Economia
Israel x Irã: como o conflito afeta o agro do Brasil?
Escalada militar no Oriente Médio pode elevar os custos de insumos agrícolas, além de gerar incerteza sobre exportações para países islâmicos
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com - Atualizada às 19h55
13/06/2025 - 14:32

O ataque de Israel ao Irã causou forte repercussão nos mercados internacionais, deixando o agronegócio brasileiro em alerta. Como reação imediata ao bombardeio de alvos iranianos — incluindo a usina nuclear de Natanz, a maior do Irã, e bases aéreas — o preço do petróleo disparou, registrando alta superior a 7% logo no início do dia.
Esse movimento de valorização se refletiu também nas cotações de commodities agrícolas. Na sexta-feira, 13, o óleo de soja, trigo e óleo de palma, subiram mais de 2% nas bolsas internacionais. Produtos como suco de laranja, aveia, borracha e óleo de canola também apresentaram ganhos superiores a 1%.
Em entrevista ao Agro Estadão, o professor João Alfredo Nyegray, especialista em Negócios Internacionais e Geopolítica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), explicou que o conflito Israel x Irã representa um risco real para as cadeias globais de suprimentos, especialmente no que diz respeito à segurança alimentar e à logística internacional.
Contudo, há um impacto direto sobre o agronegócio brasileiro. “O agro é um dos motores da economia nacional e, justamente por isso, está muito exposto a choques como esse. O alerta principal é duplo: risco para o fornecimento de insumos e dificuldade de entrega de produtos, como milho e carnes halal, a mercados estratégicos como o Oriente Médio”, sinaliza Nyegray.
No aspecto de importação, o alerta com o conflito Israel x Irã está na compra de insumos. Isso ocorre porque o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes utilizados nas produções agropecuárias e boa parte desse volume vem de países direta ou indiretamente afetados pela tensão no Golfo Pérsico. Além disso, o Irã desponta como um importante fornecedor de ureia e de derivados petroquímicos fundamentais para a indústria de fertilizantes.
Segundo Nyegray, se houver uma retaliação iraniana — como o bloqueio do Estreito de Ormuz, que conecta o Golfo Pérsico com o Golfo de Omã e por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo — ou sanções internacionais contra Teerã, o fornecimento desses insumos pode ser comprometido. “Com a redução da oferta e o encarecimento do frete, o preço do fertilizante pode subir rapidamente. E isso pressiona os custos de produção no Brasil”, alerta o professor.
A avaliação é compartilhada por Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio. Ele avalia que, no curto prazo, o efeito da alta do petróleo recai sobre os custos da produção agrícola porque os fertilizantes e muitos defensivos agrícolas têm como base o petróleo e o gás natural.
“Em um primeiro momento, o impacto mais imediato recai sobre o petróleo, com reflexos diretos nos custos de produção agrícola de curto prazo. Já em um horizonte de médio prazo, caso o conflito persista, o efeito se estende também aos preços de fertilizantes e defensivos agrícolas”, afirma. Segundo ele, entre 30% e 40% dos fertilizantes para a próxima safra precisam ser comprados em algumas regiões do país — um ritmo de negócios lentos, como noticiado pelo Agro Estadão.
Além dos insumos, o petróleo mais caro também pressiona a valorização de outras commodities agrícolas, como óleo de soja, algodão e açúcar. “O encarecimento do petróleo amplia o espaço para valorização do óleo de soja, que hoje é uma das principais matérias-primas para biodiesel globalmente. Isso também influencia os óleos vegetais concorrentes, como o de palma, e se estende a outras cadeias, como a do algodão, que compete com fibras sintéticas derivadas do petróleo”, explica Cogo.
Exportações ameaçadas pelo conflito Israel x Irã
No outro extremo da cadeia, o escoamento de produtos brasileiros para países islâmicos também está em xeque. O Oriente Médio e o Norte da África são mercados estratégicos para as proteínas animais do Brasil.
Segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal, no ano passado, 30,59% da carne de frango exportada pelo Brasil teve como destino países do Oriente Médio, enquanto a África representou 18,70% do mercado.
Carlos Cogo lembra ainda que, o Irã é o maior importador de milho brasileiro e o quarto maior importador de soja. Assim, uma escalada do conflito ou ações grupo extremistas aliadas ao regime iraniano — como Hezbollah (Líbano), Hamas (Palestina), ou forças no Iraque e Iêmen — podem desestabilizar politicamente a região.
Isso desencadearia um retrocesso da demanda, dificuldades logísticas e até boicotes por motivos religiosos ou geopolíticos. “É um xadrez complexo. Se o Irã ou seus aliados dificultarem o tráfego marítimo ou atacarem navios mercantes, haverá restrições logísticas severas. Por isso, o frete marítimo já está subindo rapidamente hoje”, salienta Nyegray.
Pressão inflacionária
O aumento do preço do petróleo afeta diretamente o custo do diesel no Brasil, encarecendo o transporte interno de grãos e alimentos. A dependência do modal rodoviário agrava o problema. “Isso impacta o escoamento da produção agrícola de estados como Mato Grosso, Goiás e Paraná até os portos de Santos e Paranaguá. Também eleva o custo da distribuição de alimentos dentro do país, gerando efeitos inflacionários”, diz o professor.
Ele explica ainda que há alternativas logísticas para contornar o Canal de Suez ou o Estreito de Ormuz, como a rota pelo Cabo da Boa Esperança, na África — o ‘caminho de Vasco da Gama’ —, mas isso representa acréscimo significativo no tempo e no custo do transporte marítimo.
Além disso, a volatilidade cambial tende a se intensificar, o que já foi verificado na manhã desta sexta: o dólar, que na semana atingiu o menor patamar de fechamento deste ano (R$ 5,53), voltou a subir, encostando em R$ 5,60. Esse comportamento tem impacto direto no agronegócio. “Um câmbio mais alto pesa sobre os custos dos insumos importados, como fertilizantes e defensivos. Por outro lado, melhora a rentabilidade das exportações. É um efeito de mão dupla que exige atenção constante do produtor rural”, avalia Cogo.
Outro efeito colateral do conflito é o risco de desabastecimento e inflação nos mercados importadores de alimentos brasileiros. Países como Egito, Indonésia, Arábia Saudita e o próprio Irã são grandes compradores de trigo, milho, frango e açúcar do Brasil. Se as rotas comerciais forem afetadas, esses países podem enfrentar crises alimentares internas, elevando ainda mais a tensão geopolítica.
Atenção às oportunidades de negócios
Diante da volatilidade, o sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio recomenda que os produtores fiquem atentos às janelas de oportunidade para travar preços atrativos de commodities. Com o conflito, há uma tendência de alta nas cotações da soja, milho, algodão e açúcar. “Olhando sob uma perspectiva mais estratégica, esse cenário pode ser visto como uma oportunidade. É o momento para travar preços, seja de algodão, soja ou outras commodities que estão reagindo a essa volatilidade. É, sim, uma chance, ainda que de curto prazo”, destaca.
Ele alerta, no entanto, que é necessário acompanhar os desdobramentos do conflito para se ter conhecimento mais concreto dos efeitos no mercado agrícola.
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