Inovação
Embrapa desenvolve cultivar de trigo para o Cerrado voltada à confeitaria
Entidade de pesquisa também deve lançar outras duas novas variedades, com resistência à brusone e maior produtividade
Daumildo Júnior* | Cristalina (GO) | daumildo.junior@estadao.com
17/07/2024 - 08:30

Em São Paulo, bolacha. No Rio de Janeiro, biscoito. Bolacha ou biscoito, o produto tem como uma das matérias primas a farinha de trigo. Pensando nisso, a unidade Trigo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está desenvolvendo uma cultivar de trigo mais adaptada à indústria de confeitaria. Além disso, o novo produto tem o diferencial de ser voltado às condições de clima e solo do Cerrado.
Para o pesquisador responsável pelo desenvolvimento da nova variedade, Ricardo Lima de Castro, essa pode ser uma nova oportunidade para produtores do país, já que a pesquisa partiu de uma demanda da iniciativa privada. Isso indica um novo nicho de mercado que deve ganhar peso na região central do país.
“A gente sabe que a principal demanda do mercado brasileiro é para panificação, mas nós temos um importante nicho de mercado para confeitaria e o Brasil tem se destacado como um grande consumidor de biscoito. E se o trigo tiver essas características de qualidade que atenda esse perfil, muitas vezes ele tem até um adicional no valor dele”, comenta Castro ao Agro Estadão.
O pesquisador também conta que a nova variedade é uma seleção da cultivar BR 264, desenvolvida pela Embrapa para o Cerrado e que tem expressado uma produtividade considerável. “A gente não tem até hoje cultivares que foram desenvolvidas com o perfil de biscoito adaptado a essa condição do cerrado, do clima do cerrado, podendo se estender até algumas realidades do Nordeste. […] Então, foi identificado e selecionado o material também com esse potencial produtivo da 264, mas com um perfil qualitativo que atende essa demanda de trigo para confeitaria, que muda um pouco”.
O que muda de uma cultivar para outra?
O trigo oferece propriedades diferentes que são melhores ou piores dependendo da finalidade do preparo. Por exemplo, um trigo com mais força de glúten (W) – acima de 220, é mais indicado para a produção de pães e bolos, que precisam crescer. Já no caso dos biscoitos, não há essa necessidade. Por isso, a nova cultivar deve produzir um grão com força de glúten entre W 160 e W 180.
Outro fator é o que se chama grão mole ou grão duro. Isso, basicamente, implica no esfarelamento do trigo. Um grão mais mole, se esfarela mais fácil do que um grão duro. Nesse ponto, a nova cultivar será de um grão mole, diferente da variedade de origem, a BR 264.
Além disso, o grau de absorção de água também influencia no produto final, no caso do biscoito. Como a ideia é que seja leve e seco, o trigo desenvolvido pela Embrapa também terá um grau de absorção de água inferior aos demais.
Na lavoura, Castro também aponta outras características. “É um tipo de planta mais baixa, com o colmo mais firme, além de ser mais tolerante ao acamamento”, completa. Apesar disso, até então, a nova cultivar não deve ter diferenças no manejo, seja em área irrigada ou de sequeiro.
A expectativa da Embrapa é de que a pesquisa seja apresentada oficialmente no final do ano.

Embrapa também deve lançar outras duas nova cultivares para trigo
Outra novidade que o pesquisador adiantou ao Agro Estadão é o lançamento de duas novas variedades de trigo. Essas são voltadas para o mercado em geral.
A primeira foi desenvolvida em parceria com a Embrapa Cerrado. A nova cultivar é direcionada ao cultivo irrigado em áreas do Cerrado e tem potencial para superar a produtividade da BR 264. Segundo a Embrapa, ainda não há como mensurar a produtividade exata da novidade. Mas, em termos de comparação, a BR 264 bateu recorde de produtividade diária em uma fazenda de Cristalina (GO): em 2021, o produtor Paulo Bonato colheu 160,5 sacas por hectare na área irrigada.
Outro lançamento que deve acontecer em breve é uma variedade com resistência à brusone, uma doença fúngica e um dos principais problemas das lavouras de trigo. A nova cultivar passou por um processo de melhoramento que transloca uma parte genética de uma espécie ancestral e silvestre do trigo para a outra domesticada. Isso permite com que a nova cultivar seja capaz de resistir ao fungo. É a primeira cultivar de trigo da Embrapa que conta com essa tecnologia e é voltada para o cultivo sequeiro.
*Jornalista participou do dia de campo a convite da Embrapa Trigo
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