda mais sua cadeia. Com touros VPJ distribuídos em oito centrais de coleta de sêmen, a estratégia é rastrear bezerros gerados a partir dessa genética, recomprar esses animais e destiná-los ao abate no frigorífico.

“Nosso objetivo é, em cinco anos, abater 100% de animais de genética VPJ. Isso será a consagração de um ciclo de 30 anos de trabalho: da genética à mesa do consumidor”, diz Valdomiro, o pecuarista e empresário que acredita na filosofia de que produzir carne premium no país é possível desde que se tenha disciplina, visão e paixão pelo gado.

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