Agricultura
Produtores criticam demora no crédito para renegociação de dívidas
Endividados e sem crédito, produtores do RS vão plantar menos; Farsul confirma áreas sem preparo mesmo no início de safra

De acordo com projeção da Emater/RS-Ascar, o Rio Grande do Sul deve cultivar uma área de soja de 6,74 milhões de hectares, redução de 0,80% na área plantada em relação à safra passada. Ainda assim, os impactos da falta de crédito para a compra de insumos sobre a produtividade só serão conhecidos ao longo do desenvolvimento das lavouras. Isso porque, os produtores já relatam dificuldades para garantir o investimento mínimo necessário no plantio e até mesmo desistência dos trabalhos no campo.
Em Itaqui, na fronteira oeste do RS, o agricultor Arno Lausch, de 58 anos, cultiva 2,3 mil hectares com arroz, soja e trigo, mas afirma que só tem adubo para 20% da área. “Eu vou acabar plantando sem adubo. O governo fala que vai prorrogar, que vai ter ajuda, mas nada aparece. Nós só precisamos de um alongamento das dívidas. Não estamos pedindo perdão. A dívida é nossa. Mas ninguém disse que viriam tantas frustrações de colheita.”
A crise, segundo ele, também afeta os filhos, de 22 e 24 anos. “Eles têm vontade de trabalhar, mas ficam desanimados. É doloroso. Os bancos não perdoam nada. Ou paga, ou eles carregam o equipamento. A gente deu um jeito, por enquanto, pegando dinheiro com juros mais altos.”
Segundo o produtor, qualquer novo pedido de financiamento está sendo barrado por falta de garantias. “Não tem mais garantia real. Eles só aceitam imóveis. As áreas que tínhamos já estão comprometidas. Nós temos quatro safras de verão frustradas: três estiagens e uma chuva em excesso na hora da colheita. Queda de preço, custo elevado na manutenção de maquinário, combustível, mão de obra. É tudo negativo”, contou.
Outro agricultor gaúcho, de 43 anos, que pediu para não ser identificado, afirma que não plantará toda a área que havia previsto para a safra 2025/2026. Dos 500 hectares arrendados para plantio de soja na fronteira oeste gaúcha, decidiu ficar com apenas 100. “Vou liberar o resto para o dono das terras. Tenho uma dívida de uns R$ 2 milhões em atraso já. É uma máquina financiada que ninguém sabe como vai pagar.”
O produtor relata pesaroso que os bancos não estão liberando crédito. “Eles falam em parcelar, mas o juro é alto. Banco não perde nunca, quem perde é o produtor. A gente vai tapando os furos, vende um boi aqui, paga ali.” O produtor conta que também reduziu o número de funcionários. “Eu tinha três empregados. Agora tô só com dois”.
Também na região fronteiriça, em São Gabriel, o produtor Jefferson Andres relata situação semelhante. Segundo ele, o Banco do Brasil não está aprovando propostas nem liberando recursos para custeio. “Aqui só tem recurso com juros livres acima de 21% ao ano. E mesmo assim, só com garantia real fundiária, que é mais complicada que hipoteca”, contou.

Jefferson afirma que as propostas estão paradas. “Propostas encaminhadas com tudo certo, garantias, prorrogações feitas, nada aprovado. A gente pergunta como está a medida provisória, se está andando, e eles não respondem nada.” Como o Agro Estadão mostrou, o BNDES autorizou a abertura de protocolos de financiamentos da linha de crédito para renegociação de dívidas rurais somente a partir de 15 de outubro, dependendo ainda da disponibilização dos recursos pela União.
Sem acesso a crédito, ele decidiu iniciar o plantio sem uso de fertilizantes. “Eu precisava de algo para comprar adubo, mas do jeito que está, não vou botar. Vou plantar sem adubo. É um descaso total.”
Farsul aponta crise de crédito e alta na inadimplência
Para o economista-chefe da Federação de Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, o atraso na renegociação de dívidas e a falta de crédito são os principais obstáculos no campo. “É bom lembrar que nós já estamos com o milho quase todo plantado, quem podia plantar já plantou. O arroz está sendo semeado e, em uns 15 dias, a soja vai tomar corpo. O que nos assusta é ver áreas que nem foram preparadas ainda. Talvez consigamos plantar dentro da janela, mas para muitos produtores será bastante desafiador”, afirmou.
O especialista observa haver uma queda expressiva na liberação de recursos. “Nos dois primeiros meses do novo Plano Safra, julho e agosto, houve uma redução de 17% em relação ao ano passado. E se eu comparar com o mesmo período de 2022, a queda chega a 36%. Há uma crise de crédito instalada no Brasil.”
Segundo ele, as exigências bancárias agravam o quadro. “Tem gente que não está pegando nada e tem gente que está pegando bem abaixo do que precisa. Os bancos estão pedindo garantias reais, como terras, dificultando para quem é arrendatário. Isso gera inadimplência, porque o produtor, sem acesso a crédito, vende o que tem para comprar insumos e continuar plantando.”
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