Economia
Saída de Joe Biden da disputa eleitoral dos EUA movimenta o mercado internacional; entenda os reflexos para o Brasil
Sem Joe Biden, especialistas analisam cenários com Trump e Kamala Harris na Casa Branca; como ficam as relações dos EUA com China e Brasil?
Rafael Bruno | São Paulo | rafael.bruno@estadao.com
22/07/2024 - 18:01

A perspectiva de um novo fôlego na campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos mexeu com a abertura dos mercados globais neste início de semana. Após o anúncio da desistência da candidatura de Joe Biden, neste domingo, 21, a segunda-feira sinalizou alta nos futuros de Nova Iorque e bolsas europeias, segundo a B3. No Brasil, o dólar foi cotado a R$ 5,58, um recuo de 0,30% ainda pela manhã.
A desistência de Joe Biden não chega a ser uma surpresa para os operadores do mercado financeiro, tendo em vista a pressão recente sobre o atual presidente. Com um mau desempenho em um debate político realizado em junho, Joe Biden vinha recebendo críticas, principalmente da oposição, que levantou dúvidas quanto à capacidade física e mental de comandar o país por mais quatro anos.
Na carta divulgada nas redes sociais, Biden afirma ter tomado a decisão que considera ser a melhor para o Partido Democrata e para o país. E fez questão de demonstrar apoio à Kamala Harris, atual vice-presidente dos Estados Unidos.
“Minha primeira decisão como candidato do partido em 2020 foi escolher Kamala Harris como minha vice-presidente. E foi a melhor decisão que tomei. Hoje quero oferecer todo o meu apoio e endosso para que Kamala seja a indicada do nosso partido este ano. Democratas – é hora de nos unirmos e derrotar Trump”, escreveu em uma publicação no X (antigo Twitter).
Mas o nome de Kamala para substituir Biden na corrida à Casa Branca ainda precisa ser aprovado durante a Convenção Nacional Democrata, marcada para os dias 19 e 22 de agosto em Chicago.
O que a saída de Biden provoca no cenário econômico mundial
Um novo nome na disputa pela Casa Branca diminui a percepção de “uma vitória quase certa” de Donald Trump, candidato pelo Partido Republicano, fato que vinha pressionando as expectativas de inflação dos EUA e impulsionando o dólar frente a outras moedas, principalmente de países emergentes.
Este cenário econômico resulta da influência de promessas do ex-presidente como cortar impostos internos e aumentar a taxação para produtos importados, sem contar num possível acirramento com a China, que pode ter efeitos sobre demais economias.
O professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA USP), Celso Grisi, comenta que a desistência de Joe Biden é bem vista internacionalmente, de um modo geral.
“A extrema-direita assusta o mundo, é preciso lembrar que, embora os EUA tenham essa grande massa de eleitores favoráveis ao Trump, a política americana [quase sempre] foi uma política de importação, financiando o resto do mundo, ela sustentou as políticas exportadoras da Alemanha, do Japão, da Coreia do Sul e da própria China,” afirma ao Agro Estadão.
Grisi lembra que Trump foi eleito para seu primeiro mandato com um discurso contrário a essa política de importação que, de fato, pode afetar os índices de crescimento de um país. No entanto, o professor explica que o ex-presidente partiu para um radicalismo não conveniente para se ter boas relações internacionais.
“Uma política [só] de importação não é algo bom para o país, mas vamos imaginar que um presidente democrata também deve pensar em um processo de reindustrialização americana, sobretudo na alta tecnologia, que poderia dar à população empregos e rendas sem contudo trazer as dificuldades que o Trump traz em termos de imigração e outras coisas”, comenta o professor da USP que reitera que os economistas estão à espera de um candidato democrata que possa “acabar com esse embate técnico e colocar os EUA numa rota de democracia”.
À Kamala Harris, um ponto de interrogação
Entre os desafios de Harris, caso seja confirmada pelo Partido Democrata como candidata, estão a popularidade e afinidade com os eleitores, além de mostrar habilidades políticas para conduzir o país.
“Ela nunca exerceu uma atividade de iniciativa privada, é uma burocrata e isso nunca é bem visto pela população americana”, argumenta Celso Grisi ao analisar as atividades profissionais de Kamala, ex-promotora de justiça.
“Para muitos estadunidenses ela não passa de uma regulamentadora, de uma fiscalizadora em sua atuação profissional […] mas é uma boa candidata, melhor que continuar com o Biden”, conclui o professor.
A falta de clareza quanto ao perfil de Harris também é acompanhada pelo professor do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro), Felippe Serigati. “Ainda é um belo ponto de interrogação. A gente conhece muito pouco dela enquanto Poder Executivo […] Ela foi uma vice-presidente bem discreta, sem um comportamento de muito destaque”, diz o professor.
Na percepção do sócio-diretor da Markestrat, José Carlos de Lima Júnior, o tema “desenvolvimento econômico em harmonia com o meio ambiente” deve voltar a ter protagonismo no debate americano, mas posicionado em lados opostos.
“Se Trump coloca as pautas ambientais como responsáveis pelos atuais custos inflacionários, devendo ser revistas, a candidata Kamala provavelmente deverá propor a manutenção do equilíbrio entre produção e recursos naturais”, diz Lima Júnior.
Kamala, Trump, China e Brasil
Os especialistas ouvidos pelo Agro Estadão concordam sobre os impactos para os negócios envolvendo Brasil e China – não deve haver uma divergência significativa em relação à administração Biden. Mas consideram fundamental acompanhar os discursos de Kamala Harris sobre política externa, especialmente em relação à China e à América Latina.
O pesquisador da FGV Agro, Felippe Serigati, pondera que as chances de Kamala seguir a linha de Joe Biden são grandes. “Biden teve posturas bastante contundentes contra a China – não exatamente aquela guerra comercial horizontal via tarifas como o Trump fez – mas o Biden adotou uma política de restringir o comércio entre empresas americanas e instituições chinesas”, comenta Serigati.
Alexandre Coelho, professor de relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), diz que a tendência é de poucas mudanças.
“A política externa deve ser semelhante à de Biden, forte, mas diferente da abordagem ainda mais agressiva que pode ser adotada por uma administração Trump”, comenta Coelho. Ele não descarta, porém, que a nova candidata adote uma postura mais dura contra a China durante a campanha, apresentando-se, figurativamente, como uma “republicana moderada” em relação ao país asiático.
“Neste cenário, podemos esperar uma política ainda mais agressiva, mas ainda assim menos belicosa do que sob uma administração Trump, pelo menos, no âmbito da retórica”, conclui Coelho.
Conforme já abordado pelo Agro Estadão recentemente, o retorno de Trump à Casa Branca acende um alerta internacional, sobretudo dos chineses, uma vez que ele adotou uma postura mais agressiva contra a China, impondo tarifas e intensificando a guerra comercial.
“Caso ele retorne ao poder, espera-se um endurecimento das políticas comerciais dos EUA contra a China, levando a uma maior incerteza e volatilidade nas relações bilaterais”, comenta Coelho.
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