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Economia

Adoção de salvaguarda foi 'decisão difícil' para a China, avalia especialista

Larissa Wachholz diz que cotas e tarifas resultam de pressão interna e da busca por acomodar o setor local

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Broadcast Agro

02/01/2026 - 14:13

Foto: Adobe Stock
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A adoção de cotas e tarifas adicionais pela China sobre a importação de carne bovina, que passou a vigorar em 1º de janeiro, foi uma decisão difícil, tomada sob forte pressão interna de produtores e governos provinciais, e não deve ser interpretada como uma ação direcionada especificamente contra o Brasil.

A avaliação é da sócia-diretora da Vallya Agro, Larissa Wachholz, especialista em China, em entrevista ao Broadcast Agro. Segundo ela, a medida reflete um processo complexo de acomodação de interesses dentro do próprio país asiático, diante do avanço das importações e da insatisfação de segmentos da cadeia produtiva local.

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O governo chinês anunciou no último dia de 2025 a adoção de medidas de salvaguarda contra a carne bovina importada, com cotas por país e tarifa adicional de 55% sobre os volumes que excederem esses limites. As regras valerão até 31 de dezembro de 2028. O Brasil, principal fornecedor da proteína ao mercado chinês, terá uma cota inicial de 1,106 milhão de toneladas sem tarifa extra em 2026, volume inferior ao já exportado em 2025, quando os embarques somaram 1,499 milhão de toneladas até novembro. Outros grandes exportadores, como Argentina, Uruguai, Austrália, Estados Unidos e Nova Zelândia, também foram atingidos pelas restrições.

Na avaliação de Larissa, a salvaguarda não é uma resposta ao Brasil especificamente, mas aos efeitos do crescimento das importações sobre os produtores chineses, sobretudo em províncias mais dependentes da produção local. “Os principais exportadores de carne bovina do mundo estão sendo afetados de forma conjunta. Isso é, na minha visão, uma reação à demanda dos produtores chineses, especialmente das províncias, com apoio das autoridades locais”, afirmou.

Ela destaca que o fato de o Brasil ser hoje o maior exportador mundial de carne bovina evidencia a competitividade do País, mas também amplia sua exposição a esse tipo de instrumento comercial. “Somos extremamente competitivos. Pensando no médio e longo prazo, a questão é como lidar com esse tipo de situação”, disse.

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Para a especialista, uma das principais respostas estratégicas passa pelo adensamento da relação bilateral, indo além da simples troca comercial. Larissa defende o aumento de investimentos cruzados, com empresas brasileiras ampliando sua presença na China e companhias chinesas investindo mais no Brasil, sobretudo em projetos voltados à agregação de valor. “Parcerias com investimento direto podem permitir o desenvolvimento de produtos que cheguem à China com maior valor agregado, dentro do padrão de gosto e preferência do consumidor chinês”, afirmou.

Segundo ela, esse processo tende a ser mais eficiente quando há participação direta de parceiros chineses nos negócios. “Ter sócios chineses inseridos no negócio facilita muito a adaptação ao mercado local e à sua complexidade”, disse.

A executiva também ressaltou que, apesar de 2025 ter sido um ano marcado por pressões tarifárias no comércio global – intensificadas por mudanças na política comercial dos Estados Unidos -, a China não parecia inclinada, inicialmente, a adotar medidas protecionistas. “Não era um bom momento para isso. Por isso, tudo indica que foi um processo interno difícil, de tentativa de atender diferentes grupos de interesse”, avaliou.

Ela lembrou que, mesmo com a investigação de salvaguarda em curso, as importações chinesas de carne bovina continuaram crescendo ao longo do ano. Para a especialista, esse movimento demonstra a força da demanda interna e o interesse dos importadores em manter o abastecimento. “Essas importações atendem cortes e segmentos que os produtores chineses não conseguem suprir plenamente e respondem a uma necessidade real dos consumidores”, explicou.

Na visão da sócia-diretora da Vallya Agro, o Brasil tem condições de lidar com o novo cenário e a medida não deve comprometer de forma estrutural a relação bilateral. “O Brasil é altamente competitivo, e os demais exportadores também estarão sujeitos às mesmas regras. Não vejo isso como algo que vá prejudicar enormemente nossa relação com a China”, disse.

Ela destacou ainda a importância da presença institucional brasileira no país asiático, citando a abertura de escritórios da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) na China. “É fundamental estar presente localmente para entender o consumidor, o mercado e as complexidades das negociações internas chinesas. Isso ajuda a amenizar os potenciais efeitos de medidas como essa sobre as exportações”, concluiu.

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